Descrição de chapéu Perspectivas

Nenhum livro precisa de manual de instruções, diz autora

Toda tese que sugere entraves à leitura presta um desserviço, segundo especialista em James Joyce

Dirce Waltrick do Amarante

Em 4 de agosto, a Ilustríssima publicou um artigo de Irinêo Baptista Netto, intitulado “Há livros impossíveis de ler sem ajuda de outros textos”. 

Tivesse sido uma pergunta em vez de uma afirmação taxativa, poderia ser respondida por Graciliano Ramos. Em “Infância”, livro autobiográfico, ele conta ao leitor como foi sua aproximação com a literatura num ambiente culturalmente inóspito, em que livros não faziam parte de seu dia a dia.

Aos nove anos, o menino Graciliano “era quase analfabeto”, e os livros de literatura eram todos incompreensíveis para ele. Desesperado, pediu a uma prima que lesse com ele e o auxiliasse “na decifração” de um romance. A prima, prossegue o escritor, “respondeu com uma pergunta que me espantou. Por que não me arriscava a tentar a leitura sozinho?”. 

Foi o que ele fez: “Tomei coragem, fui esconder-me no quintal [...]. Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente”.

Outras experiências de leitura tão inusitadas seguiram-se a essa, e o novo leitor, sozinho, percorreu a biblioteca de um conhecido da família, que lhe deixava os livros à disposição, sem comentários, sem discussões, sem censura. Não é preciso dizer que essa liberdade de leitura, em todos os sentidos, talvez tenha sido fundamental para formar o grande escritor Graciliano Ramos. 

Ele aprendeu que, como leitor, tinha liberdade para “decifrar” romances. Aliás, vale aqui lembrar que, para o pensador italiano Giorgio Agamben, “toda leitura é autobiográfica”, ou seja, depende de quem lê e, não necessariamente, de quem escreve. 

Irinêo Baptista Netto, contudo, parece discordar desse postulado ao citar Wayne C. Booth, para quem “toda arte pressupõe a escolha do artista. Se destruirmos a noção de escolha, é a arte que aniquilamos. A verdade é que nunca se pode silenciar a voz do autor. Não há autor que consiga criar uma obra revelando completa imparcialidade”.

A questão mais polêmica do texto de Irinêo talvez seja a de que alguns livros não funcionam sozinhos. Uma afirmação tão taxativa pode afastar leitores, pois supõe, já de início, um entrave à leitura. Toda tese que desestimula a leitura como experiência única, em qualquer faixa etária, acaba prestando um desserviço.

Para referendar sua tese, o professor cita como exemplo o romance “Ulisses”, de James Joyce, e lembra que “o próprio Joyce se viu obrigado a dar dicas de leitura”. “O autor criou uma lista de temas relacionados a cada capítulo, mas ela mesma é um pouco cifrada”, afirmou. 

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O clássico "Ulysses", de James Joyce - Folhapress

A propósito dessa lista, Vladimir Nabokov escreveu: “Depois da publicação da obra em partes, Joyce suprimiu os títulos pseudo-homéricos dos capítulos ao comprovar do que eram capazes os chatos mais eruditos ou pseudoeruditos. A propósito: um chato chamado Stuart Gilbert, enganado por umas listas que o próprio Joyce compilou por graça, descobriu em cada capítulo o predomínio de um órgão específico —o ouvido, o olho, o estômago etc. Ignoremos também estas tontices. Toda arte é de certo modo simbólica, mas diremos ‘Alto aí, ladrão!’ ao crítico que transforma deliberadamente o símbolo sutil do artista numa alegoria rançosa de pedante [...]”.

Listas, guias, notas e todo o aparato crítico são sempre muito bem-vindos, mas não dão a palavra final sobre obra alguma e não são mais importantes do que a própria obra. Nenhum livro, a meu ver, e contrariando o que postula o ensaísta, “precisa de um manual de instruções”. 

Irinêo também não deixa claro por que mantém o título do romance de Joyce em inglês (“Ulysses”). Ou estaria se referindo apenas à tradução de Caetano Galindo para a Companhia das Letras? Seria interessante esclarecer essa escolha, uma vez que nas duas traduções anteriores para o português brasileiro o título foi grafado como “Ulisses” —e uma delas, assinada por Bernardina Pinheiro, vem acompanhada de notas.

Por fim, o professor parece acreditar que nos afastamos ainda mais de “Ulisses” nos dias de hoje, pois “certas referências que poderiam fazer sentido para alguém que vivia na primeira metade do século 20 se tornaram obscuras e inacessíveis para o público de hoje”.

Toda boa literatura tem a possibilidade de ressignificar, em qualquer época. Não é preciso conhecer profundamente o contexto histórico do livro para desfrutá-lo hoje.

No que tange a “Ulisses”, o romance é justamente interessante porque comporta inúmeras leituras, hoje e sempre: a política, a religiosa, a feminista... E por que não também a anacrônica? 


Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, do guia de leitura “Para Ler Finnegans Wake de James Joyce” (Iluminuras), traduziu e organizou “Finnegans Wake (por um fio)”, também pela editora Iluminuras.

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