Redes sociais destruíram ideia de privacidade, diz pesquisadora

Única proteção contra exposição de intimidades é a transparência, avalia jornalista

Luiza Pastor

[RESUMO] Ascensão de redes sociais destruiu o conceito de privacidade disseminado nos últimos três séculos, diz jornalista, para quem a única proteção contra a exposição de intimidades e a divulgação de mentiras é a transparência em nossos atos.

dedos mexem em celular
Smartphone com aplicativos de redes sociais como Facebook, WhatsApp e Instagram - AFP

Houve um tempo em que o jornalismo investigativo vivia de “off-the-record”, off para os íntimos, entrevistas confidenciais que pessoas bem informadas sobre algum assunto de interesse davam a repórteres em que confiavam, em troca de não terem sua identidade revelada. 

Foram os offs do informante Deep Throat, por exemplo, que derrubaram o então presidente dos EUA, Richard Nixon, em 1974, ao mostrarem o caminho para que os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal The Washington Post, revelassem ao público o esquema criminoso de instalar aparelhos de escuta no comitê nacional do Partido Democrata, no edifício Watergate.

Só em 2005, mais de três décadas após o escândalo, revelou-se a verdadeira identidade da fonte: ninguém menos que W. Mark Felt, ex-vice-presidente do FBI na década de 1970.

Eram tempos em que uma caneta, um bloquinho e uma agenda de telefones privilegiada constituíam todo o hardware básico de investigação de qualquer jornalista. Um profissional sério desprezava até os gravadores de fita cassete, que em geral intimidavam os entrevistados. A palavra gravada precisava ser cuidadosamente medida e calculada. Em off, a conversa corria mais solta. Assim nasciam os grandes furos. 

Por óbvio, naquele tempo já havia pequenos gadgets desenvolvidos pelas agências de espionagem internacionais que permitiam instalar dispositivos de gravação e filmagem disfarçados de abajures, canetas, óculos e até botões de roupa. Nada disso, porém, era de fácil acesso às pessoas comuns —o que só mudaria com o advento dos smartphones, a partir do final da década de 1990. 

A cumplicidade entre internet e dispositivos móveis de captação de som, imagem e informação, com a possibilidade de retransmissão instantânea do material captado, alterou de vez a relação entre o homem moderno e seu ambiente social. Começava, nesse momento, a grande derrocada da privacidade como a conhecemos um dia. 

Ao contrário do que se pode imaginar, a privacidade não é um bem inato no ser humano. Nossos primeiros ancestrais, abrigados em cavernas em torno de uma fogueira, conviviam com o grupo em todas as suas atividades cotidianas. Os lugares privilegiados, mais próximos do fogo, eram conquistados pelos mais fortes, que levavam para lá seus protegidos. 

Aos poucos, os clãs formados empurraram os mais fracos para as beiras, forçando-os a acender suas próprias fogueiras ou mesmo a procurar outro abrigo. A privacidade, nesse primeiro momento da história, passava a ser interna a cada clã, caverna ou, mais adiante, a ocas das tribos.

À medida que a urbanização avançava junto à sofisticação das relações entre os grupos sociais, as paredes delimitaram o segundo momento da privacidade, que passava a pertencer, com pequenas variações, às classes mais privilegiadas. 

Mesmo nos castelos, porém, era frequente que cortesãos e servos de confiança dormissem no mesmo quarto que os nobres, prontos para atender a quaisquer necessidades destes, fossem elas atiçar o fogo das lareiras ou tirar o urinol para fora.

A própria consumação dos casamentos reais era testemunhada por outros nobres, que atestariam o acontecimento e assegurariam que a noiva chegara imaculada ao leito —e que, consequentemente, um futuro herdeiro do título seria fruto daquela união. Enquanto isso, entre os mais pobres, o mais comum era todos se amontoarem em um único aposento, junto a animais que precisassem de abrigo contra o frio.

Com a ascensão da classe burguesa e a consolidação da moral católica no Ocidente, cristalizou-se o conceito de privacidade entre quatro paredes para os diferentes membros da família, o que permitia preservar as virtudes de pureza e castidade, principalmente das mulheres, como ativo a ser negociado. 

Foi no século 17 que se disseminou o conceito do filósofo inglês John Locke (1632-1704), segundo o qual “ainda que a terra e todas as criaturas inferiores pertençam em comum a todos os homens, cada um guarda a propriedade de sua própria pessoa; sobre esta ninguém tem qualquer direito, exceto ela”. Nascia ali o esboço da suíte nas habitações civilizadas. 

Entre as quatro paredes dos recém-construídos quartos, floresceu o hábito dos diários pessoais, nos quais aqueles raros letrados deixavam suas impressões sobre a vida, os costumes e suas atividades cotidianas.

São eles as maiores fontes de informação sobre o dia a dia das gentes, muitas vezes contestando até a própria história oficial, aquela contada pelo vencedor e eivada dos vícios da manutenção do status quo. Ali estavam os primeiros ensaios do que viriam a ser, no futuro, os blogs disseminados via internet.

Nos três séculos seguintes, a sociedade ocidental conviveria com uma verdadeira obsessão pela privacidade, tida como sinônimo de intimidade. Segredos de alcova, segredos profissionais, segredos culinários —a todos havia a possibilidade de uma área reservada para defender seus interesses.

A informação era um ativo valioso, reservado a poucos. Ativo valioso, ainda é. Reservado a poucos, não mais. 

A primeira rede social via internet nos moldes atuais, a Classmates, surgiu em 1995, nos Estados Unidos e Canadá. Era voltada para a troca de informações entre estudantes universitários. Desde então, as redes se multiplicaram e acabaram por se transformar nos principais polos de disseminação de informação do planeta.

A maior rede disponível hoje, o Facebook, foi criada em 2004 pelos estudantes de Harvard Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin, Chris Hughes e Dustin Moskovitz. Reúne mais de 2,2 bilhões de usuários, entre pessoas reais, perfis falsos e robôs

A partir dessa capilarização —à qual se somam Twitter, Instagram, LinkedIn e WhatsApp—, foi destruído o conceito de privacidade vigente nos moldes do que prega o artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Nele, se lê que “ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação”. 

A previsão de que “contra tais intromissões ou ataques toda pessoa tem direito à proteção da lei” tem provocado, nas últimas décadas, violentas discussões sobre os limites reais e viáveis do enunciado frente à nova realidade do universo virtual.

Os muitos escândalos revelados nos últimos anos confirmam que as redes, os mecanismos de busca, os aplicativos de celulares —tudo aquilo que tanto facilita a vida moderna— se transformaram em uma alegre concessão que fazemos, a cada dia, à invasão total e inevitável de informações a nosso respeito. 

Por meio dessas redes, a indústria e o comércio sabem o que mais consumimos, presidentes são eleitos e derrubados e os pecados que gostaríamos de ver escondidos são tornados públicos. 

Nada do que você fizer ou deixar de fazer passará ao largo do olhar afiado do Big Brother do século 21. Big Brother que não é mais aquele descrito por George Orwell no romance “1984”, publicado em 1949, no qual a vigilância se dava através de um aparelho de televisor que via tudo o que o cidadão fazia entre quatro paredes.

O onipresente olho moderno vai muito além: nos acompanha a cada passo que damos, tem o histórico de nossos movimentos e nos reconhece por rosto e postura corporal até mesmo quando circulamos, pretensamente anônimos, em meio às multidões dos blocos carnavalescos do Rio de Janeiro. 

Nesse cenário, que imaginaríamos puramente distópico pouco tempo atrás, o exemplo citado das denúncias do caso Watergate teria desenvolvimento um pouco diferente. 

Os jornalistas Woodward e Bernstein, logo após a primeira reportagem publicada, teriam sido rastreados por GPS em seus celulares. Felt, o informante cujo anonimato foi mantido por mais de 30 anos, teria sido identificado poucos minutos depois das confidências feitas na calada da noite. Um batalhão de robôs dispararia imediatamente uma avalanche de contrainformação para contestar as denúncias, iniciando-se uma intensa campanha de desmoralização dos mensageiros, ou seja, dos repórteres e seu jornal.

Vemos isso todos os dias, nos quatro cantos do planeta. Agora mesmo, no Brasil, vivemos uma verdadeira guerra de informação e contrainformação em torno de mensagens aparentemente pouco republicanas captadas por alguém no âmbito do aplicativo de mensagens Telegram. 

Esse aplicativo, alternativa considerada por muitos mais segura que o manjado WhatsApp, mostrou-se tão vulnerável quanto qualquer conversa no boteco da esquina.

Por melhor que seja a criptografia desenvolvida pelos geniozinhos de plantão, e mesmo que ela não seja quebrada num primeiro momento na origem, sempre haverá aquele que, por maldade, espírito de preservação histórica ou instinto de autopreservação, fotografará e guardará todo o material recebido. Exemplos como esse não faltam, para o bem e para o mal. 

Mas como, então, pergunta-se o cidadão, podemos pretender atender ao que estabelece a Declaração dos Direitos Humanos? A resposta mais simples e imediata é: não podemos. Não mais. Não por enquanto. 

É preciso abandonar de vez o conceito de privacidade que norteou as relações desde a criação dos primeiros agrupamentos sociais. Em um mundo no qual a própria voz gravada e a imagem podem ser manipulados por inteligência artificial, fazendo-nos dizer e fazer o que jamais cogitaríamos, a única solução possível parece ser, por enquanto, contrapor a verdade à mentira por meio das mesmas ferramentas. 

Se todos souberem o que você é, o que você faz e como o faz, restará pelo menos a dúvida. Transparência é a vacina da década —e isso não é mera retórica. Nossa única proteção, hoje, é sermos autênticos e assumirmos nossos atos e desejos, mesmo que para isso precisemos forçar uma cunha no tecido social e seus costumes. 

A reação, por meio dos dogmas religiosos e morais, últimos baluartes de controle do que não pode mais ser controlado, será —e, na prática, já é— virulenta, proporcional à capacidade do indivíduo de sair de seu armário, assumir-se diferente e agir conforme seus princípios. 

Como nas cavernas de nossos ancestrais, todos voltaram a poder ver tudo o que fazemos, o tempo todo. No lugar do tacape, brandimos a tecla enter para atingir nossos inimigos —e, às vezes, até os amigos. 

Fácil não é, mas é o que temos para o momento. O resto é ilusão. 


Luiza Pastor é jornalista e pesquisadora associada do Copenhagen Institute for Future Studies (CIFS) no Brasil.

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