Antunes Filho era educador em última instância, escreve Danilo Miranda

Diretor do Sesc lembra encenador morto no dia 2 e saúda seu célebre método de ensino

Danilo Santos de Miranda

[RESUMO] Diretor do Sesc lembra Antunes Filho, morto no dia 2 aos 89, um dos principais nomes do teatro brasileiro, cuja residência ficava sob a égide da instituição; ele saúda seu célebre método de ensino, que buscava nutrir atores de arte e de mundo.

O teatro sempre foi meu principal ponto de acolhimento nas artes desde que cheguei a São Paulo, no final dos anos 1960.

Depois de frequentar muito o político, histórico e necessário Teatro de Arena de Boal e Guarnieri, fechado pela ditadura militar em 1972, observei, ao longo das décadas, entre tantas produções pungentes, duas estéticas dicotômicas erigirem criações cênicas distintas e igualmente potentes: José Celso Martinez Corrêa e sua atuação dionisíaca, caótica, poética, tropicalista e visceral e Antunes Filho, guardião do apolíneo, do racional, da confrontação clássica de palco e plateia e do pós-modernista criador pedagogo.

Adepto de um método realista, Antunes tinha seus dois alicerces no começo de sua carreira, o inescapável Constantin Stanislávski, em quem se baseava para fazer a formação de seu ator-cidadão, e na arte cinematográfica.

Sua metodologia passava por recomendações de audições, vídeos e infindáveis leituras de Ingmar Bergman a Friedrich Nietzsche, de Carl Jung a Mário de Andrade, para que o ator, nutrido de arte e de mundo, chegasse ao palco totalmente expurgado, pronto para ser conduzido pelo balé de suas longas e famosas mãos na liturgia do profano mais sagrado que ele já conheceu em essência: o teatro.

Desafiador como diretor, criou o fonemol, língua ininteligível inspirada nas direções de Andrei Serban, para que ruídos sem sentido dispensassem o entendimento do texto se contrapondo à entonação e à linguagem do próprio corpo do ator. “Nova Velha História” (1991) inaugurou essa técnica, que baseou também uma de suas últimas criações, “Blanche” (2016), trabalhos que resultaram em uma complexa catarse dramática tanto para o público quanto para o elenco.

Sua admissão como funcionário do Sesc, sob a assinatura de nosso presidente Abram Szajman, aconteceu em 1982, dois anos antes de eu assumir a direção. Devo confessar que houve um estranhamento breve entre Antunes e eu naquele momento. 

Desconfiado de minha trajetória anterior como gestor no Senac, ele não sabia de minha admiração pelo teatro e tampouco eu mesmo conhecia profundamente suas obras. Bastou testemunhar uma apresentação de seu repertório para que nos sentíssemos próximos e eu nunca mais esquecesse a cena da guerra entre Montecchios e Capuletos no palco desnudo, recebendo uma batelada de bolinhas de cores diferentes em lançamentos cruzados.

Educador em última instância, Antunes nunca se recusou a explicar o teatro em público. Ilustrou sua criação cênica e o trabalho do Centro de Pesquisa Teatral a mais de 20 turmas de novos colegas ingressantes. Sentava-se diante da plateia neófita com certo descaso capitular, empunhando seu cachimbo, mas logo depois se tornava eloquente e generoso. 

Essas reconhecidas mãos guiaram diferentes gerações de atores e sua instigante figura fazia com que o rompimento com o mestre fosse algo desejável e esperado por seus discípulos. Contradizê-lo significava a alforria dos liames do diretor genial e, ao mesmo tempo, uma titulação de ator completo.

Não tinha fadiga que o tirasse do teatro. Como espectador, viu tudo de sua época. De Robert Wilson a Tadeusz Kantor, a quem fez uma homenagem compondo performances para a exposição em virtude de seu centenário realizada em 2015 pelo Sesc e o Ministério da Cultura da Polônia.

Excitado com a performance singular de Kazuo Ohno (1906-2010) quando o butô ainda não era tão estudado no Brasil, Antunes se tornou amigo do coreógrafo, convidou-o três vezes para se apresentar no Teatro Sesc Anchieta e se mostrou muito abatido ao saber da morte daquele ser humano híbrido, inspirador e fascinante.

Antunes trouxe à ribalta exemplos da literatura brasileira como um virtuose da intertextualidade teatral. “Macunaíma” (1978), “A Pedra do Reino” (2006) e “Policarpo Quaresma” (2010) são algumas das peças do repertório de uma literatura que o encantou e que, cada uma delas a seu modo, moldava um pouco do arquétipo do brasileiro. 

A memorável cena de seu Policarpo Quaresma raivoso, tripudiando em cima de um formigueiro enquanto o hino nacional era executado por inteiro, rendeu a seu protagonista —e a ele próprio— aplausos em cena aberta em absolutamente todas as récitas.

O Sesc é uma das principais editoras sobre o ofício teatral no Brasil. Dos 27 livros sobre o tema, dois são exclusivos sobre Antunes Filho. “Hierofania”, do saudoso Sebastião Milaré, e “Antunes Filho: Poeta da Cena”, com fotos de Emidio Luisi e textos de Milaré e Antonio Gonçalves Filho.

Em 1999, Antunes foi organizador do livro que estreou o ciclo de dramaturgia do CPT. Sob seus cuidados, as peças foram engendradas e depois representadas durante os dez anos do projeto Prêt-à-Porter com textos, atores e codiretores jovens.

Até o ano passado, Antunes viajou para festivais para ver peças de amigos e companheiros de profissão e estreou seu último trabalho, “Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse” (2018) no Mirada, no Sesc Santos. Trabalhou exaustivamente todos os dias no Sesc Consolação por quase 40 anos. Tinha aversão à aposentadoria ou a qualquer assunto fora do ambiente cênico, pois se afastava sempre da mais tênue ideia de finitude do ser humano. A morte lhe parecia uma injustiça. 

Em 2007, o Conselho do Sesc escolheu batizar o teatro do Sesc Vila Mariana com o seu nome. Ao ser anunciado o feito, acreditei que trazia uma boa notícia pelo reconhecimento profissional. Pelo contrário, fui repreendido por querer materializar inanimadamente um homem ativo e seguro de que ainda regeria por mais de uma década —felizmente ele estava certo.

A homenagem pretende dar eco à memória e concretizá-la simbolicamente no teatro, lugar físico onde ele passou a maior parte de sua vida e onde ele próprio reside em nós. Neste ano, já acamado, perguntou a amigos se eu ia visitá-lo ou se telefonaria para dar ordem ao médico em clamor por sua alta hospitalar. 

Se dependesse de mim, Antunes estaria conosco para criar muito mais que os dois Nelson Rodrigues e a comédia esperançosa de Groucho Marx que fervilhavam na sua imaginação até os últimos momentos.

Na minha limitada condição de gestor cultural, impotente perante a finitude da vida, o que me cabe é gerir seu legado no Sesc: seu acervo, suas entrevistas, seus escritos e os vídeos de todos os trabalhos que registramos para um livre desfrute de quem quiser conhecer esse extraordinário descobridor de um Apolo tragicômico.


Danilo Santos de Miranda, sociólogo, é diretor regional do Sesc-SP (Serviço Social do Comércio).

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.