Descrição de chapéu Coronavírus

Nova rotina no icônico edifício Copan retrata o desafio de viver na pandemia

Funcionários mudam o jeito de trabalhar e lojistas se reinventam na tentativa de aliviar perdas

Entrada bloqueada no Copan Eduardo Knapp/Folhapress

São Paulo

A cada dia de trabalho, Gessy Selustiano, 38, pega sua bicicleta e, às 5h30, segue para o tradicional edifício Copan. Da porta de casa, na zona leste de São Paulo, até a República, na região central, onde fica o prédio, são 28 quilômetros.

O encanador do edifício, que trabalha no local há cinco anos, calcula que o percurso costuma levar uma hora e 30 minutos. Desde o início da quarentena, já percorreu mais de 2.000 quilômetros.

O dia a dia do Copan, um dos símbolos da capital paulista projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, é um recorte do que vivem trabalhadores e empresas durante a pandemia do coronavírus. Dos 102 funcionários, 83 ainda podem circular pelos 35 pisos do edifício para manter o atendimento aos 5.000 moradores.

No térreo, alguns dos 72 pontos comerciais que lutam para manter a operação já fecharam definitivamente as portas.

Gessy Selustiano da Silva, 38, encanador do Copan em sua sala do primeiro subsolo - Eduardo Knapp/Folhapress

Selustiano optou pela bicicleta há pouco mais de dois meses, após o distanciamento social ser decretado no estado. Assim, evita o transporte público, que continuou cheio mesmo com as medidas da prefeitura e do governo estadual para evitar a lotação de ônibus e metrô.

O fôlego para dar cabo do trajeto vem do hábito de correr. Maratonista desde 2017, ele já participou de três edições da São Silvestre.

Ele não chegou a reparar se o movimento aumentou ou diminuiu com o passar da quarentena. O percentual de pessoas que cumprem o distanciamento social tem caído na capital —na quarta-feira (27), a Prefeitura de São Paulo registrou que 49% dos paulistanos ficaram em casa.

A equipe do Copan está sem 19 funcionários. Os mais velhos e os que fazem parte do grupo de risco foram afastados. Affonso Celso Prazeres de Oliveira, 80, síndico do edifício desde 1993, conta que os salários foram mantidos e não foram feitas demissões.

O síndico Affonso Celso Prazeres de Olivira, 80, em sua sala localizada no primeiro andar do Copan - Eduardo Knapp/Folhapress

A decisão contrasta com os dados oficiais sobre emprego com carteira assinada no país, que apontaram na quarta-feira (28) 9,2 milhões de trabalhadores formais afetados pela pandemia, seja por demissões, seja por suspensão de contratos, seja por redução de salários e jornadas.

Aos funcionários também foi oferecido auxílio-combustível no lugar do vale-transporte para evitar o contato pessoal em ônibus e metrôs.

A rotina do trabalho mudou. No refeitório, a porta fica aberta para que não haja tanto contato com a maçaneta.

E, se antes o porteiro colocava uma encomenda no elevador para o morador, agora o morador precisa descer ao hall para receber o pacote.

Nos tempos de quarentena, a demanda de correspondências aumentou. “E o problema é que os moradores não vêm pegar, temos que insistir”,diz Severino Avelino, 45.

Funcionário do Copan há 25 anos, ele começou na limpeza e hoje é encarregado de serviços gerais do prédio. “Estou em todos os lugares e faço de tudo um pouco aqui.”

Severino Avelino da Silva, 45, encarregado do Copan - Eduardo Knapp/Folhapress

Morador do Butantã, ele ainda usa o transporte público para ir ao trabalho, mesmo com a alternativa oferecida pela administração. “É só usar álcool em gel e máscara”.

Avelino também é comerciante; tem uma casa com produtos do Norte perto de casa. No início do distanciamento, tratou de vender os produtos perecíveis, mas mesmo assim perdeu parte das mercadorias. Por não estar incluída na lista de atividades essenciais, a loja continua de portas fechadas.

Durante a pandemia, as reclamações dos moradores aumentaram, como as sobre os panelaços contra o presidente Jair Bolsonaro. “Um morador teve a pachorra de subir no brise [lâminas paralelas externas da edificação] para bater panela. Isso incomoda o vizinho”, diz o síndico Oliveira.

A primeira medida preventiva adotada por ele contra o coronavírus foi interromper visitas a partir de 30 de janeiro, um mês antes do primeiro caso registrado no país. “Me adiantei pelo fato de o prédio ser um ponto turístico e recebermos muitos estrangeiros.”

Para chegar ao terraço, onde a vista encanta, é necessário subir pelos elevadores do bloco B, junto com os moradores. A pandemia deixou claro que é preciso rever essa rota.

“Se a gente conseguir desenvolver o projeto de Ciro Pirondi [arquiteto e urbanista], esse pessoal não vai circular mais pelo prédio’’, diz Oliveira.

Esse projeto, anterior à pandemia, prevê uma torre ao lado Copan, com uma passarela de acesso ao terraço. Ainda não saiu do papel e não tem previsão para ficar pronto.

Mas nem todas as rotinas foram afetadas. No segundo subsolo, entre latas de tintas e livros de artistas renascentistas, ainda ecoam no estacionamento composições de Beethoven e Bach. Há seis anos no Copan, quase todos os dias, sempre às 12h, Alberi de Carvalho, 38, pega seu violino e escolhe alguma das partituras que mantém numa gaveta.

O pintor aprendeu a tocar o instrumento há dez anos, na igreja Congregação Cristã. Quando não está com o violino, costuma pintar. Seus artistas preferidos são os espanhóis Goya e Velázquez.

Quando está em casa, reserva o tempo para as crianças.

Alberi de Lima Carvalho, 38, pintor do Copan executa composição de Beethoven com seu violino no segundo subsolo do edifício - Eduardo Knapp/Folhapress

Carvalho conta que aprendeu a pintar na escola. Voltou a praticar, porém, apenas quando começou a trabalhar no Copan. A inspiração foram telas e molduras descartadas por moradores.

Da Penha (zona leste), costumava ir trabalhar de ônibus, mas trocou o transporte público pelo carro. A esposa, manicure, mantém o trabalho por conta própria. “Como moramos na periferia, não tem disso de fechar estabelecimento. O que acontece é atender um por um e com higiene”, diz.

Nas galerias, os lojistas tentam sobreviver à pandemia —apesar de o Copan ter cerca de 5.000 moradores, a maior parte dos clientes não vive ali.

A locadora Video Connection, de Paulo Sergio Baptista Pereira, 63, suspendeu o atendimento em março. De portas fechadas, ele continuou a fazer digitalização de VHS para DVD. “É serviço para fazer de casa, também é home office”, diz. “É só marcar um horário para receber o resultado.”

Paulo Sergio Pereira, 63, proprietário da Video Connection localizada na galeria do Copan - Eduardo Knapp/Folhapress

Vez ou outra, alguém pega um filme —e sem multa por atraso na devolução. “O pessoal reclama que a gente poderia estar fazendo delivery, mas locadora é uma coisa que está acabando”, afirma.

Pereira conta que já sofreu muitas crises. O último golpe antes da pandemia foi a popularização do streaming.

Seu público mudou bastante. Como tem um acervo robusto, sobraram os cinéfilos e emissoras que o procuram em busca de imagens de arquivo.

Como seu local é próprio, não teve a preocupação de outros comerciantes em negociar o aluguel. “Sou aposentado e estou aqui mais por amor do que por outra coisa”, diz.

Se tivesse que pagar aluguel, já teria feito como outros que deixaram a galeria.

Para seguir operando, o petshop General Au Au passou a fazer delivery de ração, por sugestão de uma amiga da proprietária do negócio, Graziela Grandini, 36.

“Teve uma campanha dentro do Copan para ajudar os lojistas”, conta. Mesmo assim, precisou cortar dois funcionários, afastar outra por dois meses e negociar o aluguel.

Moradora do Pacaembu (zona oeste), ela ainda vai trabalhar no Copan de carro. “O que me preocupa são as crianças que ficam sozinhas em casa”, diz. Enquanto ela e o marido trabalham, a mãe, que faz parte do grupo de risco por ter mais de 65 anos, ajuda como pode. Ela mora no andar de cima e olha as crianças de longe.

Graziela Grandini, 36, proprietária do petshop no Copan - Eduardo Knapp/Folhapress

A comerciante é bem cética quanto à velocidade da recuperação econômica. Estima que a situação só vai começar a voltar ao normal no final do ano.

“Muita gente não acredita e continua saindo, se expondo. Nem todos têm a consciência de ficar em casa”, diz Graziela.

Letícia Vilas Boas, 38 proprietária da queijaria Queijuz, ao lado da Video Conection, também teve que se adaptar. Formada em engenharia, ela deixou o emprego que tinha em um banco para se dedicar ao novo negócio, que abriu em fevereiro —com a chegada da pandemia, teve que redesenhar a estratégia de seu negócio logo de saída e ainda com poucos clientes.

Leticia Vilas Boas, 38, proprietária da loja de queijos Queijuz localizada no saguão do Copan - Eduardo Knapp/Folhapress

“Tive que criar tudo às pressas, de cardápio a perfis nas redes sociais para fazer delivery”, diz a comerciante.

Hoje seu faturamento é 40% menor do que esperava quando desenhou o negócio.

Para cortar gastos, demitiu um funcionário e suspendeu o contrato de outro. Acabou assumindo o negócio de ponta a ponta e fica responsável por todos os processos da queijaria.

“Tentei cortar todos os custos fixos e renegociei o aluguel. Já são seis lojas fechadas na galeria, ninguém consegue se manter com um aluguel nessa loucura”, diz.

Um dos pontos mais conhecidos no térreo do Copan, o restaurante Dona Onça, liderado por Janaína Rueda, 45, deixou de fazer filas aos finais de semana. Com as portas fechadas pouco antes do decreto estadual, passou a ser uma central de doações para ONGs e volta a funcionar como delivery na primeira semana de junho.

Janaina Rueda, 45, proprietária do restaurante Dona Onça - Eduardo Knapp/Folhapress

Janaína conta que já preparavam o terreno para o que poderia vir pela frente. “Conversando com os chefs de fora sobre as medidas de isolamento adotadas em seus países, vimos o que poderia acontecer aqui”, afirma.

No início, o Dona Onça deu férias coletivas a funcionários. Na sequência, suspendeu contratos. Parte da equipe, que segundo ela será reduzida, retorna para a nova fase do restaurante.

“Se o cenário não melhorar, vamos precisar mandar embora quem ganha os salários mais altos por que a folha está muito pesada para gente” diz.

Janaína tem esperança de que o setor sobreviva à crise, mas acha que quem sair dessa vai voltar quase quebrado.

“Todos estamos endividados. A situação não está fácil. Foram dois meses parados, né? Mas temos que olhar para a frente, nunca para trás”, diz.​

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