Descrição de chapéu Coronavírus

Não estamos lutando pelo bom, mas pelo menos mau, diz presidente da Positivo

Hélio Rotenberg defende volta setorizada e gradual; empresa trabalha para auxiliar na produção de respiradores

São Paulo

A empresa nacional de computadores Positivo conseguiu equilíbrio de de vendas durante a crise do novo coronavírus. Apesar da dificuldade inicial de fabricação com a vinda de peças da China, barradas no país asiático no fim de fevereiro e início de março, a demanda por computadores no período de isolamento no Brasil registrou alta inesperada com a adoção de home office.

“Estamos acima do que esperávamos, só não sabemos se se isso se mantém por muito tempo porque existe uma crise, uma diminuição de poder aquisitivo. A gente acha a demanda fica abaixo do projetado em maio, mas não sabemos de quanto”, afirma Hélio Rotenberg, presidente da companhia, que tem cerca de 20% do faturamento proveniente de vendas ao governo.

A empresa, que emprega 2.000 pessoas, não fez demissões, mas adotou as medidas do governo para diminuir salários. “Então podemos ficar dois ou três meses num ritmo menor”, diz Rotenberg.

O executivo, favorável ao confinamento desde o início da pandemia, diz que o país não está “lutando pelo bom, mas pelo menos mau”. Ele diz ter compreendido melhor a crise quando a Positivo passou a contribuir para a produção de respiradores.

Em entrevista à Folha, Rotenberg afirma que a retomada gradual começou a ser debatida dentro da empresa. “Não é uma discussão para a volta imediata, mas gradual, para começar a voltar daqui 15 dias; primeiro, as pessoas mais essenciais ao trabalho.”

Hélio Rotenberg, presidente da Positivo de Tecnologia, maior fabricante de computadores do país; empresa tem 2.000 funcionários e começa a discutir o retorno após o isolamento imposto pelo coronavírus - Roberto Souza/Divulgação

O abastecimento com peças para eletrônicos era um problema para a indústria em fevereiro e março. Como está a situação hoje? A China ficou fechada desde o feriado chinês, que terminaria no começo de fevereiro. Ficou fechada mais quatro semanas sem embarque. Todos os embarques de fevereiro começaram a acontecer no começo de março. Produzimos em fevereiro, produzimos no começo de março e saímos correndo para começar a receber componentes para não haver quebra de produção de março. Só que a China não conseguiu dar conta; voltou, mas não repôs o que foi perdido. Agora em abril, por exemplo, faltam computadores e smartphones no mercado, não se trata de uma falta grande, mas de um percentual.

Em maio, já começa a normalizar. Essa restrição é uma condição geral de todos os fabricantes e será normalizada. Por outro lado, também há o fator da demanda, que pode cair em maio. Durante o mês todo de abril, tivemos alta por causa do home office, com as grandes empresas comprando. Estamos acima do que esperávamos, só não sabemos se se isso se mantém por muito tempo porque existe uma crise, uma diminuição de poder aquisitivo. A gente acha que em maio a demanda fica abaixo do projetado, mas não sabemos de quanto. Com isso, porém, não deve mais faltar produto no mês que vem. Em junho, o cenário deve se regularizar.

Temem nova queda de embarques da China com a possível baixa na demanda? A China está com 80%, 90% da capacidade normal. Não vemos nenhuma disrupção de navios ou de aviões e não vemos nenhuma nova crise [de abastecimento], ao menos por enquanto. Estamos conseguindo transportar —não com a facilidade de antes da crise, mas existe transporte. O abastecimento está regular.

Como adiantamos com todos os componentes que tínhamos em casa e eles voltaram a chegar a partir de 15 de março, temos menos para produzir em abril e maio, o que gerou uma oferta menor de computadores em abril. Vimos muitas empresas comprando no varejo, como bancos, porque ninguém tinha estoque, nem nós e nem as multinacionais. Aí os bancos acabaram com estoques dos varejistas.

Quão relevante foi o home office para a demanda de computadores no Brasil? Bastante grande, principalmente no ecommerce e nos supermercados que permaneceram abertos, porque as lojas físicas das cadeias varejistas fecharam. Atendemos 66 redes, 55 estão completamente fechadas. Pelo supermercado e as poucas abertas, como as Americanas, que têm algumas abertas, e o ecommerce muito forte, vendeu-se muito computador. Houve também reposição domiciliar porque os computadores eram antigos para muitas famílias. Houve compra tanto por empresas como por famílias que procuraram computadores para os filhos.

De certa forma a crise surpreendeu positivamente? Sim, nesse sentido, foi bom para nós. O sell out do varejista foi muito grande. Ele fez sell out, vendeu o que tinha e aí fechou as portas, não quis mais receber. Então a gente entrega para comércio online, mas para as 55 redes fechadas, os depósitos fecharam. E muitas delas não têm comércio online ou têm, mas muito fraco.

O varejo do comércio regional e algumas das grandes até fecharam depósito para o recebimento e para preservar caixa. Mesmo pedidos em que o caminhão estava na porta da loja não puderam ser entregues, então foi um impacto grande. Por outro lado, como o online começou a vender muito, apressou os pedidos, o que até normalizou as vendas. Se o comércio não abrir, aí imaginamos que vai cair [a venda] porque diminui a febre do home office.

Quanto tempo é possível aguentar sem cortar funcionários? As medidas do governo, como a MP 936, foi muito, muito boa paras as empresas. A gente equilibrou nossa força de trabalho. Temos cerca de 2.000 empregados, colocamos um contingente bastante grande, cerca de 40%, em licença, com parte da remuneração, o governo paga a outra parte. Nos salários de até R$ 3.000, não houve perda no rendimento líquido do funcionário. De R$ 3.000 a R$ 12 mil, uma perda em torno de 10% do valor líquido, que podemos dar uma ajuda adicional também. Com diminuição de carga horária, salário e licença, equilibrou. Então podemos ficar dois ou três meses num ritmo menor.

Você era favorável ao confinamento no início da crise. Continua defendendo que seja assim? Sim, temos que respeitar o achatamento da curva. Não sou técnico para dizer o tamanho do achatamento, mas a curva tem que ser achatada porque o sistema de saúde não está preparado para um pico. Temos de respeitar isso de toda maneira. O sistema de saúde demora um tempo até para ampliar sua capacidade. Como convivemos com a produção de respiradores, estamos entendendo o drama dos governos em não ter respiradores.

Como vocês estão inseridos nessa produção? A Magnamed, um dos grandes fabricantes do Brasil, tinha capacidade bem mais restrita para produzir os 6.500 respiradores que o governo quer que ela entregue. Então um grupo de empresas, sendo as primeiras a entrar nós, Suzano, Klabin e Flex, depois vieram Fiat e Embraer, se propôs a ajudar pró-bono a Magnamed a aumentar sua capacidade, que era de 300 por mês, para 6.500 em cerca de 45 dias.

Estamos com nosso pessoal de Taiwan, Shenzhen e Brasil, engenheiros todos, dedicados numa maratona para fazer isso. No começo de maio, começamos a entregar respiradores em quantidade grande. Percebemos que era necessário diminuir a curva porque não existia respirador suficiente no país. Esse tempo tinha que ser dado, era absolutamente necessário. Nossa meta é entregar 2.000 em maio.

Como o setor empresarial que você dialoga vê o desalinhamento político que ocorreu até então sobre confinamento? Há opiniões de todo tipo, quem quer que abra rápido, quem entende que não pode abrir. Eu dou opinião pelo que tenho visto. O sistema de saúde precisava de um tempo para aumentar capacidade, e mesmo com capacidade aumentada, não pode ter um pico. Não tem outro jeito, é terrível para a economia, é terrível para nossa empresa, terrível para todo mundo, mas não tem outro jeito, temos que fazer o menos mau. Estamos lutando pelo menos mau. Não estamos lutando pelo bom.

Na minha opinião, o menos mau era deixar tudo fechado para que essa capacidade hospitalar aumentasse, principalmente nos grandes centros, que as UTIs fossem montadas, que os respiradores chegassem, que a curva fosse achatada e que se mantivesse isolamentos determinados para que curva ficasse em patamar baixo. Não adiantava abrir e ter que fechar, morrer gente e ninguém ter espírito de compra.

O governo de João Doria vai anunciar abertura gradual em São Paulo. O que pensa disso? Começamos a discutir a volta, aos poucos, dentro da empresa. Não é uma discussão para a volta imediata, mas gradual, para começar a voltar daqui 15 dias; primeiro, as pessoas mais essenciais ao trabalho. Estamos acompanhando os padrões de boas práticas de retorno, como distância mínima de dois metros, local fixo no refeitório, transporte particular, para evitar aglomeração no transporte público. Acho que essa volta setorizada que passou a se discutir segue os padrões adotados na China. Agora, se tivesse sido feita antes, o sistema de saúde de várias cidades não teria aguentado.

Qual a perspectiva pós-pandemia para compra de bens duráveis, que são mais caros? O gráfico que mais acredito é o do símbolo da raiz quadrada. O vértice do lado direito da raiz quadrada não estará nos 100%, mas no 60%, 70% depois de tudo aberto. O mercado de bens duráveis não estará no 100% de antes da crise, talvez chegue até 75%. Aí, por alguns meses, retoma devagarinho até os 100%. Depende do tempo da retomada para saber quando atinge 75% e também das ações do governo para manter a economia ativa. O governo já fez coisas muito acertadas. Alguns comércios regionais mais afastados devem abrir antes, nos grandes centros vai demorar mais, de 60 a 90 dias.

Como está a operação nas fábricas? Noventa e cinco por cento das pessoas em funções administrativas estão em home office. Nossa fábrica de Manaus continua atuando. Todo mundo de máscara, muito gel, nosso ônibus busca todos em casa. Tomamos uma série de medidas seguindo a OMS para que as fábricas pudessem continuar operando e não tivemos nenhum caso.

E a operação internacional? Em Shenzen, na China, já estão trabalhando normal. Em Taiwan, há algumas restrições, mas os escritórios estão funcionando. É muito rígido o uso de máscaras lá e trabalham normalmente em escritório, não em home office.

A Positivo está conseguindo renegociar os contratos? Não temos muitos. De locação, estamos negociando um tempo sem pagar, para pagar depois. Estamos honrando contratos de venda para órgãos públicos. Temos outra questão, que é o dólar, então discutimos reequilíbrio de contratos. O governo está com muita boa vontade, diante das circunstâncias.

Tem uma determinação do Ministério da Economia de apressar as compras, o que é muito importante, porque se vai comprar computador, compre já para ajudar a economia. Temos encontrado alguns órgãos e tribunais fechados e não conseguimos entregar mercadoria. A licitações ganhas estão sendo honradas, o problema é se órgão vai estar aberto para receber, mas há boa vontade do governo e dos órgãos.


Raio x

Hélio Rotenberg, 58, é engenheiro civil e mestre em Informática pela PUC do Rio. Entrou no Grupo Positivo em 1988, quando se tornou o primeiro diretor do curso de informática da Universidade Positivo. Em 1989, liderou a criação da Positivo Tecnologia. A empresa possui 89% do mercado brasileiro de computadores de até R$ 1.200.

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