Descrição de chapéu

Kiko Dinucci decanta embates políticos do Brasil no seu violão

Em novo e contundente disco solo, músico se mostra sintonizado com momento do país

Lucas Nobile

[RESUMO] Em novo e contundente disco solo, o violonista Kiko Dinucci, que possui trajetória singular dentro da rica tradição brasileira, decanta a relação com seu instrumento em canções sintonizadas com os embates políticos e sociais do Brasil de hoje.

Identidade. Ainda na década de 1960, o exigente pianista, compositor, maestro e arranjador Radamés Gnattali foi certeiro em sua definição sobre Jacob do Bandolim: “Os outros tocam bandolim. Jacob toca Jacob”.

Seja pela composição, pela interpretação ou pela sonoridade (com menção honrosa à masterização e à mixagem), o disco “Rastilho” nos passa a impressão de que Kiko Dinucci apresenta um violão de forma inédita no Brasil. Parafraseando Radamés, não seria exagero afirmar que os outros tocam violão; Kiko Dinucci toca Kiko Dinucci. 

Percebe-se o peso dessa afirmação quando se leva em conta que, em matéria de violão popular, não há no mundo produção mais complexa e rica do que a brasileira. Há os pioneiros Quincas Laranjeiras, Satyro Bilhar e João Pernambuco. No time dos modernizadores: Garoto, Laurindo Almeida e Valzinho. 

No universo do samba e do choro, como solistas ou acompanhadores, reluzem Dino 7 Cordas, Meira, Cesar Faria, Mão de Vaca, Rosinha de Valença e Mauricio Carrilho. Dentre os virtuoses, Baden Powell, Raphael Rabello, Egberto Gismonti e Yamandu Costa. 

Entre popular e erudito, destacam-se compositores que não foram violonistas, mas compuseram peças importantes para o instrumento, como Villa-Lobos e Radamés. Na seara da canção popular, tivemos revolucionários como Dorival Caymmi, João Gilberto, Gilberto Gil e João Bosco

Há ainda os inclassificáveis Guinga e Roberto Mendes, além de inventores heterodoxos como são os casos de Nelson Cavaquinho, Itamar Assumpção e Jards Macalé.

Kiko Dinucci reconhece a influência em seu violão de muitos dos aqui citados. A partir dessa tradição, rema em frente e desponta em um lugar tão único quanto a terceira margem do rio de João Guimarães Rosa.

O disco, que terá show neste mês e ganhará versão em LP, marca o reencontro de Dinucci com o violão. Depois de passar quase uma década experimentando caminhos na guitarra e, posteriormente, em aparelhagens eletrônicas, o compositor, instrumentista e cantor volta à madeira e ao náilon.

O retorno representa, até aqui, a depuração de toda a obra de Dinucci ao violão. Não é pouca coisa, considerando-se que ele já havia imprimido uma marca pessoal e relevante no instrumento em álbuns como “Padê” (2008, com Juçara Marçal), “O Retrato do Artista Quando Pede” (2009, com Douglas Germano, no Duo Moviola), “Pastiche Nagô” (2008, com o Bando Afromacarrônico) e “Metá Metá” (2011, com Juçara e Thiago França).

Em diferentes medidas, este novo disco de Dinucci existe por limitações. Primeiro, as físicas. No ano passado, o músico de 42 anos sofreu uma queda enquanto andava de skate, fraturou a tíbia e a fíbula, passou por duas cirurgias e amargou bons meses de hospital e fisioterapia. Impossibilitado de tocar guitarra (em pé e sem poder pisar em seus pedais), recorreu ao violão.

Segundo, as técnicas. Na juventude, Dinucci chegou a estudar na antiga ULM, Universidade Livre de Música, atual Emesp Tom Jobim. Em pouco tempo, percebeu que o cartesianismo harmônico daquele sistema tradicional —para alguns, limitador; para outros, libertador— não era para ele. 

Antes, ainda em Guarulhos (SP), cidade onde se criou, o músico atuou em diversas bandas de punk, algo que se tornaria determinante em sua forma de tocar qualquer instrumento com “riffs” e fraseados curtos. 
O resultado, evidenciado neste “Rastilho”, é que o violão de Dinucci não tem o perfume das salas de concerto, tampouco o aroma dos botequins de samba e de choro das décadas de 1960 e 1970. Tem o cheiro da rua; e o ano é 2020.

Das 11 faixas, apenas duas não são de autoria de Dinucci, “Exu Odara” (tema tradicional do candomblé, em versão instrumental) e “Vida Mansa” (de José Batista e Norival Reis, gravada por Cyro Monteiro na década de 1950). “Tambú e Candongueiro”, já cantada no disco “Pastiche Nagô” pelo próprio compositor, ressurge em nova interpretação. As outras oito são inéditas.

Embora o violão outsider de Dinucci esteja em primeiro plano, “Rastilho” é um disco de canções. Neste terreno, o músico se manifesta igualmente impetuoso. 

Ao abrir o álbum com “Exu Odara” e “Olodé” (com letra em iorubá), não o faz como resultado de pesquisa ou para parecer “hype”, mas por vivência. Do mesmo modo, em termos de estética e de timbres, ao gravar de modo analógico, em fita, buscando a sonoridade encorpada de discos da virada dos anos 60 para os 70 (como o cultuado “Krishnanda”, de Pedro Santos, o Sorongo), não busca soar retrô. Optou por esse caminho porque o som daquelas gravações é excelente, bem diferente da desidratação trazida, em geral, pela era do digital.

Dinucci é incondicionalmente sintonizado com sua época. Como nasceu e vive num país em que ideários e práticas fascistas oficiais deixaram de ser uma ameaça para se assentar como realidade cotidiana, tornou-se imperativo que a contundência e a reação emergissem não apenas do violão, mas também das letras. Sem, contudo, o tom panfletário de rede social.

A imagética “Febre do Rato” tem a vertigem carregada dos desvalidos retratados nos contos de João Antônio, com a navalha ainda mais afiada. “Soltou um grito de morte, o mundo parou/ Duas feridas nasceram nas palmas das mãos/ Um fiel esconjurou/ Um outro perdeu a fé/ Mas um terceiro chorou de compaixão/ Tava cheio de cólera e bestialidade/ Quando deu por si, tava em cima do pastor/ Atacou o infeliz e fugiu pela avenida/ Deu sinal e saltou para dentro do busão.” 

Familiar, não? Só que às avessas, numa espécie de revide aos achaques e ataques que religiões de matrizes africanas vêm sofrendo no Brasil distópico de 2019-2020.

“Veneno”, interpretada pelo originalíssimo “flow” de Rodrigo Ogi, segue na mesma linha: “Feio na foto está/ Eu posso atestar/ O inferno é seu spa [...] É muito forte o veneno do homem/ Que até o capeta vomita [...] Ele falou para o pai de Jesus/ Eu não teria clemência/ Se fosse meu filho que tivessem posto na cruz”.

O mesmo tom amargo e melancólico aparece em “Rastilho”, samba que batiza e encerra o álbum com os seguintes versos: “Os moribundos dançam/ As moscas já nos cobrem/ Ninguém pode parar/ Nem fé, amor ou sorte/ Vamos explodir, vamos explodir”. Nela, assim como em outras faixas, Dinucci é acompanhado apenas por seu violão percussivo e pelo coro sobrenatural das pastoras —formado por Juçara Marçal, Dulce Monteiro, Maraísa e Graça Reis.

Não só pelas vozes femininas, mas também pela natureza das composições —com muitas células rítmicas oriundas de terreiros, do jongo, do samba rural—, a ancestralidade queima acesa no “Rastilho” de Dinucci. “Foi Batendo o Pé na Terra”, por sinal, poderia figurar tranquilamente num disco de Dona Ivone Lara, de Aniceto do Império ou de Clementina de Jesus. No violão, uma aula de dinâmica, de levada, de divisão. 

Outra virtude de Dinucci é nutrir-se de outros saberes, como o cinema, a literatura, a história. “Marquito”, por exemplo, é um faroeste tenso e dramático; por ele, viaja-se de “Bacurau” a “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, com o cheiro de poeira e pólvora dos filmes de Sergio Leone.

Assim como fez na canção “Marquito” —referência ao jovem guerrilheiro que integrou a Aliança Libertadora Nacional, nos anos 1960, na luta armada ao lado de Carlos Marighella—, Dinucci usa sua música para jogar luz sobre personagens pouco conhecidos e, assim, tratar de temas ainda urgentes. 

“Dadá”, com participação de Ava Rocha, filha de Glauber, remete a Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, única mulher do bando de Lampião e Corisco a empunhar armas de fogo. “Gaba”, por sua vez, com a voz livre de Juçara Marçal, evoca a abolicionista revolucionária Zacimba Gaba.

Por fim, a capa de Pablo Saborido traz uma foto de frutas apodrecidas, como nas clássicas obras de natureza-morta. Difícil pensar em imagem mais simbólica para este álbum concebido num Brasil mergulhado em trevas. A legenda certeira é do próprio Dinucci: “Tropical e podre”. 

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