Crise de Deutsche Bank se aprofundou em período que precedeu reestruturação

Banco voltou a ter desempenho inferior ao de seus rivais de Wall Street

Bloomberg

O Deutsche Bank afirmou que a queda nas taxas de juros aumentará a pressão sobre suas receitas, depois que seus problemas operacionais se agravaram no segundo trimestre, o que torna mais urgentes os planos de reforma do presidente-executivo Christian Sewing.

O banco voltou a apresentar desempenho inferior ao de seus rivais de Wall Street em suas operações, com queda de 12% na receita com compra e venda de títulos, puxada por um declínio de cerca de um terço nos negócios com ações. O resultado geral do banco também foi inferior ao esperado, depois da constituição de uma provisão de 3,4 bilhões de euros (US$ 3,8 bilhões) para custos de reestruturação.

As ações da instituição caíram na abertura do mercado, depois que o vice-presidente financeiro James von Moltke indicou que a perspectiva de juros mais baixos poderia complicar a recuperação da empresa. Sewing este mês revelou os maiores cortes já realizados no banco de investimento, o que inclui a saída completa das operações com ações. Especulações sobre o futuro da unidade agravaram o impacto do pior primeiro semestre em uma década, para as operações de títulos em Wall Street.

Sede do Deutsche Bank em Frankfurt
Sede do Deutsche Bank em Frankfurt - Ralph Orlowski/Reuters

"Isso francamente representa pressão sobre nossa receita e a de todos os bancos, se as taxas caírem", disse Moltke em entrevista à Bloomberg Television. "É algo que podemos considerar como risco significativo para nós".

As ações do Deutsche Bank mostravam queda de 5,2% às 9h22min, na bolsa de Frankfurt, e com isso o pior desempenho entre os grandes bancos europeus.

Moltke disse no começo do mês que o objetivo de elevar os retornos sobre o capital tangível em 8% até 2022 "é realista dado o ambiente de taxas de juros que estamos encarando". O banco quer elevar sua receita anual em dois bilhões de euros até 2022, com a ajuda de uma "melhora modesta" nos juros.

"Nós providenciamos um conjunto de números", disse Moltke na quarta-feira. "Como é costumeiro, fizemos algumas suposições de planejamento, o que aconteceu no final de maio, e estamos muito cientes de que a perspectiva se deteriorou em junho".

Ele disse que que, se o Banco Central Europeu (BCE) reduzir as taxas de juros, sua expectativa é de que aja para proteger os bancos comerciais contra problemas adicionais por meio de um sistema de reservas escalonadas, sob o qual alguns dos depósitos overnight que os bancos mantêm no BCE sejam excluídos dos requisitos de reserva ou paguem taxa menos punitiva.

"Os riscos em termos de retenção de clientes, quanto ao ambiente de taxas de juros e quanto a tendências seculares negativas nas diferentes divisões representam obstáculos materiais aos planos dos gestores", escreveu Thomas Hallett, analista de bancos na Keefe, Bruyette & Woods, de Londres, em nota de pesquisa. "Os resultados pouco fazem para aliviar as preocupações do mercado sobre a capacidade de atingir essas metas".

O Deutsche Bank constituiu uma provisão de 3,4 bilhões de euros (US$ 3,8 bilhões) para custos de reestruturação, no segundo trimestre, valor superior ao previsto que resultou em prejuízo líquido de 3,2 bilhões de euros no segundo trimestre. O banco havia anunciado anteriormente que antecipava um prejuízo líquido de 2,8 bilhões de euros. Desconsiderada a provisão, o rendimento líquido teria sido de 231 milhões de euros, um resultado superior ao que o banco indicou ao anunciar a reestruturação.

Os resultados operacionais do Deutsche Bank no segundo trimestre se comparam a um declínio de cerca de 8% nos cinco maiores bancos de Wall Street. O UBS Group reportou na terça-feira queda de 9% em suas operações com ações, e em 7% em sua receita com títulos de renda fixa.

O Deutsche Bank informou ter começado a perder negócios ao longo do trimestre quando se tornou claro que abandonaria as operações com ações. Sergio Ermotti, presidente-executivo do UBS, disse na terça-feira que alguns dos saldos detidos no banco alemão estão sendo dirigidos à principal corretora de seu banco.

As operações de renda fixa, um dos pontos fortes tradicionais do Deutsche Bank, caíram em 11%, considerados os itens excepcionais, o banco informou. Sewing vai manter essas operações, mas reduzir o capital dedicado a elas.

Como parte de sua saída das operações com ações, o banco alemão chegou a acordo para transferir cerca de 150 bilhões de euros em saldos ligados a fundos de hedge ao rival francês BNP Paribas. Mas clientes vêm sacando cerca de um bilhão de euros em aplicações ao dia e optando por outras instituições, enquanto as empresas acertam os detalhes, disseram pessoas informadas sobre a situação. O Deutsche Bank está planejando leiloar suja carteira de derivativos de ações e disparar o processo nas próximas semanas, disse uma pessoa informada sobre o assunto.

No banco mundial de transações que Sewing está separando do banco de investimento e que ele pretende transformar em peça central de uma nova divisão bancária corporativa comandada por Stefan Hoops, a receita não se mexeu ante o resultado do período um ano atrás, levando em conta um ajuste não recorrente.

A reforma do banco alemão resultou na demissão de Garth Ritchie, que comandava o banco de investimento do Deutsche Bank. Sewing assumiu a supervisão da divisão, no conselho, e o comando operacional dela foi dividido entre Hoops; Mark Fedorcik, que preside o banco de investimento; e Ram Nayak, o encarregado das operações de renda fixa. Christiana Riley, que comanda as operações do banco nos Estados Unidos, se tornará parte do conselho assim que a indicação for aprovada pelas autoridades regulatórias.

Bloomberg News, tradução de Paulo Migliacci

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