Caio Prado Jr. é quase terraplanismo, diz Jorge Caldeira

Escritor reflete sobre o passado e o futuro do país em cenário tomado por reacionarismo

Jorge Caldeira

[RESUMO] Sob impacto da morte do pai, que sonhava com um Brasil virtuoso e belo, escritor reflete sobre as potencialidades do país, um debate moral, a seu ver, que não encontra espaço num cenário dominado por reacionários de direita e de esquerda.

Todas as partes de tempo que arranjava nos últimos dias eram dedicadas a estar ao lado de meu pai. Internado como paciente era calmo; sendo médico, calculava com precisão a evolução da doença (e discutia racionalmente com os colegas que o tratavam); homem de fé, conversava com iguais sobre as questões metafísicas inerentes à sua situação. Para se distrair, reservava algo diferente para mim.

Invariavelmente pedia análises do Brasil, de sua situação, das potencialidades para o futuro. Um pouco que se acendia: do nada, ligava uma pátria mental que funcionava em piloto automático, para a melhoria da qual dedicava as poucas forças que lhe restavam. Pátria intocada e bela, imune à doença, virtuosa e merecedora de seus últimos esforços.

Em todo o tempo de internação houve apenas um momento de sombra atravessando esta pátria mágica: aquele em que comentei o discurso do presidente Bolsonaro na ONU. Devo dizer a seu favor que nem isso o fez tecer a mais leve crítica sobre o país. Perguntou do tempo lá fora e pediu para aumentar a música.

A remissão veio dias depois, quando me instou a lhe explicar por que, afinal, eu estava pensando em escrever algo sobre o futuro ambiental. Tentei desenhar o melhor que podia o cenário de uma nação renovada e brilhante. Ele acendeu o facho, como se fosse tranquilamente participar desse futuro.

Saí do quarto nesse dia lembrando-me de outros episódios nos quais um sentido de pátria produz lampejos da mesma espécie. Por coincidência, nos últimos anos andei fazendo pesquisas sobre a memória de alguns empresários brasileiros contemporâneos. Essa situação gera sempre um certo desconforto para quem escreve sobre história. O tempo ainda não é o dos documentos silenciosos, está marcado pela memória oral, os depoimentos de quem viu em vida.

Colhendo depoimentos, muitas vezes ouvi pessoas impressionadas com vivências semelhantes à que tive: a preocupação com o Brasil constituindo-se em tema organizador da consciência e da moral. Uma pátria interior, capaz de orientar o comportamento o tempo todo, formar um padrão elevado. No caso empresarial, padrão que muitas vezes guiava decisões difíceis, confortava nas crises, justificava o investimento injustificável pelas planilhas de cálculo.

Lá vem o leitor pensando: só conhece a pátria dos ricos. Volto então a meus primeiros tempos profissionais, quando comecei a ter um conhecimento mais direto da rica pátria interior de pobres. Rio de Janeiro, 1976. Tentando entrevistar Ismael Silva. 

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O cantor e compositor Ismael Silva, em foto de 1978 - Folhapress

Quem viu o filme “Boleiros” (1998) dirá que as próximas palavras serão plágio da impagável cena em que o editor-executivo da Folha, Matinas Suzuki Jr. (em pessoa) manda um repórter entrevistar um craque de futebol desaparecido —mas foi assim que aconteceu comigo. 

Depois de muitas peripécias, alguém me levou a um boteco infecto na região entre o Estácio e Santo Cristo: ovos cozidos tingidos em cor de rosa choque; torresmo de anteontem; miúdos flutuando em óleo que fritou muitos pastéis e pinga da pior, aquela que matou o guarda. Nenhum vestígio da última faxina.

Sentado no balcão, uma figura de terno (no sentido literal da palavra: calça, colete, paletó) de linho S120 imaculadamente branco, camisa num tom pastel muito elegante de laranja, gravata branca. Tudo em alto contraste com a pele imaculadamente negra. Faz sinal, me aproximo. Quando dobro a curva do balcão, vejo o quadro completo: calça com costura rasgada a partir do joelho, único modo possível para o traje conviver com a perna muito inchada. Pés descalços e muito sujos.

Com meus 20 anos, foi impossível evitar uma escancarada exposição de meu constrangimento. Impávido, Ismael Silva me convida para sentar a seu lado. Em menos de 30 segundos de conversa, o brilho de sua pátria imaginária me transforma num ouvinte extasiado. Ele sente que venceu. Deixa absolutamente claro que eu tinha merecido a honra da conversa porque não desmereceria sua grande obra. E começa a tecer uma maravilhosa argumentação sobre a capacidade de melhorar muito uma nação mobilizando mentes através de versos. Mostra como fez isso em cada música, cada parceria, cada escolha de uma roupa.

Construiu e disseminou sua pátria sem escola, sem dinheiro, sem apoio. Sendo preso por qualquer delegado ressentido, xingado por qualquer branco, mal falado por sua sexualidade (sobre a qual nada falava). Absolutamente infenso a tudo que havia contra ao redor —porque vivia num Brasil de palavras que acoplava à música, sabia que era ouvido, dominava sua arte. Era o grande Ismael Silva, se sabia grande e me deu uma gigantesca lição de como a pátria se faz de baixo para cima.

Nessa construção as pátrias interiores se comunicam de modos nem sempre esquemáticos. Ismael Silva se orgulhava de ter sido parceiro de Noel Rosa —branco, estudante de medicina, mas construtor da mesma e exata pátria, que descreveu nos versos precisos de “Coisas Nossas”: “Malandro que não bebe/ que não come/ porque o samba mata a fome/ Morena bem bonita lá na roça/ coisa nossa, coisa nossa/ O samba, a prontidão e outras bossas/são nossas coisas/ são coisas nossas”. 

Meus primeiros anos de atividade intelectual foram quase integralmente dedicados ao estudo desta construção de uma nação em versos. Construção paradoxal, na qual não se nega a realidade da fome nem a possibilidade do prazer extremo. Que vai do êxtase para a agonia na mesma estrofe. Onde o todo é o resultado deste percurso.

Como o samba, a fome existe —e traga. Tudo pode morrer. No ano passado morreram duas outras figuras que me alimentavam da pátria que vem de baixo. Um foi o Dito Lagarto. Analfabeto, mas poeta improvisador de primeira. Sempre fazendo versos sobre seu Brasil. Amante das mulas, meteu-se nos matos da Cachoeira da Fumaça com uma tropa. Coisa medonha, de ir abrindo caminho na base do facão. E ele tomando pinga e improvisando versos. Bateu com a cabeça num galho e caiu.

Pior, não teve quem rezasse direito por ele. Dito rezador, que conhecia orações para tudo desde criança, que sabia da serpente que ia por debaixo da terra do chão da matriz de Ibiúna até o fundo do mar, sempre escapava de encrenca porque não parava nunca de rezar. 

Motorista de caminhão que levava verduras de madrugada até o Ceasa, um dia dormiu ao volante na marginal. Acordou por milagre —milagre tal que o levou a ajudar os santos: largou a bebida. Mas morreu antes de rezar para a alma do companheiro. De morte morrida na cama, segundo dizem.

Morreu na cama também meu pai, no sábado (28/9). Negrume que dói. Penso nele e nas outras perdas e concluo: “Lá se vai também minha confiança na pátria, agora que não tem mais quem a alimente”.

 
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'Céu do Brasil' (1988), do artista Emmanuel Nassar - Reprodução

No dia seguinte ao enterro, este alquebrado possuidor de um passe do idoso chega a seu escritório. Não demora nada e sou atraído para uma discussão entre duas pesquisadoras jovens e entusiasmadas. O tema? Economia de carbono neutro. Vou tentar resumir o que entendi —se é que entendi.

Ao contrário de minha geração, ali não se discutia um “problema ambiental”. Mudança climática era apenas um dado da realidade aceito, e a busca se concentrava em conceitos e instituições que o estudo dessa realidade traz para a construção de um futuro. No caso de economia, por exemplo, a conversa dava meio de barato um sistema de preços já desenhado institucionalmente, no qual emissores de carbono (carvão e petróleo, essencialmente) pagam para fixadores de carbono (agricultores e conservadores de mata em primeiro lugar).

Com essa simples ideia, o mundo geopolítico global foi sendo redesenhado (algo possível numa conversa inteligente). Na base do redesenho, a constatação de que o Brasil pode ganhar de muitos modos —e a fixação de carbono em florestas ao lado das culturas renováveis é apenas a ponta do iceberg (uso a expressão enquanto eles ainda existem, como tantas outras imagens arcaicas deste texto).

Para que o leitor possa entender o quanto o Brasil pode ganhar neste novo cenário mundial, conto mais um causo. Há mais de uma década venho pesquisando com minha tia Odete Vieira de Mello a figura de José Pires do Rio, um engenheiro da primeira metade do século 20 que correu o país tocando obras e estudando —além de ter sido prefeito de São Paulo e diretor do Jornal do Brasil por duas décadas.

Um de seus livros (“O Combustível na Economia Universal”, de 1916) lida o tempo todo com o fato de que o Brasil tinha uma dificuldade estrutural para se industrializar, por não possuir carvão nem petróleo para queimar. A constatação tem seu peso, provado para além do tempo do argumentador. 

Apenas depois de massificar a produção de energia elétrica apareceu combustível de produção local e aconteceu a industrialização pesada do país. Outra solução local foi o álcool como combustível, a partir da década de 1970. Isso construiu uma posição peculiar: eletricidade e bioenergia são os dois pilares centrais de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo —com a energia eólica ganhando lugar cada vez maior nela. 

Enfim: a base brasileira para uma economia de carbono neutro é, simplesmente, a melhor do planeta. Num cenário de disseminação dela —ou de implementação do Acordo de Paris, em outras palavras—, o papel do Brasil como centro produtor de energia e de localização para a instalação de unidades produtivas do que quer que se pense será imbatível.

Pronto. O Brasil que me habita dava sinais de vida. Mas certamente este não é o caso do Brasil que habito.

Nele domina hoje outra visão de pátria. A expressão mais poética que conheço desta outra visão está num pequeno verso de Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, que ele volta e meia recitava em nossas conversas: “Minha pátria é minha infância/ Por isso vivo no exílio”.

Na realidade a coisa é bem pior que na poesia —e não se trata apenas de um caso local. A economia de carbono neutro só tem sentido como algo mundial. Exige contato entre emissores e captores de carbono por sobre as fronteiras locais. Parte do pressuposto óbvio de que clima não respeita fronteiras. Exige o reconhecimento de que o problema é histórico: o monóxido de carbono queimado no século 19 circula por aí, à espera do prêmio econômico para sua captura.

A onda reacionária que varre o planeta tem como vértice central a negação de qualquer instância solucionadora de problemas que não o Estado nacional, este filho do século 18. Daí a definição de pátria com pastiches pobres dos versos geniais de Cacaso, na forma de slogans políticos: “Take back control”, dizem aqueles que têm o império do carvão como ideal de sua locomotiva a vapor mental. “Make America great again”, ruge a turma do império do petróleo, com gasolina nas veias. 

Numa expressão ou na outra, a pátria se identifica com o passado, o tempo bom é aquele que foi, jamais o que vem. Utopia rima com nostalgia. Assim afundam os impérios, lutando contra as transformações.

Impossível escapar dessa onda mundial. “Brasil acima de tudo” é a versão da negativa brasileira a um futuro global. À primeira vista um slogan estranho, já que não há um passado imperial para fundar a nostalgia e alimentar uma política de negação das mudanças trazidas pela globalização. Pior, um reacionarismo justamente contra aquilo que pode trazer o país para a proeminência que nunca teve. Até meu pai, que não era exatamente um reformador social, se encantou com a possibilidade.

Mas o notável não é tanto a existência do pastiche reacionário. A pátria da negação, a pátria que se refugia na infância, no Brasil, não é privilégio de conservadores. Também viceja como pátria interior de quem se supõe revolucionário. Tive uma dimensão muito exata disso por um acaso notável —e conto o caso. 

Quarenta e quatro anos atrás um bom amigo, Gilberto Felisberto Vasconcellos, partiu para uma bolsa em Paris. Deixou comigo parte de sua biblioteca, dizendo que pegaria na volta. Retornou em seis meses —e só agora pediu os livros de volta. Não chegou a ser um pedido elegante, já que veio vazado de sarcasmos ideológicos e referências desairosas ao fato de meus livros venderem. Ah, sim. Sem o emprego de expressões protocolares como “por favor”ou “muito obrigado”. E na forma de uma ordem sumária.

Minha primeira reação foi de indignação. Ao longo desses 44 anos em que venho guardando os livros, eles já passaram por uma dúzia de endereços, ocuparam espaço em muitas casas. Paguei guarda-móveis por vários anos. Imaginava merecer, ao menos, alguma consideração pelo esforço.

Então lembrei-me dos versos de Paulo Vanzolini em “Praça Clóvis”: “Vinte e cinco/ francamente achei barato/ para me livrar de meu atraso de vida”. No mesmo dia da conversa sobre o futuro com as pesquisadores, comecei a encher caixas e esvaziar estantes que guardavam um passado bem demarcado. 

A biblioteca do Giba, com um corte preciso em 1975, é inteiramente dominada por livros que exploram uma associação específica entre marxismo e Brasil. Quatro décadas atrás, tal associação era fundada na pretensão metodológica de que o estudo de um permitia um conhecimento muito mais aprofundado do outro, capaz de moldar, inclusive, as melhores opções de futuro para a nação.

Em termos reais, a associação que, de longe, fez mais sucesso foi aquela expressa como “sentido da colonização” por Caio Prado Jr. Resumo numa frase: o sentido da colonização é o de transferir riqueza para a metrópole, o que se conseguiu com a organização do latifúndio concentrador de renda e produtor das misérias da desigualdade; a escravidão e a violência constituem-se nas instituições básicas do sistema social.

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Um dos principais pensadores marxistas da história do Brasil, Caio Prado Jr. (1907-1990) - Acervo Brasiliense/Divulgação

À medida que ia retirando centenas de volumes com essa dominante, fui notando que fazia realmente muitas décadas que não pegava a imensa maioria deles, nem mesmo na hora de procurar referências para pesquisa. 

Em algum momento eles haviam sido importantes. Agora que os retirava via o quanto me pareciam datados. Não davam a impressão de que farão falta. O que mudou?

Também resumo numa frase as conclusões que, ao longo de uma vida de pesquisa sobre Brasil, levaram as ideias contidas nesses livros do centro das preocupações sobre futuro para algum desvão do passado: o construto de Caio Prado Jr. tem hoje, para mim, menos relação com algo que se possa chamar de realidade histórica que as alegorias de um desfile de escola de samba. É fantasia delirante.

Vamos ao que interessa. Esta derrocada não tem nada a ver com Marx. Quem quiser saber por que pode ler o meu “História do Brasil com Empreendedores” (2009), um livro rigorosamente marxista —até porque foi escrito depois de uma releitura de “O Capital” e todos os estudos ao redor. 

Tal releitura foi necessária para que eu pudesse verificar que a associação entre “latifúndio” e “transferir riqueza para fora” não tem nada a ver com a fonte teórica. É uma jaboticaba, uma criação local, podre.
Não se trata apenas de um conjunto de afirmações inteiramente desmentidas pelo conhecimento de fatos. Trata-se também de um embuste intelectual de porte. 

O argumento sobre o sentido da colonização é um plágio monumental (dez parágrafos que ocupam 12 páginas postos lado a lado em meu livro) de Oliveira Vianna, que foi professor de Caio Prado. E como provo, citação por citação, plágio feito por alguém que conhecia “marxismo” apenas por dois manuais, dos piores, de divulgação.

Tudo isso foi publicado há exatos dez anos, em 2009. E não num livro de denúncia. A categoria central “empreendedores” deriva diretamente de “O Capital”. Procura dar conta de um processo de acumulação de riqueza e construção de desigualdades sociais que vai bem além dos canhestros raciocínios do plagiador do pensamento conversador mais reacionário do Brasil.

Bem, isso é o que eu escrevi. Não posso obrigar ninguém a ler o que escrevo. Raríssimos marxistas leram. Os que leram fingiram que não aconteceu nada. Continuam acreditando em Caio Prado Jr. —algo que, para mim hoje, combina com a crença na Terra plana.

A pátria dessas pessoas se torna, assim, muito parecida com aquela dos reacionários de plantão. É feita de negação, como a frota automobilística de Havana ou as cenas do filme “Adeus, Lênin”.

Por isso, o debate do Brasil de hoje que habito me parece, na verdade, um dueto de reacionários saudosos. De um lado, os seguidores daquele que julga ter “salvo o país do socialismo”; do outro, aqueles que imaginam salvar o Brasil com tal espécie fóssil de pensamento socialista. 

Sobre isso, basta o que disse um dia Caetano Veloso, sendo vaiado pelos dois lados: “Vocês estão querendo matar hoje o velhote inimigo que morreu ontem”.

Na prática, enquanto trocam diatribes pelas redes sociais, os dois lados se unem em sua nostalgia nacionalista —para permitir a queima da fonte biológica que permite a passagem para a economia limpa do futuro. 

No momento em que um dos maiores fabricantes de automóveis anuncia a data para deixar de fabricar motores a gasolina, as autoridades oferecem subsídio para se continuar fabricando veículos obsoletos em nome de empregos operários que não vão existir. Os dois lados aplaudem —e os beneficiados pelo dinheiro público, se a manobra tiver sucesso, eventualmente irão agradecer pela imbecilidade que une os supostos contendores.

Quanto a mim, só posso me refugiar na pátria interior. Procuro me lembrar do quadro de Max Ernst que me consolava quando Gabriel Cohn, meu orientador, levava longe sua análise de paradoxos: “Jovem Intrigado pelo Voo de uma Mosca não Euclidiana”. 

Os paradoxos brasileiros são sempre os melhores, pois realmente desafiam a lógica. Apenas uma confiança para além deles permite manter viva a pátria que brilhava na mente de meu pai. 


Jorge Caldeira, escritor, publicou “Mauá: Empresário do Império”, “História da Riqueza do Brasil” (Estação Brasil) e “Nem Céu nem Inferno” (Publifolha), entre outros.

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