Descrição de chapéu Previdência

Bancada do Ceará se divide na votação sobre a reforma da Previdência

Maioria dos deputados cearenses seguiu orientação de Ciro Gomes de rejeitar proposta

Marcel Rizzo
Fortaleza

A bancada cearense foi a única que não deu vitória ao sim na votação da Câmara Federal que aprovou em 1º turno a reforma da previdência, na noite de quarta-feira (10). Os 22 deputados federais do Ceará se dividiram, 11 pelo sim, 11 pelo não. A maioria, cinco, é do PDT, partido que teve Ciro Gomes como candidato a presidência em 2018 e que orientou seus deputados pelo não. Todos seguiram a legenda.

Apesar do placar, o único deputado cearense pelo PSL comemorou o empate porque a avaliação mesmo dos governistas era a de que o não deveria ter ganho entre os deputados do Ceará, não só pela influência de Ciro Gomes, mas porque o governador Camilo Santana é do PT e o estado foi um dos que, ano passado, rejeitou Bolsonaro nos dois turnos.

O candidato derrotado à Presidência da República pelo PDT, o ex-governador Ciro Gomes, durante entrevista em seu apartamento no bairro Meireles, na Beira-Mar de Fortaleza
O candidato derrotado à Presidência da República pelo PDT, o ex-governador Ciro Gomes, durante entrevista em seu apartamento no bairro Meireles, na Beira-Mar de Fortaleza - Jarbas Oliveira/Folhapress

"Havia muitos deputados indecisos e tiveram dúvidas esclarecidas. Avalio como positivo esses 11 votos pelo sim, havia demandas muito sensíveis para o Ceará e para o Nordeste na proposta da reforma da previdência", disse o deputado federal Heitor Freire (PSL-CE), que presidiu o partido no Ceará em 2018.

O Benefício da Prestação Continuada (BPC) e a aposentadoria rural foram dois dos pontos importantes para a votação dos deputados cearenses, principalmente o BPC. Na proposta original do governo federal com relação ao beneficio, os idosos em situação de vulnerabilidade só receberiam a integralidade do salário mínimo após os 70 anos -- atualmente recebem a partir dos 65 anos. Isso foi retirado do texto base aprovado na quarta-feira.

Mesmo oposição Ciro Gomes e familiares, o deputado federal Capitão Wagner (PROS-CE) votou não, apesar da orientação de seu partido pelo sim. Segundo ele as retiradas do BPC e do regime de capitalização foram importantes, mas que ele optou por levar em conta o que acredita ser a opinião da população cearense contrária a outros pontos da proposta como o abono salarial e aposentadoria por invalidez.

"Sou a favor do ajuste na previdência, mas nos pontos que ela acabe com privilégios. Votei com a visão da população do Ceará. Se você pegar enquetes que a imprensa estava fazendo, o não venceria entre os deputados cearenses. Mas a articulação do presidente Rodrigo Maia, de forma legítima, fez levar a esse empate no último momento", disse Capitão Wagner.

Para ele, a influência de Ciro Gomes sobre os deputados evitou uma virada do sim. "Dois deputados do PDT queriam vota sim, mas o Ciro ligou para eles pessoalmente e recuaram", disse Capitão Wagner.

Em entrevista à Rádio Guaíba nesta quinta-feira (11), Ciro Gomes admitiu que teve muito trabalho para que a bancada do Ceará não votasse a maioria sim. "Eu sei o trabalho que tive, de ir para o telefone, ir para cima". Ele criticou governadores da oposição do Nordeste que não teriam atuado para que suas bancadas optassem pelo não.

"Como é que na Bahia dá uma maioria assim, governada pelo PT? Como é que o Rio Grande do Norte dá a mesma coisa, governada pelo PT? Aí caímos na coisa mais escrota, desculpe a expressão, mais calhorda, mais inconfiável, que é você falar uma coisa em cima da mesa e fazer outra por trás dos panos. Ou seja, está flagrante que os governadores do PT atuaram dura e pesadamente em favor dessa aberração, enquanto as bancadas, em uníssono, votaram contra”, disse Ciro Gomes.

Eduardo Bismarck, um dos cinco deputados do PDT cearense que deu o não, disse que houve discussão intensa no partido, com Ciro Gomes participando, para definir a questão. "Tivemos seminários, encontros, falamos com o Ciro semana retrasada. Temos um Estado que não queria a reforma, nitidamente, e aí você tem dois partidos de esquerda, o PDT e o PT [somam oito deputados pelo Ceará,] o PSB também. Todos seguiram a orientação do partidos", disse Bismarck. 

Uma não vitória dos contrários à reforma da previdência entre os deputados cearenses mostra que, na verdade, há uma oposição crescente aos irmãos Ferreira Gomes no estado na opinião da cientista política Paula Vieira, do Lepem, Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da UFC (Universidade Federal do Ceará) . 

"Algumas forças mais conservadoras estão ocupando espaços e esse cenário de empate em volta da reforma da previdência mostra uma oposição crescente, apesar de toda influência ainda dos Ferreira Gomes no Estado", disse Vieira.

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