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Com juros em queda, oferta de ações ganha apelo, mas há risco

Investidor fica sujeito a choques de mercado logo após operações, dizem analistas

Júlia Moura Tássia Kastner
São Paulo

O mercado financeiro ainda espera que 2019 terminará com cerca de 30 emissões de ações na Bolsa. Mas, com o estrangeiro atuando de forma mais cautelosa, cresce a pressão de corretoras para que o pequeno investidor participe das ofertas.

Até julho, foram 19 operações do tipo, parte restrita a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão). Apenas duas foram de novas empresas listadas em Bolsa, a Centauro (grupo SBF) e a Neoenergia.

A expectativa é que a maior parte ocorra neste segundo semestre, diz José Eduardo Laloni, vice-presidente da Anbima (entidade do mercado de capitais), o que ajudaria a alcançar a meta do mercado. 

Quando a Caixa vendeu as ações que detinha da Petrobras, a participação de investidor pessoa física acima da média para follow-ons, que ficou com 21% dos papéis, foi comemorada pelo governo. Era um sinal de um investidor mais disposto a sair da renda fixa.

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Vista de painel do índice Ibovespa, principal indicador da Bolsa brasileira, a B3 - Futura Press/Folhapress

O follow-on é uma oferta secundária de ações, que ocorre quando a empresa já é listada na Bolsa e faz uma nova venda no mercado.

Parte da atração do pequeno poupador está ligada ao discurso uníssono de que será preciso buscar aplicações de mais risco para ganhar o mesmo dos períodos de juros altos. 

O mercado afirma que isso está ocorrendo: “Estamos animados com o fato de as pessoas estarem aprendendo a correr riscos de forma adequada. O mercado está aquecido com juro baixo e expectativa de retomada econômica”, diz Leoni.

Segundo especialistas, porém, adquirir ações em um IPO oferece mais riscos que a compra e a venda de papéis que já estão disponíveis na Bolsa.

Isso porque a maioria dos investidores participa da oferta inicial apostando que haverá uma forte valorização nos primeiros dias de pregão.

A história mostra que ocorre o contrário: é mais frequente que empresas percam valor em Bolsa nas semanas que se seguem à oferta inicial.

“Em um mercado mais otimista, muitas vezes os investidores não são tão criteriosos”, afirma Tiago Reis, presidente da Suno Research.

Desde o começo do ano, a Bolsa brasileira já se valorizou cerca de 15%. O Ibovespa (o principal índice do mercado) é negociado acima dos 100 mil pontos. Isso ocorre mesmo com a saída dos estrangeiros, o que serve para ilustrar o otimismo de investidores locais com o mercado acionário.

Reis lembra que o Brasil já viveu euforia semelhante. Em 2007, houve um boom de aberturas de capitais, entre elas a da petroleira OGX, de Eike Batista. “Aquilo só foi possível com Brasil em alta, com as commodities [matérias-primas] valorizadas.” 
 

​ O tombo veio em 2013, quando as estimativas de produção da OGX não se confirmaram, e o valor das ações da empresa despencaram na Bolsa.

“Há truques sujos para fazer a empresa parecer melhor, como esconder provisão e antecipar vendas, e só analistas muito experientes conseguem notar isso”, diz Reis.

Gilberto Abreu, diretor de investimentos do Santander, também ressalta que a avaliação de uma empresa é ainda mais difícil no momento de abertura de capital.

“Muitas vezes há um efeito manada no IPO, um hype que eleva o preço”, diz Abreu.

Na dúvida, é melhor esperar as ações se estabilizarem para fazer o investimento pensando no longo prazo. No curto prazo, o investidor fica mais sujeito a choques de mercado.

Exatamente como ocorreu em agosto, quando a guerra comercial entre EUA e China se agravou. Quando o cenário parecia nebuloso o bastante, uma surpresa na corrida eleitoral argentina, que mostra vantagem à chapa kirchnerista, trouxe novas baixas ao mercado brasileiro. Ao fim do mês, houve recuperação.

Analistas evitam prognósticos pessimistas, mas o cenário adverso pode até dificultar novas ofertas.

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