Descrição de chapéu Financial Times

Após contratar 100 mil em menos de um mês, Amazon chama mais 75 mil para atender demanda

Aumento na demanda leva varejista ao recorde de R$ 5,9 trilhões de valor de mercado

Dave Lee Alistair Gray
San Francisco e Glasgow | Financial Times

Depois de contratar 100 mil trabalhadores adicionais em menos de um mês para lidar com a demanda gerada pelo coronavírus, a Amazon anunciou na segunda-feira (13) que contrataria mais 75 mil pessoas, contrariando a tendência de demissões em massa nos Estados Unidos, em um momento no qual a estrutura logística do grupo de varejo online mostra sinais de severo desgaste.

A contratação de trabalhadores adicionais a fim de ajudar a satisfazer a demanda dos consumidores e despachar os produtos pedidos por eles conduzirá a força de trabalho da Amazon a pouco menos de um milhão de pessoas em todo o mundo, uma expansão de mais de 20% em seu quadro de empregados em apenas um trimestre.

O aumento na demanda levou as ações da Amazon a subirem 6,2% na segunda (13) e 5,3% nesta terça (14), levando o papel ao recorde de US$ 2.283,32. A máxima anterior era de fevereiro, a US$ 2.170,22 por ação. Agora, a companhia vale US$ 1,136 trilhão (R$ 5,898 trilhões).

Entregador da Amazon na Times Square, em Nova York
Entregador da Amazon na Times Square, em Nova York - Carlo Allegri/Reuters

A Amazon disse que a decisão de aumentar temporariamente o pagamento por hora de seus trabalhadores —em US$ 2, em todo o mundo— lhe custaria mais de US$ 500 milhões, de acordo com os cálculos mais recentes, ante uma estimativa inicial de US$ 350 milhões.

“Sabemos que muitas pessoas sofreram impactos econômicos, com o corte de empregos ou licenciamento sem remuneração nas áreas de hospitalidade, restaurantes e viagens, em consequência da crise”, disse a companhia em seu blog sobre a Covid-19, na segunda-feira. “Recebemos de braços abertos qualquer pessoa desempregada que se una a nós na Amazon até que as coisas voltem ao normal e seu antigo empregador seja capaz de recontratá-la”.

De acordo com Brent Thill, analista do banco Jefferies, a decisão “era prova direta de que os consumidores estão derrubando a cadeia de suprimento da Amazon por conta da demanda esmagadora”.

O grupo de comércio eletrônico também agiu para relaxar as restrições à entrada de produtos em seus armazéns, aceitando entregas de alguns produtos “não essenciais” pela primeira vez desde março.

Excetuados os produtos caseiros mais necessários e os suprimentos médicos, as entregas de outros produtos à empresa haviam sido suspensas em um esforço para dedicar os recursos disponíveis a atender a demanda gerada pelo coronavírus. Isso tirou de operação os vendedores externos integrados ao sistema da companhia que respondem por 60% das vendas realizadas via Amazon.

“Mais tarde esta semana, permitiremos a entrega de maior número de categorias de produtos em nossos centros de distribuição”, anunciou a Amazon em comunicado. “A quantidade desses produtos será limitada a fim de permitir que continuemos priorizando produtos e protegendo nossos trabalhadores, e ao mesmo tempo garantindo que nossos parceiros comerciais possam despachar produtos para as nossas instalações”.

A Amazon não informou que categorias de produtos seriam admitidas de volta inicialmente, mas afirmou que em breve informaria os vendedores. A decisão foi noticiada inicialmente pelo The Wall Street Journal.

As mais recentes decisões da Amazon surgem no momento em que a empresa está tentando combater a difusão do coronavírus em suas operações logísticas. Mais de 50 de suas instalações nos Estados Unidos confirmaram casos, e em diversos dos principais centros de operações da Amazon múltiplos casos de coronavírus foram identificados.

O avanço da doença vai reforçar o escrutínio sobre a segurança dos trabalhadores, que expressaram preocupação sobre a falta dos suprimentos de proteção necessários.

“Com a chegada de milhares de trabalhadores novos aos armazéns da Amazon, os trabalhadores que já estão lá estão assustados e furiosos por a companhia não estar fazendo o suficiente para proteger o público”, disse Dania Rajendra, diretora da Athenas, uma organização de trabalhadores.

“O sucesso de uma empresa não pode ser julgado apenas com base no número de pessoas que ela emprega”, acrescentou Rajendra.

Em meio à pandemia do coronavírus, o comportamento dos consumidores está mudando em um ritmo que a Amazon ainda não conseguiu acomodar plenamente. No final de semana, a companhia anunciou que novos clientes interessados em usar seus serviços de mantimentos —tanto os de entrega quanto os de retirada em loja— ficariam em uma lista de espera, até que capacidade adicional para atendê-los estivesse disponível. Agora, há 150 lojas da rede Whole Food, controlada pela empresa, que permitem retirada de compras, ante 80 algumas semanas atrás, disse a Amazon.

Adicionalmente, uma nova loja em Los Angeles, que deveria ter sido inaugurada recentemente, está sendo usada por enquanto “como uma loja online temporária, concentrada apenas em atender pedidos para entrega de mantimentos”.

“Lojas que normalmente registrariam 4% a 5% de seu faturamento via vendas online agora registram até 20% e 30%, e em alguns casos 50%”, disse Marc Wulfraat, analista de logística.

“Poucas dessas lojas são capazes de lidar com esse volume sem grande desordenamento, especialmente na etapa final de entregas à casa do consumidor. Resta dizer que, embora a situação deva ser temporária, o resultado disso será uma transição permanente acelerada para compras online de mantimentos, quando a pandemia se aquietar”, ele acrescentou.

No Twitter, o vice-presidente americano Mike Pence agradeceu a Amazon por “trabalhar todos os dias a fim de atender as necessidades do povo americano enquanto enfrentamos essa pandemia juntos”.

As contratações agressivas da Amazon —e de um punhado de outras empresas como a Walmart, a maior cadeia de varejo do planeta, e a Kruger, uma cadeia de lojas de mantimentos— contrastam fortemente com outros segmentos do setor de varejo, que nos últimos dias colocaram centenas de milhares de trabalhadores em licença não remunerada. Os trabalhadores em lojas físicas que vendem produtos não essenciais foram os mais atingidos.

A Burlington Stores, uma cadeia de varejo a baixo preço que opera 730 outlets e emprega 47 mil pessoas nos Estados Unidos, na segunda-feira se tornou o mais recente grupo de varejo a licenciar trabalhadores, em uma medida que afastou do trabalho a maioria dos empregados de suas lojas e centrais de distribuição.

Em um sinal deque os números já sombrios do desemprego nos Estados Unidos estão a caminho de deterioração ainda maior, um estudo envolvendo mais de 300 executivos de finanças de empresas americanas, conduzido pela PwC na semana passada, constatou que 26% dos respondentes antecipavam novos cortes de pessoal, e que 41% previam licenciar trabalhadores sem remuneração.

No entanto, a pesquisa também encontrou sinais de uma bifurcação. Entre os vice-presidentes de finanças das empresas de bens de consumo, 37% antecipavam que teriam falta de pessoal nas próximas semanas. A PwC disse que essas empresas tendiam a vender produtos e serviços essenciais, pelos quais a demanda continua robusta durante a pandemia.

Tradução de Paulo Migliacci

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