Renault diz não haver irregularidade em pagamentos a executivo brasileiro preso

Empresa disse que a investigação interna irá agora se debruçar sobre anos anteriores

Lucas Neves
Paris

A montadora Renault informou nesta quinta-feira (10) não ter encontrado indícios de irregularidade nos pagamentos feitos entre 2017 e 2018 a seu diretor-geral Carlos Ghosn, atualmente preso no Japão sob a acusação de não declarar parte de seus rendimentos à frente da Nissan, que também chefiava.

Em comunicado divulgado após reunião do conselho administrativo (presidido este também por Ghosn), a empresa disse que a investigação interna irá agora se debruçar sobre anos anteriores.

Não houve qualquer sinalização da firma sobre uma possível dança das cadeiras no topo de seu organograma. O diretor-geral-adjunto, Thierry Bolloré, ocupa interinamente desde o fim de novembro o posto de Ghosn, destituído da liderança dos conselhos da Nissan e da Mitsubishi, que formam uma aliança com a Renault.

Nas últimas semanas, a imprensa francesa tem apostado no executivo-chefe da Michelin, Jean-Dominique Senard, como possível substituto do brasileiro no comando da montadora, na qual o Estado tem participação acionária de 15%.

A avaliação é a de que, caso a Promotoria de Tóquio apresente novas acusações contra o dirigente, como é esperado que faça nesta sexta (11), a empresa europeia opte por tirá-lo de seus cargos.

Segundo a agência de notícias Reuters, citando a mídia japonesa, Ghosn deve ser indiciado por subestimar parte de seus ganhos em declarações referentes ao período que vai de 2015 a 2018 e por fazer a Nissan arcar com um prejuízo de cerca de US$ 17 milhões que ele teria tido com investimentos pessoais na época da quebra do banco Lehman Brothers (2008).

Ele já foi formalmente acusado por ocultar parte de sua remuneração no intervalo de 2010 a 2015.

Em audiência na última terça (8), Ghosn afirmou que está preso injustamente, com base em acusações sem mérito e sem sustentação.

Na quinta, o jornal francês Libération noticiou que o executivo, que tem nacionalidade brasileira, francesa e libanesa, tinha domicílio fiscal na Holanda desde 2012. É nesse país que está sediada a holding que supervisiona a parceria entre Renault e Nissan.

Ao contrário da França, a Holanda não recolhe um imposto sobre fortunas. No país vizinho, além disso, o diretor-geral estaria livre de uma contribuição excepcional sobre rendimentos elevados instituída pelo ex-presidente francês François Hollande.

Ainda na quinta, o conselho administrativo da Nissan, reunido no Japão, decidiu ampliar o espectro de decisões corporativas que precisam passar pelo crivo do colegiado e implantar um dispositivo para fixar os salários dos executivos de alto escalão.

A governança corporativa da montadora japonesa é vista como vulnerável a chefes voluntaristas. Segundo o diário francês Figaro, era Ghosn que definia sua própria remuneração, então submetida a um conselho administrativo cujos membros eram subordinados do brasileiro.

Reuters e AFP

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