Acordo Mercosul-UE é considerado modesto para veículos e agricultura

Abertura desses mercados é menor que a sinalizada em etapas anteriores de negociação

Raquel Landim
São Paulo

O acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia está sendo considerado modesto e o possível em dois setores sensíveis e importantes para o comércio bilateral: agricultura e automotivo.

Representantes do governo brasileiro evitaram dar detalhes sobre o assunto durante a entrevista coletiva em Bruxelas e disseram que os termos ficarão públicos no fim de semana.

A Folha apurou com representantes do setor privado que a liberalização total do comércio de carros só deve ocorrer em 15 anos. Haverá uma carência de sete anos antes que as alíquotas de importação, hoje em 35%, comecem a cair.

Nesse período, será oferecida a ambos os lados uma cota de 50 mil veículos com taxa zero. É provável que apenas carros mais caros utilizem a cota, para que o desconto no preço provocado pela tarifa se torne compensador.

Atualmente as fábricas de veículos de luxo no Brasil têm até 80% de capacidade ociosa. Além disso, são vendidos anualmente aproximadamente 35 mil veículos de marcas como Audi, BMW e Land Rover no país, abaixo da cota proposta no acordo.

Em autopeças, a redução das tarifas de importação deve ocorrer em três tempos diferentes, dependendo do item: 10 anos, 12 anos e 15 anos.

Na avaliação de representantes das montadoras ouvidos pela reportagem que pediram anonimato, o acordo é considerado tranquilo, porque deixa a abertura de mercado para o futuro, concedendo tempo ao Brasil para colocar em prática uma agenda de competitividade.

O arranjo final no setor automotivo se mostrou bem menos ambicioso do que já havia sido colocado sobre a mesa. Em etapas anteriores, negociadores do governo Jair Bolsonaro (PSL) chegaram a sinalizar que poderiam abrir o mercado para veículos em 10 anos ou 12 anos, sem carência.

Mas isso só ocorreria se houvesse mais ambição dos europeus na área agrícola, o que não ocorreu. Em setores importantes, as cotas oferecidas pela UE ficaram abaixo do que havia sido ofertado em tempos atrás, quando a negociação quase foi fechada, mas acabou naufragando.

A cota de importação de carne bovina, por exemplo, é de 99,9 mil toneladas —abaixo dos 140 mil sinalizados anteriormente. Os europeus compensaram um pouco reduzindo a tarifa intracota. Dias antes do acordo ser anunciado, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que não aceitaria um valor superior a 100 mil toneladas em carne bovina. Na carne de frango, a cota ficou em 180 mil toneladas.
 

Para etanol, a cota de importação é de 450 mil toneladas para o álcool industrial e 250 mil toneladas para o combustível. Mais de uma década atrás, os europeus haviam sinalizado com 1 bilhão de litros. No açúcar, a cota vai ficar em 180 mil toneladas.

“Parece ser o acordo possível dada à resistência política de alguns países, mas é preciso aguardar o detalhamento. Difícil fechar um acordo desse tamanho sem avançar em diversos pontos”, diz Sandra Ríos, diretora do Cindes (Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento).

Havia uma demanda do setor privado para manter o regime de drawback, que é a restituição ao exportador dos impostos cobrados na importação de matéria-prima, mas os europeus eram contra. Informações extraoficiais são de que o regime será mantido, todavia isso ainda não foi confirmado.

De forma geral, os setores estão bastante aflitos pelos detalhes do acordo, pois consideram que houve pouca informação disponível durante a negociação. O governo alegou que precisava do sigilo para conseguir selar o tratado. Se o acordo for muito ruim, alguns setores pretendem resistir no Congresso, postergando a aprovação.

Colaborou Eduardo Sodré

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