Faz milênios, literatura conta o drama de ser prisioneiro da peste

Escritores como Boccaccio e Camus meditaram sobre dilemas morais das epidemias

[RESUMO] Desde a Grécia Antiga, passando por Boccaccio e Camus, narrativas clássicas tematizam epidemias e os dilemas morais com que o mundo se depara em situações de calamidade, como estamos vendo agora.

“Fica em casa, se cuida. Saio daqui para a Baroneza”, dizia um paulistano bem de vida a um funcionário do Empório Santa Maria, mercado caro de São Paulo, enquanto a filha enchia o carrinho de congelados, na terça-feira (17). Fugiria para a Quinta da Baroneza, condomínio de casas de campo no interior de São Paulo.

Em uma terça-feira do verão de 1348, sete moças inteligentes, fidalgas e graciosas encontraram-se na igreja de Santa Maria Novella. Lá resolveram fugir da peste que matava 2 de cada 3 moradores da cidade delas, Florença, ou assim contou Giovanni Boccaccio (1313-1375) no início de seu “Decameron”; levaram três rapazes.

Esse bando feliz, “lieta brigata”, pessoas finas, elegantes e ponderadas, passaria duas semanas em palácios e jardins das colinas toscanas, nadando nus em um lago, cantando, tomando vinhos e contando as cem histórias do “Decameron”.

O livro é mais do que uma coleção de histórias velhacas de mulheres casadas e padres à procura de satisfazer seus desejos, mas passemos. O que importa aqui é a doença. A peste foi muito pior do que gripes assassinas, por sua vez piores do que o corona. Mas escritores contam que um grego de 2.500 anos atrás, um lombardo do século 6º e um inglês de 1665 não tinham emoções muito diferentes diante da calamidade.

Os temas comuns são a fuga da cidade e a tentativa de se livrar do confinamento: a quarentena em casa, em hospitais, em campos da concentração, no bairro ou na cidade bloqueados pelo cordão sanitário. Era o desejo de não ser um “prisioneiro da peste”, como escreveu Camus, e evitar a separação, dos amores ou da vida que era banalmente feliz e sofrida, mas não sabíamos.

 francês Albert Camus fuma na sacada
O escritor franco-argelino Albert Camus fuma, em 1955, na sacada da editora pela qual publicou "A Peste" - Time Life Pictures/Getty images

Boccaccio provavelmente não viu a peste de Florença. Seu relato seria baseado na “História dos Lombardos”, escrita no século 8º por Paulo, o Diácono, dizem estudiosos. Deve ter sabido, porém, o que se passava. Seu pai era o secretário florentino de abastecimento; perdeu parentes e amigos na epidemia. Que possa ter se valido de narrativa tão antiga, que pareça tão verossímil até neste mundo de vacinas e genomas, diz um tanto sobre a nossa humanidade.

Nestes dias tristes da Itália, uma história muito lida tratava dos mortos em casa, à espera de uma providência, de velórios vazios e filas de caixões. Nem de longe é o caso atroz dos antigos sob a peste, mas a falta de cerimônia com a morte causava também consternação.

Oprimidos pela violência da calamidade e sem saber o que fazer, os homens tornaram-se descuidados das coisas santas e profanas. As leis que se usavam para os funerais foram todas degradadas. Isso é Tucídides, na “História da Guerra do Peloponeso”, sobre a peste de Atenas em 430 a.C..

Boccaccio escreveu coisa parecida sobre o desfazimento dos rituais fúnebres e o esboroamento de costumes, egoísmos e a indiferença à lei razoável. Uns se trancam com amenidades ricas, outros se embebedam nas ruas.

Os moradores da Milão de 1630 corrompem autoridades, atestados de óbito ou coveiros a fim de se furtar do diagnóstico de peste na família. Assim evitariam a quarentena, no “lazaretto” ou em casa, ou a queima de seus bens empesteados, conta Alessandro Manzoni (1785-1873) no romance “Os Noivos”, escrito e reescrito entre os anos 1820 e 1840.

O medo do contágio fazia todos “tomarem uma única e desumana precaução” de fugir dos doentes e de tudo em que haviam tocado; uma “passeata” (uma procissão) ajuda a espalhar a doença.

As autoridades fazem papelão semelhante pelos séculos. Há recusa em aceitar a doença grave ao largo. A seguir, se diz que, se há doença, não é peste, se é peste, não é do pior tipo, se é a pior, não é uma epidemia; “não é tudo que dizem”, contam Albert Camus (1913-1960) ou Manzoni.

“O que lhes falta é imaginação. Nunca estão à altura dos flagelos. Os remédios que imaginam mal estão à altura de um resfriado. Se os deixarmos agir, acabarão por morrer, e nós com eles”, diz alguém na obra do franco-argelino, Nobel de Literatura em 1957.

Camus publicou “A Peste” em 1947. O romance alterna crônica realista e meditações a respeito da vida sob a epidemia, na verdade sob alguma grande opressão. Não é o realismo do “Jornal do Ano da Peste” (1722), de Daniel Defoe (1660-1731), autor de "Robinson Crusoé", um diário fictício em primeira pessoa da praga na Londres de 1665, relato jornalístico vivo, chocante e cheio de estatísticas e medidas oficiais, motivado pela peste de Marselha de 1720.

Uns londrinos fugiram da cidade; outros remediados correram para os mercados para fazer estoques e se trancar em casa. Na Londres seiscentista como em 2020 das redes insociáveis, charlatães religiosos davam explicações sobrenaturais sobre a doença. Proibiam-se aglomerações; o pagamento de impostos foi adiado; especulava-se com preços, mercadorias sumiam.

Camus é o mais gentil destes escritores da peste. Relata epidemia imaginária em algum dos anos 1940 em Oran, cidade da Argélia, então colônia francesa. Livro do quase imediato pós-guerra, “A Peste” foi e ainda pode ser lido como uma reflexão sobre a vida sob o domínio do mal, como a ocupação nazista da França. Mas é, claro, muito mais.

“A Peste” é também uma meditação sobre o heroísmo, o que se deve fazer diante de um grande mal e a banalidade do bem, tanto nos dias desprezados como normais como nos sombrios. Depois de um tempo, a peste deixaria de ser uma “visita desagradável” para se tornar “a própria forma da sua vida e em que esqueceriam a existência que até então tinham podido levar”. A “ordem da peste” era “tanto mais eficaz quanto mais medíocre era”. O mal se torna uma rotina e seu combate precisa ser rotineiro.

“As belas ações” só valem por que são raras? A maldade e a indiferença são mais frequentes? Não são, e a ignorância distingue o vício da virtude.

Mas não se deve fazer o elogio muito enfático de gestos heroicos, que no fim das contas têm efeito prático diminuto, nem daqueles que fazem o que devem, mesmo com mais coragem, como ajudar os doentes da peste (ou fazer parte da resistência ao nazismo). Tal ação não teria mérito tão grande porque, enfim, seria a única coisa a fazer: “decidir não fazê-lo seria incrível”. “Não se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois são quatro.”

“A única maneira de lutar contra a peste é a honestidade.” O que é a honestidade? Fazer o seu trabalho. É preciso fazer bem o seu trabalho, na faxina diária, na banalidade dos dias e das dores, com mais compaixão do que paixão, assim como fazer o que se deve, na luta diária contra o mal.


Vinicius Torres Freire é mestre em administração pública pela Universidade Harvard e colunista da Folha.

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