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Carlos Melo e Eugênio Bucci

Não haverá terceiro nome em 2022 se Lula se fortalecer no centro

Antiga polarização PT-PSDB precisa ser superada para construir uma frente com olho no futuro

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Carlos Melo

Cientista político e professor do Insper

Eugênio Bucci

Jornalista e professor da ECA-USP

[RESUMO] Autores sustentam que, com o extremismo antidemocrático de Jair Bolsonaro, nenhuma força política está à direita do governo. No novo tabuleiro político, PT e PSDB têm hoje mais identidades que arestas entre si.

Desde o final da ditadura militar, nós nos acostumamos a pensar a política no Brasil como um pêndulo entre polos acomodados no PT e no PSDB.

O primeiro nasceu da confluência entre o movimento sindical dos anos 1970, a base radicalizada da Igreja Católica e as organizações clandestinas que se opunham aos militares. Convencionou-se chamá-lo de esquerda.

O segundo surgiu de um racha do velho MDB, autodeclarando-se social-democrata. Com o tempo, aliou-se a próceres civis do regime autoritário, e, sobretudo após o ocaso do malufismo, no início dos anos 2.000, assumiu o posto da centro-direita.

Nessa gangorra desengonçada se escondia um indefinível ponto de equilíbrio. O eleitorado tendia ora para um lado, ora para outro, em oscilações que davam a impressão de que o dilema do poder no Brasil se resumia a escolher entre esses polos.

Sendo ambos gerados no campo da democracia, a polarização se dava em torno de divergências naturais em relação à política econômica ou à abrangência de políticas públicas. Acreditávamos que a alternância entre os dois fortaleceria os acertos e corrigiria os erros de cada um.

Em 2013, isso começou a mudar: havia nas ruas algo descolado da velha dicotomia PT-PSDB e seus satélites costumeiros. Do asfalto tomado pelas multidões, aflorou uma crítica feroz ao Estado —de resto, ineficiente.

Logo percebemos que o atraso, a treva e a selva desfilavam nas passeatas, ao lado de milhões de pessoas de boa fé. Em algumas das vertentes projetadas por 2013, o propósito parecia pender para a eliminação do Estado, ao invés de apostar em aperfeiçoamentos institucionais. Exumadas das profundezas da história patriarcal e escravagista, vozes cavernosas passaram a clamar por tirania e intervenção militar.

À primeira vista, o brado reacionário parecia folclórico, algo caricato, mas logo se viu que o pesadelo tinha vindo para ficar e falava sério. Em 2016, no impeachment casuístico de Dilma Rousseff, a extrema direita mais furibunda mostrou a cara por inteiro. O moralismo de fundo religioso, a violência policial, as milícias semiclandestinas e os piores ícones do regime militar deram então de assombrar a opinião pública e o Congresso Nacional.

O vazio de liderança política e a dissonância social pariram Jair Bolsonaro. A eleição de 2018 destampou o esgoto. O autoritarismo atroz, primário e regressivo saiu dos porões pretéritos para se instalar no Palácio do Planalto atual. A trágica reviravolta se consumou: PT e PSDB foram empurrados para o canto da sala e, desde então, não mais polarizam as corridas eleitorais.

Em solavancos, o ecossistema político se expandiu para a extrema direita, turvando e mesmo violando as fronteiras do campo democrático. O resultado disso é que petistas e tucanos autênticos, antes apartados, passaram a figurar mais ou menos juntos, em um ponto largo que se estende da centro-direita à esquerda tradicional.

Tenhamos isso bem claro: com o surgimento do extremismo antidemocrático, nada está à direita do governo e o que era centro foi violentamente empurrado para a sua esquerda, de tal modo que PSDB e PT, hoje, habitam o mesmo flanco, são vizinhos. Em outras palavras, o centro se deslocou para a esquerda e a esquerda fez uma inflexão ao centro.

O novo tabuleiro da política não deixa dúvidas. A distância entre PT e PSDB parece ínfima quando comparada ao abismo que os separa da selvageria armada pelo governo federal. Há mais identidades do que arestas entre ambos, o que explica as aproximações noticiadas pela imprensa. Simbólica é a recente declaração de Fernando Henrique Cardoso de que entre Lula e Bolsonaro, em 2022, não hesitaria em sufragar o primeiro, “o menos pior”.

Com efeito, o nome de Lula ganha um toque crucial na conjuntura. Liberado das condenações que o arrancaram da vida pública, ele retorna como alternativa para 2022. Depois do antilulismo, encarnado por Bolsonaro, abre-se a temporada do antibolsonarismo, ou do anti-antilulismo, a ser encarnado por Lula. Esse fato novo gera três consequências.

A primeira é que, em questão de poucos dias, a candidatura de Lula —não expressa, mas claramente colocada— ocupou o espaço vazio que estava à espera de uma figura “inovadora”, “nem de esquerda, nem de direita”. Ficou patente que, se demonstrar habilidade na costura de alianças, Lula, líder de esquerda, poderá se fortalecer como o maior expoente do centro alargado. Se isso se confirmar, não haverá um terceiro nome viável para 2022.

A segunda consequência, decorrente da primeira, é que, para vencer as resistências à sua candidatura —demonstradas recentemente por pesquisa do Datafolha, dando conta de que 57% dos brasileiros acham que Lula é culpado de corrupção—, Lula terá de enunciar uma mensagem clara contra os graves desvios éticos registrados em seus governos.

Só assim poderá representar forças democráticas sem filiações de esquerda. Terá de assumir compromisso de que determinados erros —e crimes— não serão repetidos em um eventual futuro governo.

A terceira consequência carrega uma dose de ironia: se vier, de fato, a se firmar como aglutinador dos que querem varrer o bolsonarismo do poder, Lula passará a depender de uma estratégia que precisa postergar o enfrentamento contra Bolsonaro para 2022. Isso significa que o impeachment deixará de fazer parte da pauta preferencial do lulismo.

O paradoxo é cruel: para vencer Bolsonaro, a articulação pró-Lula verá benefícios táticos em manter o presidente no cargo, tentando fazê-lo sangrar até o ano que vem. O paradoxo cobrará seu preço em mais sofrimento, mas poderá abrir caminho para uma vitória mais sólida e mais duradoura no futuro. Vai ser penoso.

De todo modo, é mais ou menos isso o que vai se desenhando no horizonte próximo. Enquanto dura o suspense, aguardemos que os atores políticos e líderes empresariais que deram sustentação até hoje ao presidente da República amadureçam e reconheçam que a experiência bolsonarista só nos rendeu degeneração institucional, desmatamento, desemprego generalizado e elevação do número de mortes, sem falar no isolamento internacional.

Já é tempo de jogar por terra o equívoco dos que insistem na tese de que Lula e Bolsonaro são males simétricos, ainda que com o sinal invertido. Essa ilusão de ótica, cujos efeitos foram e são nefastos, precisa ser abandonada o quanto antes, até para que se qualifique a crítica a Lula e ao PT e se desenvolvam novos termos de entendimento.

A catástrofe gerada pela pandemia no Brasil prova que o desgoverno atual dizima vidas e esperanças, em todas as frentes. As insistentes tentativas empreendidas pelo chefe de Estado em promover a ruptura institucional, com ataques em série contra a democracia, só fazem agravar os danos à economia. Isso tudo consuma o caráter sem caráter do pacto autoritário que aí está. É necessário virar o jogo.

Para tanto, a polaridade de antes deve ser superada. Sem esquecer os erros do passado, tanto do PT quanto do PSDB, é preciso construir uma frente com olhos no futuro. Precisamos selar acordos acima de interesses pessoais de quem quer que seja.

A história não anda para trás, mas um país desgovernado pode, sim, retroceder. A gravidade da hora nos diz que a polarização que conta para o Brasil se define pelo dilema existencial entre civilização (democracia) e barbárie (bolsonarismo).

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