Descrição de chapéu

Ricos fazem, acontecem e não vão mudar jamais

Autora analisa confronto entre riqueza e pobreza por obras como 'Parasita', 'Que Horas Ela Volta?' e 'Dr. Jivago'

Marilene Felinto

[RESUMO]  Autora analisa o confronto entre riqueza e pobreza e a sensação de invisibilidade dos pobres, que considera alimento de um ódio de classe que atravessa a história, a partir de obras como os filmes "Parasita" e "Que Horas Ela Volta?" e os livros "Vidas Secas" e "Dr. Jivago".

Seja na realidade, seja na ficção —em filmes como “Parasita” ou “Que Horas Ela Volta?”, em romances como “Vidas Secas” ou “Dr. Jivago”—, o confronto entre riqueza e pobreza, a desproporção entre ricos e pobres, atravessa a história como um rio que ora transborda, ora leva muito tempo passivo, mas alimentando novas nascentes de ódio de classe no fundo de seu curso aparentemente natural. 

Quanto aos ricos, quando se pensa que não, quando se está apenas e ainda indo, eles já foram e já voltaram. Não precisam de nada nem de ninguém. Pelo menos não precisarão de alguém que esteja tão distante do modo de existência deles. Precisar é diferente de poder comprar. 

E eles só não se conformam —só se mexem, só se alteram— quando algo no universo da pobreza lhes parece melhor do que na própria condição de ricos em que vivem (algum talento, algum dom extraordinário, qualquer coisa que o dinheiro não compre). Mas não se pode dizer que se abalam com isso —apenas estranham, movidos, ao fim e ao cabo, por alguma curiosidade paradoxalmente desinteressada.
E mesmo que assim procedam, frente à inusitada ocorrência, agem com certa arrogância de berço, uma que lembra em algum ponto aquela de certos acadêmicos, intelectuais ou artistas cabotinos, encerrados nos restritos universos de suas vaidades. 

Quem, sem ser rico, já experimentou alguma convivência com gente rica sabe da quase automática insignificância que sua existência representa para os da classe abastada. Insignificante —assim se sente a pessoa da classe inferior. Mas não se trata de baixa autoestima. Não é isso. É antes a situação surreal —a desigualdade de condições tão absurda— que gera um desequilíbrio meio cômico na realidade (o chiste), e então a pessoa pobre descamba para a gargalhada, na falta do que dizer. 

Este presente texto não é sobre a invisibilidade dos pobres pelos ricos (não é exatamente sobre o filme “Parasita”, recente ganhador do Oscar de melhor filme, embora também seja). É sobre o contrário: sobre quando um pobre se vê olhado por um rico. Nesse sentido, poderia ser sobre o filme “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert, aí sim, um clássico genial e doloroso sobre a discriminação de classe brasileira, com a contundência que a questão merece. 

No filme de Muylaert, quando a filha da empregada doméstica (uma jovem cheia de tão natural autoestima que é quase uma afronta) consegue passar nos exames de admissão à universidade, mas o filho da patroa não consegue, toda a esforçada simpatia, a falsa intimidade da patroa por ela cai por terra. O clima pesa, a moça, hostilizada pelos patrões da mãe, vai embora da casa, rebelada também contra o conformismo e a permanente subserviência de sua genitora.

Filha de empregada doméstica que entra em universidade (“roubando” o lugar do filho do patrão) é fato extraordinário, inusitado e inaceitável —é então, como referido aqui anteriormente, que os ricos reagem, alteram-se, saem momentaneamente de seu lugar de conforto.

Voltando ao filme “Parasita”, interessante nele é o recurso de fábula às avessas na estrutura dramática, que reforça o lugar da pobreza diante da riqueza. Enquanto a fábula é geralmente protagonizada por animais irracionais cujo comportamento faz alusão aos seres humanos, para ilustrar uma moral qualquer, uma “lição” que se tire da história (pedagógica ou mesmo satírica), em “Parasita” os personagens, de humanos que eram, vão virando bichos, animais irracionais que se matam uns aos outros, que rastejam pelo chão da sala ou pelo porão (a caverna da ignorância humana, para lembrar Platão). Talvez por isso certas cenas do filme surgem como sátira e dão vontade de rir (a mesma gargalhada, o chiste inevitável no absurdo abismo entre rico e pobre).

Segundo o crítico de cinema Celso Sabadin, em palavras muito mais acertadas, no filme “Parasita” a invisibilidade dos pobres é elevada à máxima potência, “à do total desconhecimento, à da própria inexistência física e —consequentemente —ao não reconhecimento humano”, pois eles são reconhecidos pelos ricos apenas porque “fedem”, porque “deixam seus cheiros ao redor de lugares em que eles não deveriam estar”. 

Mas este presente texto não é crítica de cinema. É sobre pobreza e riqueza a partir dos subterrâneos do ódio de classe. A alegoria da luta de classes sul-coreana, em “Parasita”, remete a diversas outras lutas, antigas, na ficção e na realidade histórica. Daí que este texto poderia ser, portanto, sobre Fabiano, das “Vidas Secas” (1938) de Graciliano Ramos (1892-1953). 

Fabiano, o sertanejo retirante famélico e analfabeto, era tão miserável que não se considerava gente, mas bicho, mais próximo do seu cavalo e da sua cachorra do que dos homens, uma rês da fazenda do patrão. Precisava exclamar em voz alta “Fabiano, você é um homem”, para acreditar na premissa de que não era um bicho. Logo em seguida, diz o narrador, “receoso de que alguém tivesse escutado a frase imprudente, corrigiu-a, murmurando: ‘Você é um bicho, Fabiano’”. 

“E, pensando bem”, prossegue o narrador de “Vidas Secas”, “ele não era um homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. [...] Como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra”. Embora ruivo de olhos azuis, Fabiano chamava, surpreendentemente, de “brancos” os patrões, os latifundiários donos das terras. Ora, o personagem indigente se igualava aos pretos, num país em que os ricos sempre foram obviamente brancos.

Fabiano, apesar de analfabeto, nem por isso deixava de compreender que o patrão o roubava nas contas do salário. Seu ódio pela injustiça vai num crescendo intuitivo até um dia ele se rebelar contra o patrão, contra a autoridade policial, contra tudo.

Os ricos, com seus nomes e sobrenomes, fazem, acontecem e não vão mudar jamais, qualquer que seja a ideologia que professem. Rechaçarão a ferro e fogo qualquer ameaça à conta bancária e ao patrimônio (herdado ou adquirido) de que desfrutam —e cujo segredo, cujo montante, cujo acúmulo, guardam a sete chaves, como a documentos confidenciais, sigilosos, como quem guarda a senha para o mistério da vida e da morte. Diante deles, a pessoa de classe inferior tem a impressão de que não está fazendo nada, ou de que tudo o que faz não tem a mínima importância.

Quem já precisou recorrer aos outros, ao vizinho, ao parente etc. —caneca na mão, por um pouco de pão, feijão ou arroz para o almoço da família que passa fome— sabe muito bem que a disparidade entre pobre e rico é antinatural, escandalosa, criminosa. Mas os ricos acham normal a riqueza que possuem.

E aqui um parêntese, um parágrafo de uma vivência pessoal minha (ainda que o excessivo personalismo e o opinionismo de superfície em textos de mídia, em colunistas, articulistas e afins hoje em dia tenha atingido, para mim, macaca velha no ofício, o ponto da náusea).

Parêntese: [Certa noite, já faz décadas, numa festa da “high society” paulistana, um banqueiro me perguntou se eu não achava que os adolescentes que faziam arrastões nas praias da zona sul do Rio de Janeiro (na época isso acontecia com bastante frequência) agiriam de outro modo se soubessem um pouco mais da história do país e da origem da “elite” brasileira. Perguntou se eu não achava que os jovens respeitariam os mais ricos se soubessem que há toda uma gente nesta condição social porque recebeu isso como herança, como uma espécie de “sangue azul” (palavras do banqueiro). De início achei que a pergunta era uma pilhéria, como se diz na minha terra, misto de insulto com piada (de novo o chiste, a gargalhada). Mas logo vi que o infeliz do homem falava com toda a convicção. Como era possível tanta sincera hipocrisia?].

Os ricos, com seus nomes e sobrenomes, têm de tudo e estão em todos os lugares. Não abrirão as portas dos clubes que frequentam, não convidarão para padrinhos e madrinhas de sua prole senão seus iguais, não se afetarão, a não ser quando algum outro cataclismo social irromper às portas de suas mansões, como na Rússia de 1917.

No clássico romance “Dr. Jivago” (1957), do escritor e poeta russo Boris Pasternak (1890-1960), o protagonista Yuri, médico simpático à revolução socialista, relembra seu passado de riqueza, a importância de seu sobrenome e a derrocada ante a convulsão social e os confiscos de bens dos ricos:

“Ainda pequeno”, conta o narrador, “Yuri viveu a época em que o sobrenome que carregava designava uma enorme quantidade de coisas. Havia a manufatura Jivago, o banco Jivago, as casas Jivago, o modo Jivago de dar nó e prender a gravata com alfinete e até mesmo um doce redondo semelhante ao baba ao rum que se chamava Jivago [...]. De repente tudo isso desapareceu. Eles empobreceram”.

“Dr. Jivago” é um texto catártico sobre a decomposição do mundo burguês —mas catártico somente para quem carregue um tanto de autoconsciência por alguma verdade sensível, alguma razão contra a desigualdade e a injustiça social desta indecente civilização do capital. O presente texto seria, portanto, sobre o romance do genial Pasternak, prêmio Nobel de Literatura em 1958, embora não haja efeméride nenhuma neste momento relacionada ao autor ou ao livro — é que seria sobre o obsoleto sonho de justiça e igualdade, alimentado também pelo escritor russo na vida e em seu romance magnífico.

Mas aconteceu de “Parasita” e “Que Horas Ela Volta?” e “Vidas Secas” se relacionarem entre si, de algum modo, a partir do confronto entre riqueza e pobreza, a partir dos subterrâneos do ódio de classe, uma cena levando à outra, que levou a uma narrativa de ficção que lembrou a outra.

Desde a publicação de sua coletânea de poemas “Minha Irmã, a Vida” (1922), escritos em sua maior parte nos meses revolucionários de 1917, Pasternak passou a ser reconhecido como “uma nova voz importante na poesia lírica russa, aquela que melhor transmitiu a colossal energia natural e o espírito da era revolucionária”, conforme define Gregory Freidin.

Embora “Dr. Jivago” tenha sido proibido na União Soviética por décadas, Pasternak se manteve fiel aos círculos literários e militantes do país por toda a vida. Nunca saiu da Rússia, mesmo nos períodos mais difíceis da revolução. Sua obra propunha uma renovação estética (como outros grandes poetas de sua geração: Maiakóvski, Anna Akhmátova, Marina Tsvetáieva, entre outros) e política, em consonância com os novos tempos de então (Cecília Rosas, “O Fio Longo dos Espaços: A Correspondência entre Marina Tsvetáieva e Boris Pasternak”).

Otto Maria Carpeaux explica Pasternak ao dizer que “sua atitude ideológica pouco importa: conseguiu, no início da revolução, aderir ao comunismo sem sacrificar sua liberdade íntima nem trair sua inquietação espiritual; e depois, no romance “Dr. Jivago”, sacrificará a ideologia à liberdade espiritual sem se tornar reacionário”. Por fim, para o escritor russo, tanto a revolução quanto a criação artística eram forças naturais, poderosas e incontroláveis (Cecília Rosas).

A Revolução Russa de 1917, que criou a União Soviética, primeiro país socialista do mundo, ou, “mais precisamente, a Revolução Bolchevique de outubro de 1917”, como corrige Eric Hobsbawm, é tão importante para a história do século 20 quanto a Revolução Francesa foi para o século 19, segundo o historiador. “A Revolução de Outubro”, continua ele, “produziu de longe o mais formidável movimento revolucionário organizado na história moderna”.

O socialismo acabou-se, entretanto, de maneira inacreditavelmente rápida e universal, como aponta Hobsbawm. E não se sabe —na era do desconhecido, do que não se entende, do que se convencionou chamar de “pós”, por falta de palavra melhor, como em pós-industrial, pós-imperial, pós-moderno, pós-estruturalista, pós-marxista, aponta o historiador—, não se sabe o que virá adiante.

Só se sabe que (como afirmou em recente entrevista ao El País a chefe da comissão econômica das Nações Unidas para a América Latina, Alicia Bárcena) a cultura do privilégio segue fabricando miseráveis. 
“O modelo econômico aplicado na América Latina está esgotado”, avalia Bárcena, “é extrativista, concentra a riqueza em poucas mãos e quase não tem inovação tecnológica. Ninguém é contra o mercado, mas ele deve estar a serviço da sociedade, e não vice-versa”.

Só se sabe que pobre não tem potência de negociação. Seu voto “democrático” serve apenas para alimentar a claque, sem eco, que segue legitimando, perene, a continuidade do sistema perverso que o espolia no salário e na vida. 

Marilene Felinto

Escritora e tradutora, escreve na Folha duas vezes por mês. marilenefelinto.com.br

Erramos: o texto foi alterado

O texto citado a respeito do filme "Parasita" é de autoria do crítico Celso Sabadin, e não de José Geraldo Couto, como afirmado anteriormente. O texto já foi corrigido.

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