Instituto de Lina e Pietro Bardi completa 30 anos sem ter rumo, afirma ex-diretor

Para arquiteto, aluguel de obras e exposições na Casa de Vidro são oposto do que o casal defendia

Marcelo Ferraz

[RESUMO] Colaborador de Lina Bo Bardi e ex-diretor do instituto fundado por ela e seu marido sustenta que a organização, que completou 30 anos neste mês, padece da falta de um projeto que reflita os valores democráticos e abertos à criação que marcaram a atuação do casal na cultura brasileira.

“É o último brinquedo de Pietro”, disse Lina Bo Bardi referindo-se ao recém-criado Instituto Quadrante (nome original do atual Instituto Bardi). Ainda cética e até descrente com a novidade, completou: “Pietro sempre precisou de novidades, cada hora inventa uma coisa. Assim é a vida toda”. Apesar de sua discordância velada, Lina apoiou a iniciativa sem questionar, inclusive a decisão de doar a casa com todos os bens à nova instituição.

Naquele momento, Pietro Maria Bardi completava 90 anos e se afastava da direção do Masp, decidido a continuar apoiando as artes e a cultura brasileira em geral, por meio de uma nova instituição sediada em sua casa-ateliê, conhecida atualmente como Casa de Vidro.

Projetada e construída entre 1950 e 1951, a casa foi pensada desde o princípio como um centro de estudos e encontros intelectuais, com ateliês para artistas e estudiosos de passagem —sim, havia até um outro terreno próximo para construir os pequenos “alojamentos” para os residentes visitantes, projeto que acabou, infelizmente, abandonado. Em suma, o casal sonhava com um verdadeiro centro de pesquisa, vivo e dinâmico, que pudesse ser alimentado por seus círculos de conhecimento e, principalmente, pelo poder e força de atração do Masp.

O caráter ateliê da casa pode ser sentido em seus espaços dedicados aos encontros, aos livros e obras de arte. A atmosfera dominante, refletida no acervo acumulado por toda a vida, sempre foi essa. Lembro-me de comentário do artista plástico Rubens Gerchman em um dos memoráveis almoços de domingo regados por acaloradas discussões: “Ao pisar na casa, respira-se cultura”. Lina dizia tratar-se de uma "open house" para os que visitavam São Paulo, artistas e intelectuais importantes de toda parte do Brasil e do mundo.

Neste mês de maio, o Instituto Bardi completa 30 anos de existência. Uma existência muitas vezes errática, distante de sua missão original enquanto centro de cultura detentor de um acervo único, legado por dois grandes ativistas que marcaram a cena brasileira no século passado. E não falo aqui da falta de recursos, que acomete sem dó quase todas as instituições brasileiras, agravada neste momento por um duplo ataque: a pandemia da Covid-19 e o desmanche da cultura e educação patrocinado pelo governo federal.

Falo da falta de um projeto simples, com claros objetivos, direto e contundente como foi a atuação do casal ao longo de sua vida (basta ver os princípios elencados no estatuto de criação do instituto, que pregam “a difusão cultural por diversas mídias e a promoção da pesquisa num foro extra-acadêmico”, entre outros).

Um rápido retrospecto

A primeira década de vida do instituto (anos 1990) foi de muitos feitos. Havia um conselho curador escolhido pelo professor Bardi, composto por seus amigos e colaboradores, todos ligados ao mundo das artes e da cultura. Fui convidado pelo casal para a tarefa de dirigir o instituto, função que exerci até o final de 2001. Nesse período foram realizadas publicações sobre variados temas da cultura brasileira, exposições, seminários internacionais etc., além do apoio financeiro a outras instituições.

Apesar de estar ainda experimentando e tateando um rumo, o instituto marcou presença na cena cultural, e não seria exagero dizer que, de certo modo, inaugurou-se ali um ciclo de edições de livros de arquitetura. Mas sem dúvida o grande feito dessa primeira década foi o projeto Lina Bo Bardi.

Lina, exageradamente discreta em relação a sua obra, nunca quis em vida publicar um livro sobre seu trabalho. Costumava dizer: “Façam vocês, os pósteros, depois que eu morrer”. Com sua morte, em 1992, nos empenhamos em uma ambiciosa empreitada para trazer sua obra a público —nacional e internacionalmente.

O projeto incluía a publicação de um abrangente livro (hoje em sua quarta edição e com mais de 18 mil exemplares vendidos nas edições em português, inglês e italiano), um documentário sobre a vida e a obra de Lina exibido em TV aberta e uma grande exposição com mais de 300 desenhos originais, fotografias e peças de mobiliário. Em menos de um ano de trabalho, lançamos em 1993 o livro e o documentário na abertura da exposição no Masp. A seguir, esse projeto iniciou uma turnê de nove anos por mais de 40 cidades em 26 países.

Pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que o projeto Lina Bo Bardi foi a verdadeira apresentação de Lina e de sua obra ao mundo e causou fortíssimo impacto.

A década que se seguiu assistiu a conturbadas lutas internas, com questões familiares e várias trocas de conselho e de estatuto. Foi também um tempo importante para a catalogação e para a organização do acervo de Lina.

Com enormes problemas financeiros para a difícil manutenção da casa, do jardim e do próprio acervo, inaugurou-se uma aposta na busca de recursos, pautada no aluguel de obras e documentos para exposições (inúmeras, mundo afora) e na venda de direitos de imagens. Em total oposição ao que Lina e Bardi pensavam (e exerciam) sobre a difusão do conhecimento através da disponibilização ampla e gratuita de seu acervo, esse procedimento até hoje persiste. Pesquisadores se queixam continuamente dos valores praticados na cessão de imagens etc.

Nos dez últimos anos vemos no Instituto Bardi um contínuo dessa política de incensamento da figura de Lina, às vezes mais que de sua obra, mas vemos também alguma resistência interna na tentativa de trazer de volta o professor Bardi, verdadeiro criador do instituto que tem seu nome como marca.

Seu arquivo foi catalogado e disponibilizado, alguns seminários foram realizados, um livro publicado, mas há ainda muito por fazer para recolocar o professor em seu devido lugar. Pietro Maria Bardi (1900-1999) completaria 120 anos no dia 19 de fevereiro passado. Não se viu um artigo sequer nos jornais e revistas e nem a manifestação do instituto nessa importante efeméride.

É importante ressaltar também a intensa colaboração do casal. Apesar de nem sempre concordarem, o respeito e a admiração que Lina e Pietro cultivavam mutuamente refletiram-se na intensa parceria que desenvolveram no trabalho, a ponto de muitas vezes não ser possível dizer com segurança o que era obra ou ideia de um ou de outro. Como exemplo, cito os cavaletes de vidro do Masp. O projeto é de Lina, mas a coragem e a ousadia de sua utilização são do professor.

Um futuro possível

A casa, hoje desprovida de grande parte de seus objetos e obras de arte em função da indenização dos herdeiros de Bardi —e sem o aparente caos original— perdeu seu clima de mistério, tão característico de ambientes habitados por livros, quadros, objetos estranhos variados, papéis escritos, poeira e até cupins. De certa forma, é compreensível a dificuldade em manter aquela atmosfera sem ninguém vivendo lá, sem Lina a controlar a “temperatura e o movimento dos ventos”. É um desafio que se coloca aos gestores.

Talvez, se além de apostar na visitação tivéssemos também pesquisadores, acadêmicos e estudantes “devorando” os documentos, pequenos encontros de estudiosos ou debates organizados em torno de temas afeitos ao conteúdo do acervo (que é bastante amplo), uma outra vida poderia se instalar no hoje “mausoléu” dos Bardi.

Sabemos que a bilheteria ajuda, mas não resolve questões financeiras de nenhum museu. Portanto, não deveria se investir tanto nas visitas, que tem limitações dadas pela própria casa, seus espaços e objetos. Citando novamente Lina: “Hoje em dia as pessoas vão a museus como se vai ao supermercado. Isso não interessa”.

Um aspecto que agrava ainda mais a falta de rumo da instituição são as exposições de artes plásticas e design apresentadas esporadicamente, que ocupam todo o espaço da grande sala despojada de seu mobiliário, como se a casa fosse mais uma galeria de arte da cidade. Sempre ficará a dever porque não foi pensada e nem projetada com essa finalidade: o instituto não é uma galeria e seu acervo por si só fala mais alto. Acervo de móveis desenhados por Lina em 1951, na primeira ocupação da casa; móveis clássicos valiosos, antigos e modernos; objetos, pinturas e esculturas de variadas épocas, sem falar, é claro, da arquitetura única e pioneira da casa. Hoje, patrimônio histórico nacional.

Quem vem a São Paulo e vai visitar a Casa de Vidro quer encontrar ali esse acervo a que me refiro, ou seja, quer ver a casa vestida como sempre foi em sua longa vida enquanto residência e ateliê.

Vale a pena lembrar de um comentário da arquiteta portuguesa Ana Vaz Milheiro em um seminário promovido pelo próprio Instituto Bardi, no qual se discutiam exatamente diferentes visões e possibilidades de uso e funções para a casa: “Quando as pessoas vêm à casa da Lina, principalmente uma pessoa que vem de fora, ela espera encontrar a casa da Lina. [...] Não espera encontrar a casa colonizada por outras coisas. [É preciso preservar] a aura da casa. É fundamental que quem chegue aqui não fique decepcionado”.

Conservar e apresentar esse acervo não significa congelá-lo no tempo. Aqui, na casa de Lina e Pietro, temos os arquivos que poderiam alimentar essa outra vida, do verdadeiro centro de pesquisa sonhado pelo casal, quem sabe conveniado com alguma universidade. Por que não a FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) ou o IEB (Instituto de Estudos Brasileiros da USP), por exemplo? Até os almoços poderiam ser retomados em uma ação ousada de levar a conversa da mesa (como sempre ocorreu) para o campo da produção cultural, dos livros etc. Isso não seria difícil.

Porém, é importante salientar que essa vida sonhada para a casa nos moldes da vivida pelo casal por quase 50 anos deve ser inclusiva, democrática, aberta à inteligência e à criação. E que nada tem a ver com atividades ditas glamorosas ou acontecimentos para poucos endinheirados que muitas vezes vimos acontecer ali, tais como a utilização da casa em lançamentos de moda ou comerciais de todo tipo de produtos.

Isso está muito longe do que pensavam os rebeldes moradores originais da casa, agitadores que lutaram, cada um em sua trincheira, por um Brasil melhor e mais justo. A presença da universidade pode ser de grande valia no desenho desse rumo a tomar. Lina e Bardi sempre bateram nessa tecla. A casa, com todo seu acervo, quase foi doada à Unicamp poucos anos antes da criação do instituto. Só não aconteceu por uma mudança na reitoria da universidade.

Hoje, ao adentrarmos a Casa de Vidro, sentimos falta do vigor da mata atlântica que a cerca —cipós, musgos, parasitas, galhos secos, pedaços de pau, enfim, mato rebelde. A mata virou um bosque domesticado, limpo, com vegetação rasteira controlada, sem ervas daninhas, sem marias-sem-vergonha. Será reflexo do que se passa com o “último brinquedo” do professor Bardi?


Marcelo Ferraz, arquiteto e sócio-fundador do escritório Brasil Arquitetura, foi colaborador de Lina Bo Bardi de 1977 a 1992 e dirigiu o Instituto Lina Bo e P. M. Bardi de 1992 a 2001.

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