Ataque na Arábia Saudita provoca maior corte de produção de petróleo na história

Cerca de 5,7 milhões de barris deixaram de ser produzidos; volume supera quedas na década de 1970

Júlia Moura Nicola Pamplona
São Paulo e Rio de Janeiro

Os ataques à estatal Saudi ​Aramco, na Arábia Saudita, representam a maior queda no volume de produção de petróleo da história. Serão 5,7 milhões de barris a menos por dia. 

Unidade da Aramco perto de al-Khurj, ao sul da capital Riyadh
Queda na produção de petróleo com ataques a petrolífera árabe é maior da história - AFP

Em relação ao total da produção mundial, haverá um corte de quase 6% na oferta de petróleo. 

A petroleira sofreu ataques de drones no sábado (14), o que levou ao incêndio de duas instalações da Armco. Rebeldes houthis, do Iêmen, reivindicaram a autoria dos ataques, mas o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, culpou exclusivamente o Irã. "Teerã fez um ataque sem precedentes contra o fornecimento mundial de energia", afirmou.

O incidente levou a um corte de mais de metade da produção de petróleo da Arábia Saudita, maior exportador de petróleo do mundo. 

Segundo a Agência Internacional de Energia, a atual crise na oferta da matéria-prima é pior que a paralisação da produção no Irã com a revolução islâmica, em 1979, em que deixaram de ser produzidos 5,6 milhões de barris por dia (bpd). 

O ataque deste sábado também supera as perdas com a guerra árabe-israelense e o embargo do petróleo, em 1973, que teve impacto de 4,3 milhões de bpd. O período ficou conhecido como crise do petróleo.

Tamanha queda na produção levou o preço do barril a maior alta percentual em onze anos. Nesta segunda, a commodity fechou em alta de 13%, a US$ 68 (R$ 278,12), maior cotação desde 29 de maio.

A alta percentual é a maior desde 2008, quando a cotação disparou 13,55% em 31 de dezembro. No período, o preço do barril estava em trajetória de queda, marcada por grandes oscilações diárias, após o pico histórico de US$ 146, em julho do mesmo ano. 

A elevação do preço também reflete o receio de uma escalada no conflito entre Estados Unidos e Irã, o que traria mais volatilidade ao mercado.

“Há um risco geopolítico com as tensões entre EUA, Arábia e Irã, que pode levar o episódio a virar uma crise maior”, afirma George Wachsmann, sócio da gestora digital Vitreo.

O economista aponta também que há o risco oferta-demanda. "Em quanto tempo a Arábia Saudita vai conseguir retomar a produção? Precisamos analisar a velocidade em que o mercado consegue se adaptar", diz Wachsmann.

O presidente americano Donald Trump autorizou, no domingo (15), o uso de estoques de emergência dos Estados Unidos para assegurar a estabilidade do suprimento.

Os preços do petróleo vinham em queda nos últimos meses, com o aumento dos estoques americanos e queda na produção industrial, com a guerra comercial entre EUA e China. 

A alta do petróleo refletiu no preço da Petrobras, que teve forte alta na Bolsa brasileira. As ações preferenciais, mais negociadas, da companhia subiram 4%, a R$ 27,95. As ordinárias, com direito a voto, tiveram alta de 4,45%, a R$ 30,98. 

Analistas esperam que a empresa repasse a alta da commodity para os combustíveis. Alguns, inclusive, chegaram e elevar o preço-alvo para as ações da Petrobras. O preço-alvo reflete a expectativa do valor dos papéis em médio e longo prazo.

"Preços mais elevados ajudarão os produtores e prejudicarão as refinarias no curto prazo, mas efeitos de mais mais longo prazo sobre as companhia de energia dependerão do tempo e da magnitude da menor produção da Aramco", afirma Steve Wood,  diretor-gerente da Moody´s.

Em abril, durante um ciclo de alta das cotações internacionais, o presidente Jair Bolsonaro determinou que a direção da Petrobras suspendesse reajuste no preço do diesel, alegando risco de nova greve de caminhoneiros. A decisão levou a estatal a perder R$ 32 bilhões em valor de mercado em apenas um dia.

Para Luis Sales, analista da Guide Investimentos, o cenário de agora é diferente, com uma mudança maior no panorama global, o que deve levar a empresa a repassar o aumento no preço.

"Talvez a Petrobras demore para fazer o ajuste e espere até cotação do petróleo estabilizar. Mas, se governo não fizer [o repasse], vai haver desgaste e desconfiança por parte do mercado”, afirma Sales.

A valorização das ações da Petrobras levou o Ibovespa, maior índice acionário do país, a uma leve alta de 0,17%, a 103.680 pontos. As demais companhias de maior peso no índice fecharam em queda, com aversão global ao risco após os ataques na Arábia.

As maiores desvalorizações do pregão ficaram por conta das companhias aéreas, que tem sua base de custos ancorada nos preços do petróleo. A Azul despencou 8,45%, a R$ 47. A Gol teve queda de 7,77%, a R$ 32,05.

Apesar do temor de investidores quanto aos desdobramentos dos ataques, o dólar fechou estável, a R$ 4,09.

Outro possível impacto da disparada da matéria-prima é a inflação. Uma eventual alta nos preços dos combustíveis, que impacta o índice de preços, pode minar as expectativas do mercados e cortes de juros, tanto nos Estados Unidos, como no Brasil, cujos bancos centrais decidem a taxa básica de juros nesta quarta (18).

"Caso a situação não se normalize rapidamente, esse evento aumentará as chances de um cenário de maior desaceleração de crescimento com riscos inflacionários tanto para o Brasil quanto para o mundo. Esse episódio deverá impor maior cautela nas decisões de juros essa semana", afirma relatório da XP Investimentos.

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