Werner Herzog prepara volta à Amazônia, critica ambientalistas e celebra 'Star Wars'

Cineasta alemão fala à Folha sobre o projeto da série 'Fordlandia' e a ameaça de 'extinção radical' de culturas

homem olha barco subir montanha

Klaus Kinski em cena antológica de "Fitzcarraldo" (1982) Divulgação

Walter Porto

[RESUMO] Com o projeto de série "Fordlandia", Werner Herzog volta à Amazônia, onde fez filmagem caótica de "Fitzcarraldo"; em entrevista, cineasta alemão de 77 anos defende a selva, critica postura de ambientalistas e celebra mitologia de "Star Wars".

Em uma das últimas cenas do documentário “Burden of Dreams” (1982), que registrou os bastidores das penosas gravações de “Fitzcarraldo” (1982) na Amazônia, um entrevistador pergunta ao cineasta Werner Herzog quais são seus próximos planos. “Não devo fazer filmes nunca mais”, ele responde. “Devo ir direto para um manicômio.”

É um exagero desmentido pelas dezenas de filmes rodados pelo diretor alemão desde então, mas retrata a estafa que o consumia naquele estágio avançado da calamitosa produção.

Em outra cena, Herzog afirma que aquela floresta “é uma terra que Deus, se existe, criou com raiva”. “Há algum tipo de harmonia, a do assassínio coletivo e avassalador”, atesta. “Mas quando digo isso, é cheio de admiração. Eu amo a selva, mas a amo contra o meu melhor julgamento.”

 

As declarações desopilam uma experiência de anos de filmagem caótica na Amazônia peruana, em meio a conflitos territoriais, ameaças a comunidades indígenas locais e, como explicita a narração de “Burden of Dreams”, temor de que a Amazônia estivesse sob devastação irrefreável (“no atual ritmo de desmatamento, até 2010 toda a bacia amazônica desaparecerá”, diz a voz em off).

“Fitzcarraldo” perdeu no caminho seus astros originais (Jason Robards e Mick Jagger), e com eles todo o material filmado até ali; foi alvo de boatos de que Herzog planejava dizimar a população e contrabandear armas; o set de filmagens foi incendiado; acidentes incapacitaram e até vitimaram parte da equipe.

O filme, sobre um irlandês (Klaus Kinski) que sonha construir uma ópera no meio da floresta, foi terminado a duras penas e entrou para a história tanto pela qualidade cinematográfica quanto pelos percalços. Sua cena mais célebre, na qual um navio de 300 toneladas é arrastado montanha acima —um feito tão arriscado que o engenheiro contratado para planejar a estrutura pediu as contas—, representa o ápice da obstinação que havia tanto à frente quanto atrás das câmeras.

E o desdobramento mais impressionante dessa história —e que, de certa forma, resume a postura artística do cineasta de 77 anos— é que Herzog tem planos de voltar a filmar na Amazônia.

“Fordlandia” é um projeto de série que pretende contar a história da fracassada tentativa de Henry Ford de instaurar uma cidade-modelo no interior do Pará, nos anos 1920. O cineasta conta à Folha que a produção ainda está na fase de roteiro, mas não se furta à certeza de que voltará às locações amazônicas.

Audácia é marca do cinema de Herzog desde seus primórdios: “Aguirre, a Cólera dos Deuses” (1972) elevou sua carreira de patamar com uma história da colonização da América hispânica no século 16. Também filmado na Amazônia, tinha na descida de um rio caudaloso e na invasão de macacos em uma pequena jangada pontos narrativos essenciais.

O cineasta já fincou sua câmera na Antártida (“Encontros no Fim do Mundo”, 2007) e em vulcões ativos (“Into the Inferno”, 2016) e desbravou uma caverna selada há 28 mil anos no sul da França (“A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, 2010). Já comeu o próprio sapato após perder uma aposta com Errol Morris e levou um tiro de ar comprimido durante uma entrevista ao vivo à BBC. É um homem intenso.

E transfere tamanha intensidade para um trabalho prolífico e incessante. Herzog gravou três filmes nos últimos 12 meses, conforme conta com orgulho: o documentário “Meeting Gorbachev”, com o último líder da União Soviética; o drama “Family Romance, LLC”, que estreou em Cannes; e “Nomad”, sobre Bruce Chatwin, escritor de viagens inglês que incutiu em Herzog a ideia de que o turismo é “um pecado arquetípico”. 

Ele discute sua obra em palestras do ciclo Fronteiras do Pensamento, neste mês, e na entrevista a seguir.

O sr. provavelmente conhece a Amazônia melhor do que a maioria dos brasileiros. Qual foi sua reação quando soube do aumento nos incêndios florestais? É uma grande catástrofe o que está acontecendo. Todos sabemos. Para mim, como adoro a Amazônia, é particularmente doloroso.

Os relatos de sua última viagem à Amazônia, para fazer “Fitzcarraldo”, mostram que não foi uma experiência nem um pouco fácil. O sr. escreveu um livro, “Conquest of the Useless” (2009), para descrever a inquietação pela qual passou durante as filmagens... Cuidado, “Conquest of the Useless” não é um diário de filmagem. É muito mais a descrição de paisagens interiores, da febre da floresta. É uma prosa muito incomum, e estou convencido de que livros como esse e “Of Walking in Ice” [que escreveu em 1978] vão sobreviver mais tempo que meus filmes. 

O sr. descreve os sentimentos intensos que teve durante as filmagens na Amazônia. Então o que pode instigá-lo a querer mais uma experiência ali? De alguma forma, meu coração está em casa na floresta.

O que aprendeu sobre si na Amazônia? É uma pergunta que não consigo responder bem. Quando vou à Amazônia, estou sempre trabalhando. Não é como se eu deitasse numa rede e passasse férias ali. Aprende-se muito sobre fantasias, ilusões, sonhos febris, storytelling, natureza... Você escolhe. É tão rico.

“Fordlandia” vai, novamente, ser uma história sobre a interferência de um magnata estrangeiro na floresta amazônica. Qual sua opinião sobre atores internacionais investindo na floresta desse modo? Vimos que [o experimento de] Henry Ford terminou em desastre. Ele tentou transplantar o modelo americano para dentro da floresta tropical. Claro, não terminou bem. A floresta tem forças e um poder enorme de simplesmente rejeitar tentativas assim.

Em “O Homem Urso” (2005), o sr. menciona “a esmagadora indiferença da natureza” ao falar sobre a reação dos ursos ao protagonista, Timothy Treadwell. Até que ponto a natureza pode continuar indiferente à intromissão humana? Ela é sempre indiferente. Monumentalmente indiferente. Quando se olha para o universo, ele não poderia se importar menos com o que estamos fazendo. E eu falo isso porque sou alérgico a pessoas que tentam romantizar a natureza. Timothy romantizava os ursos e a natureza selvagem. E isso, no fim, custou sua vida.

O sr. com frequência exibe essa visão insondável da natureza. Acha que nós nos colocamos em perigo ao lidar com um mundo que não entendemos completamente ou é a natureza que está em perigo? As duas coisas são verdade. E acho que a natureza vai, um dia, finalmente revidar. Ela vai prevalecer, e não importa se nós vamos desaparecer ou não. É provável que nós desapareçamos como os dinossauros.


Acha que temos o poder de arruinar a Terra? Facilmente, temos isso em nós. Você fala dos perigos da floresta, mas o perigo são os humanos. 

O sr. sempre teve esse interesse enorme no ambiente, mas hesita em se considerar um ativista ambiental. Por quê? Porque sou um cineasta, principalmente. Vejo sentido no ambientalismo, em meu coração, mas ao mesmo tempo tenho problemas com isso.

[Ativistas ambientais] se preocupam apenas com a extinção das baleias, dos pandas, das borboletas e coisas assim. Mas não falam nunca sobre a extinção de culturas humanas. A cada dez dias, perdemos uma cultura para sempre. Enquanto conversamos, talvez o último falante de um idioma indígena da Amazônia esteja morrendo. E, com ele, se vão para sempre sua cultura, sua língua e sua visão de mundo. 

Então entendo que há muito foco no bem-estar de plantas e animais, e ninguém nunca menciona que temos tantas línguas e culturas criticamente ameaçadas. No final deste século, dos 6.500 idiomas ainda falados, talvez apenas 5% permaneçam. É uma extinção mais radical que a de baleias ou pandas. É dramática, sem precedentes. Que os movimentos ecológicos estejam cegos a isso é algo que lamento.

Mas se esses movimentos fizerem um esforço para proteger as comunidades indígenas que vivem na floresta, não estão também protegendo suas culturas? Em algum grau, sim, mas quando se olha para o que os movimentos ecológicos estão fazendo, eles não trazem isso à tona para nossa consciência comum.

E o cinema tem algum poder de proteger essas culturas? Não, não, não, não. Nada tem esse poder. 

Mas registrar uma cultura e uma língua não pode de alguma forma arquivá-los... (Interrompe) Mas arquivar... Em um museu você pode ver ossos de dinossauros, você arquiva esses ossos, mas nós não temos mais os dinossauros.

Na sua filmografia, o sr. parece estar procurando algo essencial sobre a relação entre a humanidade e seu ambiente natural. E já mencionou em entrevistas sua busca por um “êxtase da verdade”, que só pode ser encontrado pela arte. Já o encontrou alguma vez? Acho que já tive momentos em que cheguei perto. Mas primeiro, nenhum de nós pode explicar o que é a verdade. Nem os filósofos nem os matemáticos. Essa já é uma zona cinzenta.

Mas todos imediatamente entendem o que quero dizer: inventar, estilizar, criar uma realidade e, por causa de tudo isso, se acercar de algo que sabe que deve ser verdade. Dou um exemplo: a “Pietà” de Michelangelo, no Vaticano. É provavelmente a estátua mais bonita já construída.

Você vê Jesus tirado da cruz, o rosto atormentado de um homem aflito de 33 anos. Você olha o rosto de sua mãe, e ela tem 17 anos. Mas Michelangelo não nos engana, não nos fornece fake news. É uma essência, uma verdade estática sobre Jesus e sua mãe. Ele tem 33 anos e sua mãe, 17.

É sobre uma verdade emocional que o sr. fala? Não, algo mais profundo. As emoções frequentemente são enganosas. É muito difícil de explicar, mas há exemplos maravilhosos na história da arte, no cinema, na literatura, quando você pode dizer “bom, aí está alguém que chegou perto do que sentimos que deve ser a verdade”.

Aliás, você está falando apenas sobre a questão do homem contra a natureza, mas meu último filme [“Family Romance, LLC”] foi feito no Japão, todo rodado em Tóquio. Então não é meu único assunto.

Eu sei, estou falando bastante disso porque a preocupação com a natureza está alta no Brasil, por conta da Amazônia. E o sr. fez grandes contribuições nesse assunto. Mas o Brasil tem um argumento que não pode ser negado. A Europa cortou todas as suas florestas na Idade Média. Então nós fizemos antes.

De algum modo, vocês agora nos ajudam a proteger as nossas. O governo alemão, por exemplo, oferece financiamento à proteção da Amazônia [suspenso por ora]. Eu acho que não devem ser Estados a fazer isso. Temos é que nos afastar de nosso consumismo. Primeiro, tem pessoas demais no planeta. É muito insalubre quantos nós somos. Segundo, quase toda a população do mundo tem uma atitude consumista. Deveríamos usar menos madeira, comer menos carne. Cada um de nós pode mudar essa atitude.

Vê a solução de nossos problemas ambientais como algo mais individual que coletivo? É errado aguardar que Estados passem legislação ou aceitem acordos [como o] de Paris, de Kyoto. Alguns países nunca vão assinar, os grandes nunca vão. E não espere. A política não tem jeito.

E se você olhar, em países ocidentais, de 40% a 45% da comida é jogada fora. Se você não jogar comida fora, salva uma quantidade enorme de lixo. Não é uma decisão grande.

Uma última curiosidade: o que o levou a aceitar o convite para atuar em “The Mandalorian”, série que é parte do universo de “Star Wars”? Fui convidado, pedi para ler o roteiro. Nunca faria algo que tivesse um roteiro medíocre, mas parecia muito bom. E eu sabia que conseguia fazer o papel que tinha que interpretar. 

Gostei muito de fazer. E o que é maravilhoso é que é um novo jeito de filmar. Você tem o horizonte ao seu redor, consegue ver a paisagem do planeta em que está —e a câmera também. Ela pode ser segurada na mão e movida entre os atores. Tudo até agora era [feito por] câmera com controle de movimento e “green screens”, com uma artificialidade enorme. E agora voltamos ao que o cinema sempre foi e ao que deveria voltar a ser. É um cinema fundamental, essencial e fácil, de novo.

E o sr. tinha qualquer familiaridade com “Star Wars” antes? Não, na verdade. Mas imediatamente pude ver que é uma nova mitologia emergindo. Como na Grécia Antiga. Este é um tempo de novas mitologias. E ser parte disso é uma grande alegria. 


Walter Porto é repórter da Ilustríssima.

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