Jordan Peterson atrai multidões com discurso épico e conservador

Psicólogo canadense defende capitalismo em duelo com o marxista Slavoj Zizek

M.M. Owen

Qual o melhor caminho para a felicidade: o capitalismo ou o marxismo? A dúvida que atormentou o século 20 parecia superada após a derrocada do comunismo, mas voltará ao foco no mais aguardado duelo intelectual dos últimos tempos.

No dia 19 de abril, o canadense Jordan Peterson e o esloveno Slavoj Zizek têm um encontro marcado no teatro Sony Centre, em Toronto, onde discutirão qual dos dois rumos pode garantir mais prosperidade ao mundo. Os 3.191 ingressos colocados à venda estão esgotados. O site www.jordanvsslavojdebate.com fará a transmissão online ao vivo, ao custo de US$ 14,95 (cerca de R$ 60) por usuário, a partir das 20h30 (horário de Brasília). 

Psicólogo e professor da Universidade de Toronto, Peterson se define como um liberal clássico conservador e ganhou fama com vídeos no YouTube ao se opor a um projeto de lei canadense que regulamenta o uso de pronomes neutros para transgêneros. É autor do best-seller “12 Regras para a Vida” (Alta Books). 

No oposto do espectro político, Zizek é um dos mais renomados e profícuos pensadores marxistas da atualidade. Professor da Universidade de Liubliana e diretor internacional do Instituto de Humanidades do Birkbeck College (Universidade de Londres), aponta que a esquerda erra ao privilegiar políticas identitárias em vez de concentrar esforços na luta contra o capitalismo.


[RESUMO] Psicólogo conservador canadense, chamado de misógino e fascista pela esquerda, vendeu 3 milhões de livros e lota palestras pelo mundo com discurso de tom grandioso e sombrio sobre questões que atormentam a humanidade.

peterson no sofá
O psicólogo canadense Jordan Peterson, da Universidade de Toronto - Lars Pehrson/TT News Agency/AFP

Intelectuais não deveriam se derramar em lágrimas quando estão dando palestras. A sabedoria moderna já deveria ter deixado para trás a discussão de nosso exílio do Éden. O gênero rotulado levianamente de “autoajuda” não costuma implorar ao leitor que “tome consciência de sua própria insuficiência —sua covardia, malevolência, seu ressentimento e ódio”.

Um homem que no verão de 2016 era um quase desconhecido professor de psicologia com visibilidade mínima passou por cima dessas e outras normas culturais —e, nesse processo, vendeu mais de 3 milhões de cópias de seus livros. Jordan B. Peterson é um fenômeno, como também o é seu “12 Regras para a Vida: Um Antídoto para o Caos”. O livro está na lista dos mais vendidos da Amazon há 62 semanas. No Brasil, circula entre os 20 mais vendidos desde maio do ano passado.

Se você já ouviu falar de Peterson, provavelmente o conhece ou como o pensador público mais instigante de uma geração ou como um vendedor de ideias misóginas e protofascistas. A polaridade dessa recepção pública revela a tranquilidade geral da opinião na internet —mas sua intensidade espelha com precisão a intensidade do próprio Peterson.

Não importa o que mais seja verdade em relação a Peterson, ele não finge. Ele fala a sério. Peterson é um homem que parece passar sua vida atormentado pelas grandes questões, certo de que a maneira como escolhemos responder a elas é uma questão de vida e morte.

É por isso, postulo, que um homem que passou 30 anos trabalhando na obscuridade agora está vendendo milhões de livros e viajando em turnês internacionais de palestras com lotação esgotada. Ele defende o argumento de que devemos levar a vida e nos levarmos muito a sério.

Os intelectuais felizes todos se parecem; cada intelectual infeliz é infeliz à sua própria maneira. O que frequentemente é esquecido quando se discute Peterson é que ele passou milhares de horas trabalhando como psicólogo clínico. Ou seja, passou milhares de horas sentado sozinho numa sala com outro ser humano, ouvindo suas dores, tentando ajudá-lo

“12 Regras para a Vida” se inspira nessa experiência para questionar a realidade de como e por que as pessoas sofrem e de que modo podem converter esse sofrimento em algo produtivo. O foco do livro sobre o indivíduo —sobre a responsabilidade pessoal de cada um e sua autonomia psicológica— pode ser politicamente conservador, mas é terapêutico também. 

Como a terapia, o livro não se interessa em ser uma crítica à sociedade, mas em destacar o que um indivíduo pode fazer hoje para sentir-se menos infeliz. Como uma terapia, procura trazer à tona nossas deficiências e nossos pontos cegos interiores, desencadeando um misto de constrangimento e clareza que não precisamos admitir até mais tarde, quando estivermos a sós.

Por cima desse clima terapêutico encontramos uma das tendências mais antiquadas de Peterson: a ideia de que a vida é fundamentalmente trágica e os seres humanos são fundamentalmente falhos. Aqui começamos a ver o que é verdadeiramente estranho nele —e, a meu ver, singularmente atraente.

Em termos mais apropriados para um dramaturgo da Grécia Antiga ou um teólogo medieval que para um youtuber ou um convidado típico do programa “The Joe Rogan Experience”, Peterson fala de uma maneira que faria o papo em um jantar minguar até virar silêncio. 

Ele diz às pessoas que “a tragédia do ser autoconsciente produz sofrimento, sofrimento inevitável” em escala que pode muito facilmente levar “sua alma a... murchar e morrer” (caso você não tenha certeza do que ele quer dizer, ele lhe lembrará de coisas como o inevitável estado de esquecimento que aguarda você e todos que ama).

Peterson diz às pessoas que o Homo sapiens possui “capacidade tão grande de fazer o mal” e tamanha “tendência a cometer ações perversas” que qualquer pessoa honesta tem direito a especular se “talvez o homem seja algo que nunca deveria ter sido” (caso você não tenha certeza do que ele quer dizer, ele lhe lembrará do canibalismo dos gulags ou dos bebês assassinados com golpes de baioneta em Nanquim). 

Ao mesmo tempo, ele cita os mitos mais duradouros da história humana e parafraseia pensadores imperiosos como Dostoiévski e Nietzsche. Faz ao mesmo tempo em que lança mão frequentemente da “palavra G” (gay).

Em suma, Peterson fala sobre a vida em termos mais grandiosos, mais sombrios e mais pesados que qualquer outro intelectual público. Ele o faz com o cenho fortemente cerrado, com a formalidade de um terno com colete e a tendência a se comover até as lágrimas com as coisas que está dizendo. É isso, mais que seu conservadorismo, que perturba seus críticos.

peterson e zizek
Ilustração de capa da Ilustríssima - Carcarah

Observe as interações de Peterson com a grande imprensa. Seus sparrings o combatem em torno de um punhado de tópicos de discussão política, mas, confrontados com sua mensagem mais ampla —a que percorre “12 Regras para a Vida”—, eles não sabem o que dizer.

A vida é uma tragédia tingida por perversidade? Como? Será que entendi direito? Quando Peterson menciona, por exemplo, que a psique de cada ser humano prega peças vergonhosas e autodestrutivas sobre a própria pessoa, seus interlocutores corteses, treinados para aparecer na mídia, não conseguem responder porque se sentem constrangidos demais diante da perspectiva de dialogar com um pessimismo de dimensões tão épicas.

As descrições feitas por jornalistas de seus encontros com Peterson muitas vezes são marcadas por uma confusão forçada e atônita, pontuada por detalhes irrelevantes e expressões de constrangimento.

Eles se deleitam com os momentos em que o entrevistador arranca uma reação de mau humor do entrevistado. Tudo isso faz sentido: o humor é nossa defesa mais habitual contra a seriedade insuportável. É a risadinha na igreja, a anedota bobinha contada num funeral, o gracejo quando um amigo conta que se “encontrou”.

E, se a mensagem de Peterson não é descartada como sendo terrivelmente exagerada, insuportavelmente pessimista, ela é descrita como sendo o inverso, trivial e clichê. Ao ouvir a sugestão “faça amizade com pessoas que lhe desejam o bem” (regra três do livro), em vez de considerar que um psicólogo profissional com 30 anos de experiência pode estar querendo dizer algo que vai além da versão mais superficial dessa frase, seus críticos vão se parabenizar por terem identificado um lugar-comum.

Peterson é retratado como sendo de alguma maneira tanto um nazista em segredo quanto um rabiscador de textos mornos de autoajuda. Ele é ao mesmo tempo o transmissor de novas mensagens sombrias e incendiárias e de materiais tão batidos que mal merecem ser discutidos.

Que fique claro: não estou querendo sugerir que a visão de mundo de Peterson seja tão brilhante e perfeitamente concebida que não deixa margem para contestações. Ela não o é, e deixa margem, sim (ele nega a mudança climática, para começo de conversa).

Mas a razão por que há uma tendência tão ampla a descartar sua mensagem, tachando-a de ou séria demais ou simples demais, é porque, quando a descartamos, aquilo que ele está dizendo pode ser visto como irreal, ocupando um lugar mais próximo da poesia ou da ficção que de um relato real da vida. E esse enquadramento permite que nos desviemos da sinceridade sufocante de Peterson e da escala e profundidade de suas obsessões.

O que vemos é que existe no âmbito do comentário cultural mais amplo uma recusa em encarar as questões mais profundas e tenebrosas da vida. Não dos assuntos candentes do momento, mas da vida.

Em lugar de ser um convidado cortês a um debate que veio oferecer algumas réplicas polidas, Peterson tem o ar de um pregador que está passando por uma longa noite de trevas da alma. E sua seriedade de nível religioso simplesmente nos espanta porque, tirando a angústia política exagerada, o que se espera do comentário cultural é que seja essencialmente leve e divertido. Talvez não em seus tópicos, mas com certeza em seu tom.

Peterson diz que seu projeto foi inspirado inicialmente pela pergunta: confrontado com a oportunidade de ser um guarda em Auschwitz, como você pode se proteger contra dizer ‘sim’? É uma pergunta e tanto. Não imagino que a maioria de seus críticos tenha algo que sequer chegue perto de uma resposta séria a ela. Ahn... fazer ioga? Votar em Bernie Sanders?

Tirando a perplexidade polida, o modo mais comum usado pelos críticos de Peterson para evitar uma discussão franca sobre sua visão de mundo é descrevê-la como um grande apelo ao coração sombrio da misoginia. Essa é a controvérsia de Peterson resumida em poucas palavras: ele agrada aos homens. E qualquer coisa que agrada aos homens é sinistra, reza essa lógica, porque grande número de homens de acordo sobre algo é igual ao ingrediente central do patriarcado.

Não há dúvida de que partes da obra de Peterson atraem superficialmente o lado mais podre da internet composto de misóginos inveterados. Seria tolice fingir que não é assim. Peterson diz aos homens que tudo bem ser homem; ele é tradicionalista e crê que o casamento é sagrado; ele encara com ceticismo os frutos do controle de natalidade feminino. Não há dúvida de que alguns de seus seguidores fazem parte da massa de homens amargurados que foram ignorados pelas garotas mais bonitas do colégio.

Mas uma parcela muito maior de seus fãs parece ter sido inspirada a sentir o oposto do ódio ou do ressentimento. Peterson diz que é abordado por homens “cem vezes por semana” que lhe contam uma história de como “reconstruíram sua vida” graças a ele. Pelo menos um desses homens teria estado prestes a cometer suicídio.

Segundo os relatos de dezenas de milhares de pessoas que já assistiram às palestras de Peterson, o ambiente nesses eventos é sobretudo positivo; os presentes não são “incels” (celibatários involuntários) agitados que agradecem ao psicólogo por ensiná-los como odiar as mulheres, mas pessoas normais que se sentem gratas pelo fato de Peterson ajudá-las a melhorar suas vidas.

Tudo isso é uma continuação da vida de Peterson antes de chegar à fama, quando, na Universidade de Toronto, ele era com frequência descrito por estudantes como alguém que “transformara a vida” deles.

Reiteramos: nada disso significa que não existam elementos do pensamento de Peterson que mereçam ser examinados de perto. O fato, porém, é que ele parece possuir uma capacidade espantosa de se conectar com homens jovens perdidos. Parece razoável pensar que tenha ajudado muito mais desses rapazes do que os prejudicado.

Embora seus críticos mais ferrenhos o rotulem de protofascista, Peterson afirma que muitos nas margens da extrema direita já lhe escreveram para dizer que suas palestras os fizeram recuar desse extremo. Em todo o Ocidente, em graus diversos, os homens estão sobrerrepresentados entre os suicidas, os alcoólatras, os sem-teto e os detentos.

Há cada vez mais homens sem instrução e desempregados. O fato de a mensagem de Peterson estar realmente alcançando e auxiliando homens em situação de sofrimento é, muitas vezes, completamente ignorado por pessoas que em outros momentos estariam ostensivamente lamentando esse estado de coisas.

E, como acontece com sua mensagem mais ampla, a razão principal por que Peterson consegue de fato comunicar-se com homens tem a ver, acredito eu, com o fato de se dispor a levar a sério a questão de como eles devem viver a vida.

A chamada crise da masculinidade parece genuinamente partir seu coração, e, com espírito terapêutico,  procura oferecer conselhos aos homens, conselhos que são ao mesmo tempo solenes quando tratam das cargas que a vida impõe às pessoas e gravemente serenos quando tratam de seu potencial.

“Peço aos homens que sejam mais honestos”, diz Peterson, “especialmente em seu discurso e seu pensamento; que sejam mais responsáveis por eles mesmos, sua família e sua comunidade, que amadureçam, assumam sua responsabilidade e vivam uma vida responsável e com significado”. Ele envolve essa mensagem no carisma de uma história antiga e fala sem pestanejar sobre virtudes tremendamente antiquadas como coragem, bravura, resiliência e confiabilidade.

Seu discurso é direto e simples, destituído do brilho insinuante e servil que acompanha a maior parte do discurso público. Sua retórica às vezes arqueia sob o peso de preocupações cósmicas e é imbuída da experiência pessoal de Peterson da depressão “muito grave”.

Ao cerne do estilo retórico de Peterson está a mais antiga das prescrições masculinas: aguente firme. Simplesmente faça. Enxergue isso como retrógrado se você quiser, mas não é por nada que o exemplo masculino arquetípico é o do sábio inacessível, do treinador esportivo rígido, do instrutor militar implacável. 

Como posso atestar pela minha própria experiência quando tinha 20 e poucos anos, um homem sempre vai tender a ser um meninão se você o deixar. Mas “os homens precisam crescer e virar adultos”, diz Peterson. Isso ajudará você a parar de desperdiçar sua vida, vai ajudá-lo a superar a tentação fria do niilismo. Ajudará você a ser um bom pai, um bom marido, um bom amigo. 

Conheça sua própria alma, diz ele. Todos os horrores da história humana, dos pessoais aos geopolíticos, começaram com pessoas que não entraram em contato com seus próprios demônios, que não embarcaram em sua própria jornada de herói. Chame a isso uma espécie de narcisismo masculino se quiser —imaginar-se matando um dragão enquanto preenche uma planilha, para fugir do tédio opressivo dos dias—, mas é o que é.

Quer sejam Homero, Plutarco, Sun Tzu, Nietzsche, Emerson, Hemingway ou Cormac McCarthy, os homens são e sempre foram atraídos pela escrita dramática, pesada, instigante; pela escrita que evoca horrores em busca de revelações. Muitos homens levam vidas de desespero silencioso. Pode ser preciso algo ruidoso para romper esse silêncio.

Para reiterar uma última vez: nada disso significa que você tenha que gostar das posições políticas de Peterson. Você pode detestá-las. Não pode, porém, dizer que seu carisma seja nada mais que um apelo ao velho conservadorismo empoeirado.

Conservadores agitados não estão vendendo 3 milhões de exemplares de um livro sobre autoaperfeiçoamento. Se você abrir “12 Regras para a Vida”, verá que contém pouca política explícita. E, se examinar os fãs do autor ou acompanhar uma das sessões de autógrafos após suas palestras, verá que não é a política que os motiva.

A motivação vem da seriedade enorme e estranha de Peterson; de sua disposição de falar em tom arcano e grandioso sobre a existência, o desafio de ser consciente e as batalhas invisíveis que compõem uma parte tão grande de estar vivo.

A verdade é a seguinte: a vida acontece no âmbito íntimo. Em especial o sofrimento psíquico ocorre em particular, e uma parte inconvenientemente grande da vida por acaso assume alguma forma de sofrimento psíquico. Sim, há um mundo grande lá fora que nos chega através de nossos sentidos a todo momento —mas tudo o que constitui esse lá fora não é, nem de longe, tão incessante ou ruidoso ou fundamental à qualidade essencial da vida quanto são os movimentos da mente. 

Em última análise, esses movimentos são a própria vida. Não somos as opiniões às quais nos aferramos em voz alta, mas essa tapeçaria estranha e secreta que, se tivermos sorte, algumas poucas pessoas vão vislumbrar em algum momento. Tecê-la com mais intenção do que acaso constitui o desafio básico da vida. 

A dimensão política tem importância; as mentes refletem sua sociedade. No entanto, depois da passeata de protesto, voltamos para casa e para a solidão da cabeça deitada sobre o travesseiro.

A sociedade muda devagar, se é que muda, e para a maioria das pessoas a situação é urgente e pessoal. Como elas atravessam o fogo vai depender não do resultado de uma eleição nacional daqui a quatro anos —e sim de elas conseguirem aprender a encarar seus defeitos, munir-se de humildade, suportar o peso de seus próprios pensamentos e superar mil outras provações interiores.

“Não importa por quanto tempo o adiemos”, escreveu Joan Didion, “em algum momento vamos acabar deitando sozinhos naquela cama notoriamente desconfortável —a cama que arrumamos para nós mesmos”. Mesmo que o trabalho de arrumar essa cama seja alimentado com terapia, é um trabalho solitário. Cada uma das pessoas equilibradas e positivas de verdade têm muita familiaridade com o ato da autoautoria, para emprestar o nome do curso online de Peterson.

Tudo bem se você não gostar do ódio de Peterson à política coletivista; tudo bem preferir alguém que possa propor um antídoto ao caos sem afirmar que o dito caos “está simbolicamente associado ao feminino”. Tudo bem que você prefira alguém que não pareça tão paranoico em relação ao pós-modernismo ou que não insista em ficar falando em Carl Jung.

A popularidade de Peterson revela que, no atual momento cultural, qualquer projeto que queira calar fundo nas pessoas fará bem em levar a vida a sério, de uma maneira que, dentro do discurso do mainstream, correrá o risco de ser visto como antiquado e sério em excesso. Especialmente, talvez, se esse projeto quiser falar com os homens.

Os inimigos políticos de Peterson, em especial, podem querer considerar o seguinte. A esquerda pode atacar as declarações políticas dele furiosamente, e de fato as ataca, porque falar de política é algo que lhe é natural. Mas e a psique? “Regras para a vida”? A história da esquerda é uma história de ateísmo selvagem e libertador —e uma discussão das verdades tenebrosas que flutuam em nossa alma soa como algo suspeitamente religioso.

De modo geral, excetuando as prescrições mais vagas possíveis —procure não ter pensamentos racistas, por exemplo—, a esquerda moderna evita a vida interior. Ela é ótima quando se trata de dizer às pessoais de quais políticos zombar, orientá-las quanto a quais petições assinar, quais documentários ver, quais comportamentos limitar. Ela não é igualmente ótima quando o tópico é por que a vida vale a pena ser vivida. Ou como podemos começar a nos orientar nos corredores bizarros e íntimos do eu.

O fenômeno de Peterson revela que, mesmo em nossa era blasé e tecnocrática em que vivemos apenas de pão, questões de dimensões grandiosas ainda fascinam as pessoas, se a busca por uma resposta a elas for persuasiva o bastante.

Em linguagem bastante grandiosa para agradar a um Jordan Peterson, T.S. Eliot disse que “existe um que se lembra do caminho até sua porta. Você pode se esquivar da vida, mas não fugirá da morte”. Mas existe na maioria das pessoas, em algum lugar, uma sede por pensamentos e palavras que não procurem esquivar-se nem de uma nem da outra.


M.M. Owen é escritor e doutor em literatura pela Universidade da Colúmbia Britânica.

Tradução de Clara Allain.

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