Produção de veículos sobe 2,8% no 1º semestre, diz associação de montadoras

Exportações caíram quase pela metade afetadas pela crise na Argentina

São Paulo

A produção de carros e comerciais leves cresceu 2,8% no primeiro semestre do ano, na comparação com igual período de 2018, informou a Anfavea (associação das montadoras) nesta quinta-feira (4). 

Foram 1,47 milhão de veículos produzidos. Em junho, porém, houve queda tanto em relação ao igual mês do ano passado (-9,8%) quanto na comparação com maio deste ano (-15,5%).

Segundo Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, o recuo é explicado por férias coletivas em algumas montadoras, paralisações devido a mudanças em linhas de produção, além de quedas nas exportações e três dias úteis a menos em junho, ante maio.

O licenciamento de veículos avançou 12,1% nos seis primeiros meses do ano, em relação a 2018, para 1,3 milhão de unidades vendidas. Já as exportações caíram 41,5% no semestre, penalizadas pela crise na Argentina.

A produção de caminhões subiu 11,8% na primeira metade do ano, para 55,4 mil unidades. O emplacamento somou 46,8 mil veículos, alta de 46% em relação a 2018. O setor vem sendo impulsionado pelo segmento de caminhões pesados, ligados principalmente ao agronegócio.

Linha de produção de caminhões, em Resende, no Centro-Sul Fluminense do Rio de Janeiro
Linha de produção de caminhões, em Resende, no Centro-Sul Fluminense do Rio de Janeiro - Daniel Marenco - 18.jul.2012/Folhapress

Associações de montadoras e concessionárias promoveram nesta semana uma revisão geral para baixo de suas expectativas para o desempenho do setor automotivo em 2019, diante da baixa confiança do consumidor.

A Anfavea, no entanto, decidiu manter sua projeção de alta de 9% para a produção de veículos e de 11,4% para as vendas internas, apostando na aprovação da reforma da Previdência e na queda dos juros.

"Não desistimos. Estamos no meio do jogo, tem o segundo tempo inteiro para jogar. Se a reforma da Previdência for aprovada, é um fator importante para criar uma expectativa de negócios mais positiva", afirmou Moraes.

A entidade revisou apenas sua projeção de exportações, de uma queda de 6,9% para 28,5%, o que significa 140 mil unidades a menos do previsto anteriormente.

A Fenabrave (associação dos concessionários) reduziu sua previsão para o licenciamento de carros, comerciais leves, caminhões e ônibus de uma alta na casa de 11% para 8,4%, somando 2,8 milhões de veículos.

As vendas de veículos até subiram 12% nos seis primeiros meses do ano, ante 2018, segundo a Fenabrave. É preciso ponderar, no entanto, que o primeiro trimestre do ano passado foi afetado pela greve dos caminhoneiros e pela Copa do Mundo, o que reduziu a base de comparação.

Além disso, o crescimento na comercialização foi impulsionado basicamente pelas vendas diretas, sobretudo das montadoras para frotistas e locadoras, sem passar, no geral, pelas concessionárias. 

De acordo com Alarico Assumpção Jr., presidente da Fenabrave, o varejo cresceu 2,2% no acumulado do semestre, enquanto as vendas diretas avançaram 23,6%. A modalidade chegou a representar o recorde de 46% dos emplacamentos do período, ante 40,4% no primeiro semestre de 2018. Para Assumpção, esse não é um patamar saudável para as concessionárias.

Representando as montadoras, Moraes afirma que o setor automotivo está passando por uma revolução e que o sistema vai mudar. "A venda direta veio para ficar, não é um fato que a gente deva desconsiderar ou que seja momentâneo. O sistema de distribuição de veículos precisa repensar, como nós estamos fazendo", disse.

Já a venda de veículos importados caiu 9,6% no primeiro semestre deste ano, na comparação com igual período de 2018, para 16,2 mil unidades, de acordo com a Abeifa, que reúne 16 marcas.

Com isso, a associação revisou sua previsão do início do ano de vendas de importados de 50 mil veículos para 40 mil. 

"Teríamos que vender 4.800 carros por mês para manter a previsão, é praticamente impossível", disse o presidente da entidade, José Luiz Gandini.

Ele atribui a queda nas vendas de importados à "economia parada", como define a situação brasileira, e às oscilações do dólar. "Se o filho do [presidente Jair] Bolsonaro entra no Twitter e fala algo diferente, o dólar sobe. A gente está em uma situação que é muito volátil, qualquer coisa, muda totalmente", afirma.

"Hoje o câmbio está em R$ 3,83, mas estamos recebendo ainda os carros pagos na base de R$ 4,10. Não dá para repassar isso, o carro fica fora de mercado."

ACORDO MERCOSUL-UE

O setor aguarda mais detalhes para entender os impactos do acordo entre Mercosul e União Europeia, anunciado na semana passada. 

Nos primeiros sete anos do acordo, vigorará o regime de cotas, em que a Europa pode mandar para o Brasil 50 mil veículos por ano com alíquota mais baixa, de 17,5% —acima desse limite, valem os 35% atuais.

Desses 50 mil, 32 mil poderiam vir para o Brasil. Segundo Moraes, a distribuição dessa cota entre as montadoras seria definida pelo exportador (ou seja, a Europa). O Mercosul não teria limite de exportação para o bloco da UE.

A partir do 8º ano, haveria uma redução progressiva das alíquotas: 28,4%, 21,7%, 15% (quando as cotas deixariam de ser necessárias), 12,5%, 10%, 7,5% 5% e 2,5%. A partir do 16º ano, o comércio de veículos entre os blocos seria livre, sem cota e sem imposto.

As tarifas sobre autopeças sofreriam uma redução linear em 10 anos, para uma cesta de produtos maior, ou 15 anos, para uma cesta menor. As cestas ainda serão definidas. 

Além disso, o acordo prevê um mínimo de 55% de conteúdo regional para os dois blocos, ou seja, para um veículo fabricado no Mercosul ou na UE, 55% das peças teriam de ser produzidas em países dos dois blocos. No caso das autopeças, o conteúdo regional mínimo é de 50%.

Moraes disse que o setor precisa "mudar a chave" para trabalhar no livre comércio. "Há riscos, mas também chances. Queremos aproveitar as chances. Podemos jogar, vender mais, exportar mais. E não precisamos fazer tudo, podemos importar", afirma.

Para o presidente da Anfavea, o Brasil tem potencial para vender para a Europa peças como câmbio, eixo, motores e alguns tipos de veículos de nicho. "Podemos fazer um híbrido etanol bom, vamos fazer e exportar." 

Para isso, no entanto, ele diz que é preciso melhorar a competitividade do setor, o que inclui, por exemplo, mudanças no sistema tributário brasileiro.

"Precisamos atacar a competitividade agora. A corrida contra o tempo começou. A redução tarifária ocorrerá naquelas datas, mas a decisão de investimentos já vai levar em consideração esse acordo", afirma.  

A princípio, o acordo é especialmente favorável para os importadores de carros. Ainda assim, o setor evita comemorar. 

Gandini disse que as reformas da Previdência e tributária são mais importante do que o acordo. "Isso sim mexe com o mercado já", afirmou. 

Segundo ele, ainda existem muitas dúvidas sobre como será o acordo entre os blocos. "Não existe nada de concreto ainda. Existe a certeza de que vai sair alguma coisa, mas ainda precisa ser regulamentado. É prematuro, está muito cedo e muito cru ainda", afirmou.

Gandini considera que o volume de 32 mil carros é "muito pequeno". Além disso, diz que há incertezas sobre como será a divisão das cotas.

"Quem será beneficiado? Não são todas as marcas. Nem todas as associadas têm fábrica na Europa. E tem produtos na Europa que não estão no Brasil, não sabemos como vai ser a aceitação aqui", diz.

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