Descrição de chapéu Perspectivas

Vidro marca nova etapa no esforço de separar prédios da rua

Com o argumento falacioso da transparência, elemento prolifera na região central da cidade

São Paulo

O edifício Apracs, em Higienópolis, está por concluir a reforma de suas áreas comuns. Além da recuperação dos espelhos d’água e de outros aspectos do térreo do condomínio projetado por Artacho Jurado, está prevista uma nova entrada.

Recentemente, a colocação dos caixilhos junto à guarita afastou qualquer dúvida: também ali chegaria o fechamento de vidro.

Edifícios assim não foram pensados para ter fechamento. Um passeio por esse bairro da região central de São Paulo, que concentra exemplares importantes de arquitetura residencial modernista, deixa perceber as adaptações mal-ajambradas feitas para submeter os térreos permeáveis —integrados à rua por rampas e marquises, ou pelo desenho do jardim— ao medo onipresente entre seus habitantes.

O Apracs, aliás, tem até um salão de cabeleireiro no térreo; a previsão de um espaço comercial junto ao ingresso do edifício frisa a intenção de vínculo com a rua.

 

Nos edifícios dos anos 1940 que ocupavam o lote integralmente, o fechamento é uma não questão. Muitos têm apartamentos no térreo, e a maioria deles tem alguns degraus dando numa porta de vidro, e só. Muitos ainda não têm grades.

Quanto mais terreno livre, maior o pavor. O problema se impõe nos prédios da década de 1950, que criavam, com recuos, jardins e não raro pilotis, a organicidade entre público e privado defendida na Carta de Atenas e hoje cada vez mais rara.

Imagine-se o edifício Louveira, que é pioneiro dessa situação, gradeado. O que fazer com suas rampas cruzando-se sobre um jardim que propõe a continuidade com a praça em frente?

Felizmente, o prédio de Vilanova Artigas, que data de 1946, é tombado —ou pode-se apostar que alguém, preocupado com a segurança, já teria inventado uma maneira de fechá-lo. Talvez com vidro.

De uns tempos para cá, as grades têm dado lugar ao tal vidro. Não só nos belos edifícios assinados, mas mesmo em outros anônimos, mais comuns, dos anos 1970 em diante.

A ideia subjacente é de que o material, por sua transparência, seria menos agressivo aos projetos originais.

Ora, é fácil ver que, tanto quanto é transparente, o vidro é reflexivo. Em lugar de se deixar atravessar livremente pelo olhar, a superfície desses novos fechamentos, qual escudo de Perseu, o devolve.

Pior; os pesados caixilhos que permitem que o material se sustente em largos panos não são em nada preferíveis aos mais delgados perfis metálicos dos gradis antigos. 

Os edifícios Príncipe de Galles e Helena Arluzia, ambos na avenida Angélica, apontam outro caminho, mais delicado, usando chapas metálicas perfuradas —essas, sim, com efeito de transparência.
O vidro não é alheio ao modernismo, muito ao contrário.

É muito presente, seja nos cobiçados janelões, nas janelas em fita, ou nas grandes torres, transparentes de alto a baixo, que deixavam ver a estrutura, feito um raio x, como aponta o arquiteto e professor da FAU-USP Guilherme Wisnik em seu livro “Dentro do Nevoeiro”.

O apelido de “pele de vidro” dado a essas construções evoca nitidamente a proximidade com esse ideal anatômico, que responde a outro, bem característico do funcionalismo, o da verdade. A estrutura não deveria ser mascarada sob ornatos; ela era a verdadeira arquitetura.

O manejo do vidro não é sem risco, e não se trata aqui das pontas cortantes que ele cria ao se quebrar.
Há poucos anos, Paulo Mendes da Rocha, ele mesmo um grande nome do modernismo ainda em atividade, foi surpreendido pelo material na execução do Sesc 24 de Maio.

Era sua intenção e a de seus parceiros do escritório MMBB usar, em toda a fachada, um vidro ultratransparente, de tipo cristal, que permitisse ver da rua o vivo programa da unidade. Escolheu-se um que parecia oferecer bom isolamento, sem efeito de espelho. Parecia —na amostra. Em grande formato, o material mostrava-se diferente.

A equipe acolheu o efeito indesejado. Em vez de grande máquina com as entranhas expostas, surgiu uma caixa que reflete, em suas fachadas, o caótico entorno do centro.

Não por imprevisto, mas por cálculo, o uso do vidro pode ter ainda outras leituras.

Em um ensaio publicado na revista Serrote, “Niemeyer, de Santo a Milagreiro”, o crítico Francesco Perrotta-Bosch aborda a adoção do vidro fumê pelo arquiteto de Brasília, primeiro na sede do Partido Comunista Francês, de 1965, e, de forma mais frequente, nos anos 1980.

“O vidro fumê tem características antagônicas ao ideal moderno de transparência. Enquanto as vanguardas arquitetônicas modernistas exaltavam a permeabilidade visual entre o exterior e o interior proporcionada pelas superfícies de vidro, o fumê é opaco”, escreve Perrotta-Bosch. “Diante de uma fachada de vidro fumê, tem-se, no máximo, um reflexo, mesmo que quem esteja no interior possa ver o que ocorre no exterior.”

Se, nos edifícios públicos em que Niemeyer o usaria, o vidro fumê alimenta a associação simbólica entre poder e obscuridade, como conclui o crítico em seu ensaio, é outra a semântica aportada pelo vidro que compõe os fechamentos tão em voga em Higienópolis.

Seu grosso calibre, distante anos-luz da ultratransparência, evoca não a perdida penetrabilidade, mas, antes, a vitrine. É de vidro, afinal, que se fazem as redomas, as caixas nas quais se expõem à cobiça preciosos objetos intangíveis.


Francesca Angiolillo, arquiteta e jornalista, é repórter especial da Folha

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