Apesar de críticas de Guedes, Censo brasileiro é um dos menores do mundo

Levantamento mostra que questionário do IBGE, que foi reduzido, é semelhante ao de países ricos

Rio de Janeiro , Washington e Lisboa

A pesar das críticas do ministro da Economia, Paulo Guedes, o questionário básico do Censo brasileiro está entre os menores do mundo, segundo levantamento do economista Ricardo Paes de Barros.

Ele é o responsável por definir prioridades para os cortes determinados pelo governo Jair Bolsonaro.

Para especialistas, porém, a busca por redução de custos e números de perguntas deve ser tendência no novo ciclo censitário mundial, entre 2020 e 2021, aproveitando a possibilidade de uso de novas formas para captar dados sobre a população.

Recenseadores do IBGE demonstram como baixam os dados colhidos para o Censo, nana Praça da Republica - Marcelo Justo-6.dez.2010/Folhapress

Com o objetivo de compor um retrato dos habitantes de um país, os censos são realizados a cada dez anos.

A Divisão Estatística das Nações Unidas diz que 33 países já realizaram as pesquisas nesse novo ciclo. Outros 194 já agendaram a coleta.

Nesse período que antecede o início do ciclo, a preparação dos questionários é alvo de polêmica não só no Brasil

Nos Estados Unidos, por exemplo, discussão sobre a inclusão de pergunta sobre cidadania gerou guerra jurídica entre governo e oposição. Em Portugal, a proposta de perguntar a raça do entrevistado enfrentou críticas.

“Os censos são sempre afetados pelo sistema político do momento”, diz o economista equatoriano Byron Villacís, pesquisador da Universidade da Califórnia. 

Ele esteve no país neste ano para evento sobre o Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Normalmente, as intervenções são discutidas com técnicos, mas ultimamente vemos uma tendência de governos com intenção explícita de mudar metodologias sem conversas ou análises prévias”, afirma.

Segundo Villacís, o mundo olha com interesse o processo de elaboração do Censo brasileiro, uma vez que o país é referência global na aplicação da pesquisa pela complexidade geográfica e qualidade dos resultados anteriores.

A experiência brasileira levou o IBGE a parcerias com órgão da ONU sobre estudos de população (UFNPA) em projetos de cooperação técnica para ajudar países sul-americanos e africanos a implementar coletas eletrônicas.

Nomeada por Guedes para presidir o IBGE, a economista Susana Cordeiro Guerra anunciou no fim de maio o questionário final com 26 perguntas em sua versão básica, aplicada a 90% dos cerca de 71 milhões de domicílios.

Serão 76 perguntas na versão completa, que é aplicada a amostras da população. Em 2010, haviam sido 34 e 112 perguntas, respectivamente. 

Ela defende que o enxugamento do questionário melhora a qualidade da pesquisa e que algumas das informações podem ser obtidas em registros administrativos, como dados da Polícia Federal.

Ao defender os cortes, Guedes disse que o Censo brasileiro tinha “150 perguntas”, enquanto em países desenvolvidos são apenas 10.

Levantamento com 87 países, feito por Paes de Barros, que é economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, mostra, que o questionário básico no Brasil não é muito maior do que o de países desenvolvidos.

Considerando dados de 2010, o censo chinês teria o menor número de campos a serem preenchidos por pesquisadores, 11, seguido dos EUA (13) e do Canadá (16). Os maiores são da Holanda e Bélgica, com 147 cada um.

Com 40 campos em 2010, o questionário básico brasileiro ficaria em 16ª posição. O de 2020 terá 25 campos, diz ele. O questionário completo terá 75 campos.

Como muitos países ainda não divulgaram os questionários do ciclo atual, não é possível comparar o questionário após os cortes do IBGE

Especialistas ponderam ainda que comparações são dificultadas pelas diferentes metodologias —alguns países não têm questionário completo e outros, como os Estados Unidos, reforçam o censo com outras pesquisas.

O trabalho de Paes de Barros foi priorizar os temas, para que a direção do IBGE definisse as questões que ficariam e as que poderiam sair. 

Para justificar a redução, Cordeiro Guerra defendeu que “o cidadão está menos propenso a responder cem perguntas”.

“Um país que tem o Censo como única informação, naturalmente tem de ter um censo maior. Mas um país que tem a Pnad [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, também feita pelo IBGE], tem fonte complementar de informações”, diz Paes de Barros.

“O Censo vem crescendo de tamanho a cada década”, afirma o economista.

“Vários países começaram a caminhar na contramão dos aumentos. Se têm registros administrativos melhores, começaram a reduzir o censo”, diz, citando Suécia, Espanha e Noruega entre os exemplos.

Registros administrativos são dados obtidos por outras fontes oficiais, como a já citada PF e ministério e secretarias de Educação, que poderiam prover dados sobre migração e matrículas nas escolas.

A avaliação é que o Brasil está atrasado na coordenação entre os diferentes órgãos.

O país engatinha também no uso de novas tecnologias de coleta. Outros países incentivam a entrega de respostas pelo correio ou pela internet.

Na Inglaterra, por exemplo, a população recebe o formulário pelo correio e tem prazo para devolvê-lo, sob pena de multa.

Em Portugal, cerca de 50% dos habitantes responderam ao censo de 2011 pela internet —no Brasil, em 2010, a participação pela internet é considerada insignificante por Paes de Barros.

“A nossa taxa de resposta por internet é muito baixa. E nós somos um país que já está acostumado a fazer o Imposto de Renda [na internet] há algum tempo”, diz ele.

Em Portugal, o Instituto Nacional de Estatística envia uma carta para cada domicílio com um código individual. Os moradores podem responder pela internet, correio ou telefone. Após um prazo, recenseadores visitam os domicílios que não responderam.

O IBGE não atendeu ao pedido de entrevista sobre o tema, indicando Paes de Barros para responder à Folha. Em entrevistas recentes, a presidente do instituto tem dito que um de seus focos é melhorar o uso de tecnologias.

Embora tenha determinado corte de 25% no orçamento da pesquisa, a presidente do IBGE diz que a redução do questionário não tem relação com a restrição orçamentária.

Mesmo considerando o orçamento inicial, de R$ 3,4 bilhões, o Censo brasileiro é barato se comparado ao americano: aqui, são cerca de R$ 15 por habitante, enquanto lá, em 2010, foram US$ 42 (cerca de R$ 160). Em Portugal, por outro lado, custa € 1 (cerca de R$ 4,20) por habitante.

Para críticos à redução do questionário, o processo está sendo feito de forma unilateral e já no fim do ciclo de preparação da pesquisa, o que pode ter efeitos negativos.

Acusando intervenção no processo, cinco gestores do IBGE entregaram seus cargos no início de junho.
Nos Estados Unidos, a guerra em torno da inclusão de pergunta sobre cidadania —“Essa pessoa é cidadã dos Estados Unidos?”— tinha como pano de fundo os impactos no sistema eleitoral do país.

Trump defendia que a questão serviria para aprimorar o cumprimento de uma lei federal que protege os direitos de votação das minorias, em explicação que vai de encontro ao discurso habitualmente ofensivo do presidente.

Para os críticos, a medida poderia assustar e fazer com que muitos imigrantes, por exemplo, não respondessem à pesquisa, afetando profundamente os resultados de contagem da população —e prejudicando áreas de maior influência democrata.

Além disso, serve para traçar as fronteiras dos distritos eleitorais e distribuir cerca de US$ 675 bilhões por ano em financiamento do governo.

“Isso afeta não só a independência dos institutos de estatística, mas também a legitimidade de seus trabalhos. O maior risco é ao receber o recenseador como representante do IBGE ou do Census Bureau (o instituto americano), a pessoa pense de forma política e não cívica”, diz o especialista.

Nicola Pamplona, Marina Dias e Giuliana Miranda
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