Cai interesse de brasileiros por MBA nos Estados Unidos

Aversão a estrangeiros após Trump e crise são apontadas como motivação

Érica Fraga
São Paulo

No início de abril, William Boulding, reitor da escola de Administração Fuqua, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, desembarcou no Brasil para uma visita rápida. Viagens frequentes a países nos cinco continentes são parte da rotina de relações públicas do executivo desde que assumiu o posto, em 2011. 

A vinda recente ao Brasil, no entanto, tinha uma motivação extra: entender por que o número de alunos brasileiros em uma das principais escolas de MBA (Master in Business Administration) do mundo tem caído após um período de forte alta. 

O número de graduandos do Brasil em Fuqua saltou de apenas 2 em 2007 para 17 em 2019. Mas, com o declínio nas novas matrículas de brasileiros nos últimos anos, a turma de 2020 terá oito formandos do país.

Com base no que ouviu, Boulding acredita que a crise econômica ajuda a explicar a queda no fluxo de brasileiros. “Ficou claro para mim que o Brasil enfrenta condições econômicas mais desafiadoras do que muitos outros países”, diz o reitor.

Mas outra parte da história, de acordo com o executivo, vem de um contexto global que tem afastado alunos de outras nacionalidades dos MBAs americanos.

Dados exclusivos do Graduate Management Admission Council (GMAC) —responsável pelo exame de admissão GMAT— levantados a pedido da Folha mostram que, em 2014, os Estados Unidos eram o destino preferido por 65% dos brasileiros que queriam fazer um MBA. No ano passado, essa fatia caiu para 48%.

Escolas do Canadá, da Espanha e do Reino Unido foram as que abocanharam a maior parte do espaço perdido pelos EUA entre os potenciais alunos do Brasil. Em menor escala, instituições portuguesas, holandesas e até mesmo brasileiras ganharam uma fatia maior de preferência. 

Retrato de Michel Rassy, que cursou MBA na Espanha, sentado na porta de uma casa
Retrato de Michel Rassy, que teve oportunidade de cursar MBA nos EUA, mas preferiu a Espanha - Bruno Santos/ Folhapress

De acordo com os dados do GMAC, o mesmo movimento registrado nas intenções de brasileiros ocorreu com as notas enviadas, de fato, pelos futuros alunos do país para as instituições. 

Em 2014, 74,7% delas haviam sido mandadas para programas americanos (incluindo MBAs e outros cursos que pedem o GMAT). Em 2018, essa parcela foi de 63,2%.

No caso das notas, os percentuais mandados por brasileiros para o Reino Unido também caíram no período, na contramão da tendência da maior preferência declarada pelo país europeu. 

Canadá, França, Espanha e, de novo, o próprio Brasil registraram aumentos no recebimento de notas enviadas por candidatos brasileiros.

Uma tendência similar é apontada por um relatório do GMAC que analisa tendências gerais no fluxo de alunos de MBAs para os principais destinos para esse tipo de formação. Em relação a 2017, o número de inscrições de alunos de todo o mundo nesses cursos nos Estados Unidos caiu 6,6% no ano passado.

Nas demais áreas geográficas agrupadas pela instituição —Ásia e Pacífico, Europa e Canadá—, houve aumento no mesmo período. Essa tendência de perda de relevância americana nos cursos da área de negócios já ocorria desde 2013, mas se intensificou nos últimos dois anos.“A liderança de [Donald] Trump [presidente dos Estados Unidos] representou um certo aumento do xenofobismo. Esse é um dos fatores que explicam essa migração geográfica”, afirma Irineu Gianesi, diretor de assuntos acadêmicos do Insper.

Muitos alunos que decidem fazer programas como MBAs fora têm a intenção de trabalhar no exterior posteriormente, segundo Paula Amorim, diretora de novas admissões do Iese, escola de negócios da Universidade de Navarra, na Espanha.

“A disponibilidade de empregos conta muito. Nesse sentido, o efeito Trump é real. Houve mudanças nas leis que restringem as possibilidades dos estrangeiros”, diz ela.

Na contramão das escolas americanas, o Iese —que tem um dos MBAs mais bem avaliados do mundo— continua recebendo um fluxo crescente de brasileiros. O número de estudantes do país na instituição saltou de 9, em 2011, para estimados 27 em 2020.

Segundo Zeina Sleiman, diretora associada da Insead, na França, o Brasil sempre esteve entre as 15 principais nacionalidades em termos de representação na escola —que costuma ser avaliada como uma das três mais importantes de negócios do mundo. 

Recentemente, diz ela, o Brasil ingressou no grupo das 5 nacionalidades com maior presença na Insead. No total, 48 brasileiros se formarão na escola francesa neste ano.

Do outro lado do Atlântico, Fuqua tem reagido à perda de alunos internacionais. Numa iniciativa inédita, capitaneada por Boulding, a escola conseguiu recentemente que o governo americano estendesse aos alunos da instituição um visto especial criado para profissionais estrangeiros que tenham se formado no país nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (Stem, na sigla em inglês).

Esse selo dá aos graduados permissão para trabalhar três anos nos Estados Unidos. No caso de Fuqua, primeira escola de negócios do país a conseguir a designação, servirá para os alunos que tenham se formado com uma rota que combine negócios com tecnologia.

“Vivemos uma era de rupturas relacionadas à tecnologia. Estamos treinando pessoas para um mundo que ainda não existe”, diz Boulding.

De acordo com o reitor, por isso, faz sentido que a formação de negócios ofereça aos alunos, futuros líderes empresariais, a capacidade de entender o processo da tecnologia e sua interface com o conhecimento.

Com uma formação alinhada aos novos tempos descritos por Boulding, o brasileiro José Puoli, 28, que terminará o MBA em Fuqua neste ano, terá direito ao visto estendido de três anos.

“Antes nós tínhamos podíamos trabalhar aqui por um ano após a formatura. Os dois anos a mais farão muita diferença. Os empregadores te olham com outros olhos”, diz o estudante.

Puoli recebeu proposta de uma multinacional para trabalhar na área financeira e ficará nos EUA nos próximos anos. Para ele, a valorização do dólar contribuiu mais para o afastamento de estudantes internacionais do que a mudança de rumo na política americana.

Já Michel Rassy, 31, que se formou há dois anos no Iese, acredita que a percepção de que os estrangeiros não são bem-vindos contribuiu para levar alunos a buscar outros destinos. 

No caso dele, contou também o fato de que havia maior diversidade entre o grupo de candidatos para MBAs europeus do que para as escolas americanas.

“Os candidatos que buscavam os Estados Unidos eram mais conservadores, e me identifiquei mais com a visão mais aberta e a formação variada dos que queriam ir para a Europa.”Embora tenha sido aceito para o programa de Kellogg, nos EUA, Rassy preferiu o Iese.

De volta ao Brasil, trabalhou por dois anos na McKinsey e agora atua como gerente de negócios na Recode, organização não governamental com foco na formação digital de jovens carentes.

A mudança no perfil e nos interesses dos potenciais alunos tem levado instituições, como o Insper, a reformular seus currículos de MBAs, aumentando a ênfase em projetos em diferentes setores.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.