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Fábio Terra

Defesa e desconfiança em relação ao livre mercado separam ortodoxos e heterodoxos

Professor explica a disputa entre os dois grupos ao longo da história da economia

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Fábio Terra

Economista, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC) e presidente da Associação Keynesiana Brasileira

[resumo] Autor comenta a longa contenda entre economistas ortodoxos e heterodoxos na história do pensamento econômico. Os primeiros, descendentes de linhagem inaugurada por Adam Smith, acreditam que o livre funcionamento do mercado é a melhor forma de organizar a economia, enquanto os segundos, em um ramo que remonta a Karl Marx, se opõem a essa visão.

Todos que gostam de economia estão acostumados a ouvir os termos ortodoxia e heterodoxia, que qualificam economistas ortodoxos e heterodoxos. O que isso quer dizer? Sempre que dois economistas discutem, ao menos três opiniões surgem. Logo, não há consenso na definição de ortodoxia e heterodoxia. Vejamos.

É comum definir economistas ortodoxos como os que teorizam usando linguagem formal (matematizada) enquanto heterodoxos preferem maneiras não formais de teorização. Contudo, essa definição é imprecisa, afinal heterodoxos também usam linguagem formal, todavia com pressupostos, desenvolvimento e conclusões diferentes dos ortodoxos. Ademais, ortodoxos também teorizam usando linguagem verbal não formal.

Há quem diga que heterodoxos são economistas do desenvolvimento econômico, apelidados de desenvolvimentistas. Bem, nada mais injusto com ortodoxos, afinal, eles não buscam promover desenvolvimento econômico igualmente? Ortodoxos vira e mexe dizem que heterodoxos são aqueles que não gostam de validação empírica de seus argumentos. Isso é tão injusto com a heterodoxia quanto dizer que ortodoxo não lida com desenvolvimento econômico.

Para definir heterodoxia e ortodoxia como um guia didático seguirei caminho que une a etimologia das duas palavras com a história do pensamento econômico. Pois bem, a palavra ortodoxia vem de orto, reto, e doxia, pensamento. O que é pensamento reto na economia? Precisamos da história do pensamento econômico para responder esta questão.

A criação da economia enquanto ciência, com método aplicado à compreensão de como a riqueza da sociedade é produzida e distribuída, deu-se com Adam Smith. Existiam explicações anteriores a ele, porém elas não viam na produção a partir do trabalho humano o ato gerador da riqueza, algo que Smith percebeu, teorizou e que se consolidou na ciência econômica. A oferta de trabalho, por sinal, é o primeiro passo para se ter atividade econômica, ou seja, produção, e daí se tem a economia guiada pelo lado da oferta.

Como sabemos, para Smith, a liberdade de funcionamento dos mercados implicaria a melhor divisão social do trabalho. Assim ocorreria a maior eficiência na produção de riqueza. Não seria necessário Estado para organizar a atividade econômica, as forças de mercado teriam capacidade de se auto-organizarem.

Após Smith, dois pensadores notadamente se notabilizaram: David Ricardo e Karl Marx. David Ricardo prosseguiu com os pressupostos de Adam Smith, entendendo-os como melhores para explicar a produção e distribuição de riqueza, ou seja, a economia. Ele também acreditava que o melhor para a economia seria deixar os mercados se autorregularem, tal qual havia feito Smith. Logo, o pensamento de Ricardo foi reto, isto é, seguiu o primeiro pensamento econômico cânone, Smith. Ricardo foi ortodoxo.

Já Marx discordou de que existiria a liberdade pretendida por Smith e Ricardo, principalmente a livre divisão do trabalho, dado que a detenção dos meios de produção é desigualmente distribuída. Ele divergia também da ideia de que mercados livres conduziriam ao melhor progresso econômico.

Marx foi, então, heterodoxo: hetero, diferente, alternativo, oposto, doxia, pensamento. Seu pensamento era alternativo ao cânone econômico, Smith, e, por consequência, a Ricardo. Não por menos, o subtítulo de seu mais importante livro, “O Capital”, era “Crítica da Economia Política”, em especial aquela feita por Smith e Ricardo.

Com o andar da história do pensamento econômico após Marx, a perspectiva que dominou corações e mentes foi a neoclássica. Esta corrente teórica resgatou a perspectiva de Smith e Ricardo, entendidos como os clássicos aos quais a nova corrente aderiu várias novidades, daí serem neo sobre o substantivo clássicos.

Os neoclássicos trouxeram novos postulados e hipóteses em relação a Smith. Contudo, as novidades visaram retomar a ideia de que a melhor organização possível dos mercados se daria com a maior liberdade possível deles. O laissez-faire de Smith seguiu gravado no DNA neoclássico: pensamento reto, ortodoxia.

Contemporâneo aos neoclássicos, John Maynard Keynes não foi o único a pensar de forma diferente deles, mas foi quem mais ressonância teve. A heterodoxia de Keynes em relação aos neoclássicos –e, logo, a Ricardo e a Smith– tinha vários aspectos. Ela começou, porém, com Keynes mostrando que os neoclássicos não conseguiam explicar a oferta de mão de obra pelos trabalhadores. Assim, não seria a oferta o motor da atividade econômica. Para Keynes, o lado dinâmico da economia era demanda, que dava o arranque à produção de riqueza.

Dentre os componentes da demanda, o investimento é a peça-chave da atividade econômica por criar capacidade de mais produção de riqueza. Contudo, investimento é volátil, pois depende de expectativas de retorno do empresário, algo subjetivo por natureza. Por isso, Keynes não compartilhou a crença de que o mercado livre organizaria a economia. Por sinal, Keynes foi grande defensor da liberdade individual, porém não confundiu liberdade individual com capacidade de o mercado livre autorregular a economia. Heterodoxo, portanto.

Nesta etapa história, vale a pena confundir para esclarecer. Em 1937, logo após o lançamento de “Teoria Geral” (1936), mais importante livro de Keynes, John Hicks desenvolveu uma teoria que era keynesiana no curto prazo, aceitando que o mercado não organizaria a economia, mas neoclássica no longo prazo, com o mercado construindo equilíbrio. No curto prazo o lado da demanda era o dinâmico, mas no longo prazo seria o lado da oferta que constrangeria a atividade econômica e a colocaria em equilíbrio.

Este modelo, popularmente conhecido como IS-LM, tem outro sugestivo nome: síntese neoclássica de Keynes. Vários, porém, o entenderam apenas como o modelo keynesiano, para quem o IS-LM não seria ortodoxia pura. Contudo, outro grupo de economistas tem discordância profunda com a leitura sobre a obra de Keynes feita no IS-LM.

Para se diferenciar, eles se autonominaram pós-keynesianos. Eles têm resgatado a obra de Keynes no original e desacreditam por completo da capacidade de o mercado se autorregular no curto e no longo prazos. Os pós-keynesianos são heterodoxos e veem a ecumênica síntese neoclássica de Keynes como ortodoxia.

A grande retomada da ortodoxia sem qualquer pincelada keynesiana foi feita por Milton Friedman. A sua crença de que a liberdade de mercado seria a melhor forma de organizar a atividade econômica é por demais conhecida para que seja necessário explicá-la. Friedman é ortodoxo bem como o são os novos clássicos, que avançaram na história do pensamento econômico a macroeconomia monetarista de Friedman.

O nome novo clássico mostra o retomar neoclássico e, logo, dos clássicos Smith e Ricardo, porém com roupa nova dos anos 1970 e 1980 em diante. Esta perspectiva postula que mercados são eficientes. Governos muito pouco ajudam: apenas nas chamadas, atentemo-nos, falhas de mercado. Percebamos o pensamento reto, a linha direta com Smith, o laissez-faire.

Contudo, alguns economistas seguiram acreditando que as forças de mercado poderiam não se regular no curto prazo, mas apenas no médio prazo. Isso não lembra a síntese neoclássica de Keynes? Sim, a ponto de quem militar nesta perspectiva ser chamado de novo keynesiano.

Os novos keynesianos diferem do IS-LM por colocarem fundamentos microeconômicos para basear a macroeconomia. Fatores como informação assimétrica e custo de menu impediriam o funcionamento autorregulador do mercado no curto prazo.

Vários não chamavam o modelo IS-LM de keynesiano? Novamente sim, por isso esta escola é conhecida apenas como novo keynesiana. Seus adeptos não se entendiam ortodoxos. Porém, os pós-keynesianos, heterodoxos, os consideraram ortodoxos, dado que novos keynesianos creem em forças de mercado organizando a economia, ainda que só em médio e longo prazo.

A história já está longa, é hora das sínteses. Ortodoxia pode ser compreendida como o pensamento econômico que de alguma forma acredita que o livre funcionamento do mercado é a melhor forma de organizar a economia. Como isso veio de Smith, mas é até hoje propalado, tem-se o pensamento reto, em linha com a primeira teoria canônica da economia. Mercados livres ao máximo, Estado no mínimo que for necessário para o ajudar o melhor funcionamento do mercado: eis o ponto de gravitação da ortodoxia. Heterodoxia é o pensamento que de alguma forma se opõe a este.

Para finalizar, dois pontos. 1) A definição de ortodoxia que apresento ajuda a entender quando se diz no Brasil que os economistas ortodoxos são liberais e os heterodoxos são intervencionistas. Heterodoxos serem chamados de desenvolvimentistas decorre de o desenvolvimento brasileiro no século 20 ter tido intervenção estatal e governos com ideologia de que para o progresso econômico era crucial um Estado que orientasse o desenvolvimento dos mercados e da iniciativa privada, como ensina o professor Pedro Cezar Dutra Fonseca, da UFRGS.

(2) Há um termo que é comum ver confundido com ortodoxia, qual seja, mainstream. Ele significa a corrente de pensamento que em determinado momento da história mais tem produção acadêmica, mais influencia os meios de comunicação e mais orienta a formulação de política econômica. Há algum tempo o mainstream econômico está ortodoxo, mas isso não quer dizer que ele assim sempre foi ou sempre será assim.

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