Entre Zizek e Peterson, não há vencedor ou vencido (nem combate)

Em debate, filósofo esloveno e psicólogo canadense mais concordam que discordam

João Pereira Coutinho

[resumo] Colunista da Folha comenta debate entre o filósofo esloveno Slavoj Zizek e o psicólogo canadense Jordan Peterson ocorrido em 19 de abril, em Toronto, no Canadá, em que se sobressaiu uma mensagem a favor do diálogo e contrária ao refúgio nas trincheiras mentecaptas da ideologia. Leia também o texto de Francisco Bosco sobre o tema. 

1.

O debate intelectual do século, diziam os jornais, salivando com a perspectiva de sangue no ringue. A própria iconografia dos cartazes alimentava essa ideia: de um lado, Slavoj Zizek, campeão dos esquerdistas; do outro, Jordan Peterson, peso-pesado dos direitistas. O encontro seria em Toronto com transmissão para todo mundo. E o tema do combate dava pelo nome enigmático de “Happiness: Capitalism Vs Marxism” (felicidade: capitalismo contra marxismo).

Temi o pior. Deixemos de lado o aspecto circense da coisa, que visivelmente incomodou os dois pugilistas (Zizek chegou a pedir moderação nos aplausos das torcidas). O meu problema estava no título de debate: capitalismo ou marxismo no caminho para a felicidade?

Pelo amor de Deus: eu acho que a história já respondeu a essa pergunta. Em todos os países onde o marxismo foi tentado –todos, sem exceção– a pobreza cresceu e os cadáveres acumularam-se. Discutir a viabilidade do marxismo face ao capitalismo para promover a felicidade entre os homens parece-me tão cientificamente válido como discutir se a Terra é redonda ou plana.

Felizmente, nenhum dos participantes afirmou que a Terra era plana, o que só mostra a sanidade de ambos. E, ultrapassada essa evidência, vimos dois pensadores que concordaram mais do que discordaram.

Ilustração do artista plástico Carcarah mostra Jordan Peterson (esq.) e Slavoj Zizek
Ilustração do artista plástico Carcarah mostra Jordan Peterson (esq.) e Slavoj Zizek - Carcarah

2.

Jordan Peterson, que dominou o primeiro round, ainda tentou golpear o adversário via Marx. Peterson leu o “Manifesto Comunista” (um dos textos mais simplórios do velho Karl, diga-se de passagem) e identificou dez erros conceituais.

Não vale a pena resumi-los porque não há novidade ou originalidade na interpretação de Peterson. Já todos sabemos que a história não pode ser reduzida a uma luta de classes. O que move os seres humanos é uma teia complexa de medos, interesses, desejos ou frustrações que não cabe na pequena jaula marxista.

Além disso, e como Peterson lembrou, acreditar que o proletariado, apenas por ser uma alegada vítima da história, apresenta um halo de santidade que o afasta das misérias humanas mais básicas conferindo-lhe um sabedoria especial para governar é de um otimismo antropológico que chega a ser demencial.

Slavoj Zizek não participa desse otimismo. E, com infinita graça, contou várias piadas.

Uma delas: Deus vem à terra e comunica a um homem: “Pede o que quiseres. Mas atenção: aquilo que eu te fizer será oferecido em dobro ao teu vizinho.”

O homem responde: “Tira-me um olho.” 

Pois é. O motor da história é uma luta de classes ou uma luta de ressentimentos? E como acreditar que a coletivização dos meios de produção consegue extrair da alma essas sementes de mesquinhez?

Para Zizek, a palavra “comunismo” só pode ser usada como “provocação”, depois dos desastres do século 20 (que Zizek condenou repetidamente). No seu discurso, o que eu ouvi foi a velha cantiga social-democrata de que é preciso “regular” e “limitar” o capitalismo, não subvertê-lo ou destruí-lo.

Parafraseando Sartre, o comunismo é agora uma forma de humanismo –e o único meio de resolver os problemas globais (a destruição ecológica, as migrações etc.) passa pela cooperação internacional. Quem esperava um Zizek bolchevique apanhou pela frente um Woodrow Wilson para o século 21.

Essa versão delicodoce foi chocante para mim, para o público e até para Peterson, que imediatamente ficou sem estratégia para o debate.

Pior: ele, que estava ali para defender o capitalismo com unhas e dentes, admitiu que existem aspectos do capitalismo que são danosos para as virtudes sociais. As pessoas não são coisas; as relações pessoais não são negócios; a vida não pode ser “comodificada”, sujeita às leis da oferta e da procura.

No fundo, Peterson limitou-se a repetir o velho credo conservador que sempre olhou para a “sociedade comercial” com ambiguidade. O capitalismo, afirmou Peterson, é o pior sistema econômico que existe, com a exceção de todos os outros (uma evocação de Churchill sobre a democracia). Sim, produz riqueza; e, sim, diminui a pobreza. Mas não é incompatível com a luta pela igualdade de oportunidades ou com uma eficaz redistribuição de renda. Jordan Peterson virou escandinavo e Zizek gostou.

3.

Ultrapassadas as diferenças sobre o modelo econômico a seguir –ambos parecem defender, em maior ou menor grau, uma mistura de Estado com mercado– a parte mais interessante do debate veio a seguir. E, nela, Zizek brilhou mais do que Peterson.

Sobre a felicidade, foi notável a recusa utilitarista de Zizek. Tudo que importa na vida é a maior felicidade para o maior número?

Depende do que entendemos por felicidade. Nos países comunistas, felicidade era ter alguém a quem culpar pelos problemas do cotidiano, afirmou Zizek.

Boa observação: a liberdade, a começar pela liberdade individual, sempre traz consigo uma angústia suplementar. Será que devemos recusar essa angústia porque o conforto da prisão nos traz mais felicidade?

Outro exemplo: nas sociedades comunistas, também era possível comer carne quase todos os dias, explicou o filósofo esloveno. Esse “quase”, que seria causa de infelicidade em muitos países ocidentais, na verdade era transformado em argumento de felicidade. O problema não estava na ausência de carne em muitos dias. Estava na graça infinita de ter carne em certos dias. E a vida continuava. Feliz.

4.

Por último, que mensagem tem Zizek para a nova esquerda das causas identitárias que passaram a dominar os debates públicos?

Exatamente a mesma que Jordan Peterson tem para ela: uma mensagem de desprezo e alguma exasperação. O refúgio da esquerda nas microcausas da identidade e nos moralismos (burgueses?) do pensamento politicamente correto, para além de ter produzido Trump, é uma forma de desistência política, de “moralismo impotente”, de narcisismo marginal, acusa Zizek. No passado, a ideia era mudar o mundo. Agora, o desejo revolucionário é mudar as palavras, os pronomes, os gêneros, os banheiros.

Confrontado com essas exibições de farsa, Zizek confessou ter saudades dos velhos comunistas que não se banhavam, com displicência, na sua marginalidade vitimária. Queriam, metaforicamente falando, tomar os palácios de inverno para mudar o essencial.

Jordan Peterson, em silêncio, sorria. Havia admiração naquele rosto –a admiração típica do discípulo perante o mestre?

5.

O combate terminou sem vencedores ou vencidos. Aliás, o combate terminou sem combate.

E não deixa de ser irônico que os dois atletas tenham deixado ao público –aos seus “groupies” histéricos, que riam e aplaudiam como se estivessem num jogo de futebol– a mesma mensagem: escutem mais e falem mais uns com os outros. Não se refugiem nas trincheiras mentecaptas da ideologia.

Um dos sintomas da corrupção mental em curso, afirmou Zizek, está nesta tendência de chamar “fascista” a qualquer pessoa com quem discordamos. Isso não é apenas conceptualmente errado na maioria dos casos. É uma manifestação de preguiça e estupidez – uma nova forma de desistência intelectual.

Não sei se o público ali presente entendeu o alcance dessas palavras. Mas os aplausos que escutei no fim era menos efusivos do que no início. Nem tudo é futebol nesta vida.


João Pereira Coutinho, escritor, cientista político e colunista da Folha, é autor de, entre outros, "As Ideias Conservadoras" (Três Estrelas).

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