BC revisa projeção e vê queda de 6,4% no PIB em 2020

Para a inflação, autoridade monetária projeta 1,9% em 2020 e 3,0% em 2021

Brasília

Com o agravamento da crise econômica causada pela pandemia da Covid-19, o Banco Central revisou a projeção de retração do PIB (Produto Interno Bruto) para 6,4%. O dado foi divulgado no relatório trimestral de inflação nesta quinta-feira (25).

O diretor de Política Econômica do BC, Fábio Kanczuk, afirmou que a projeção do BC para o PIB é pessimista e indicou que a próxima revisão seja de queda menor.

“Vemos uma assimetria de cenários, esse é um PIB relativamente pessimista, o cenário médio é melhor do que este e números do setor de serviços devem ser melhores do que estes aqui apresentados”, avaliou.

No documento passado, a autoridade monetária previu para o ano estabilidade na atividade econômica, com PIB zero em 2020. O BC espera que a contração seja seguida de recuperação gradual nos dois últimos trimestres do ano, “repercutindo diminuição paulatina e heterogênea do distanciamento social e de seus efeitos econômicos”.

Para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, indicadores menos defasados mostram “curva de melhora” na atividade. “É pessimista [a previsão para o PIB] porque começamos a observar uma volta na atividade [...] abril foi o pior momento”, colocou.

Jair Bolsonaro e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, durante coletiva em Brasília - Lucio Tavora - 27.mar.2020/Xinhua

O texto destacou que o PIB recuou no primeiro trimestre de 2020, repercutindo os primeiros impactos da pandemia do novo coronavírus na economia brasileira “Essa retração foi a maior desde 2015 e interrompeu a tendência de crescimento gradual. Indicadores recentes sugerem que a contração da atividade econômica no segundo trimestre será ainda maior”, avaliou.

Segundo o BC, dados de frequência diária e semanal sugerem que a atividade atingiu o menor patamar em abril, havendo recuperação apenas parcial em maio e junho.

Para o mercado de crédito, apesar da crise, o BC projeta alta de 7,6%. O número foi revisto para cima —no relatório passado, a previsão era de 4,8%. O texto ressaltou que houve crescimento de 3,4% no estoque de empréstimos entre fevereiro e abril.

“O mercado de crédito cresceu no trimestre encerrado em abril de 2020, no contexto da pandemia da Covid-19, com dinâmicas distintas nos segmentos de pessoas físicas e jurídicas”, justificou.

O relatório destacou que foi registrada forte retração nos gastos com cartão de crédito pelas famílias, “reflexo da súbita alteração nos padrões de consumo a partir da segunda quinzena de março”, e que houve expansão das linhas de financiamento a exportação e capital de giro, “repercutindo o aumento expressivo na demanda por liquidez pelas empresas”.

De acordo com o documento, separando a concessão de crédito no período por porte das empresas, a alta acentuada de novas contratações no fim de março foi puxada por empréstimos concedidos às médias e grandes, com faturamento superior a R$ 10 milhões por ano.

O BC considerou três faixas de faturamento anual (até R$360 mil, entre R$360 mil e R$10 milhões, e acima de R$10 milhões).

No período, a média diária das operações contratadas por esse grupo aumentou de cerca de R$ 3,5 bilhões para R$ 6,0 bilhões, “arrefecendo ao longo de abril, mas mantendo-se ainda em patamar significativamente acima do observado em 2019 e no primeiro bimestre de 2020”.

Segundo o BC, em parte, esse movimento é associado ao retorno de grandes empresas ao crédito bancário. Antes da crise, elas vinham se financiando no mercado de capitais.

O BC diz acreditar que essas companhias voltarão ao mercado de capitais passada a crise.

“As empresas estavam cada vez mais se financiando no mercado de capitais e os bancos estavam usando esse espaço com pequenas e médias. Parte das medidas já tomadas e que ainda podemos tomar visam fortalecer esse canal e conservá-lo aberto e vamos fazer tudo o que estiver no nosso alcance para gerar estabilidade nesse sentido”, disse o presidente do BC.

As novas operações de micro e pequenas empresas mantiveram em março o mesmo nível do primeiro bimestre de 2020 e se elevaram a partir do dia 10 de abril.

Para a inflação, a projeção do BC é de 1,9% em 2020, 3,0% em 2021 e 3,6% em 2022. A estimativa leva em conta taxa básica de juros e câmbio constantes a 3,00% ao ano e R$ 4,95, respectivamente.

A simulação da autoridade monetária mostra que a inflação pode ficar entre 1,3% e 2,5% no fim de 2020. O maior valor projetado fica no limite do piso estabelecido pela meta, que é de 4,0%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

“As projeções aqui apresentadas dependem ainda de considerações sobre a evolução das reformas e ajustes necessários na economia”, frisa o texto.

“A inflação no trimestre encerrado em maio repercutiu os efeitos da pandemia da Covid-19 e a retração do preço internacional do petróleo. Movimentos de grande amplitude do câmbio e dos preços de commodities, além dos efeitos heterogêneos da pandemia sobre oferta e demanda pelos diversos bens e serviços, acarretaram mudanças de preços relativos”, trouxe o relatório.

“De um lado, destaca-se o forte recuo nos preços de combustíveis e de passagem aérea. Do outro, a alta nos preços de alimentos e no preço internacional do minério de ferro”, avaliou.

Campos Neto reforçou que ainda vê espaço de atuação da política monetária na inflação.

“Não vamos abandonar inflação, é ordem de prioridade. Acreditamos que ainda tem espaço na política monetária. A partir do ponto que entendemos que não existe mais, vamos utilizar todos os outros instrumentos disponíveis”, salientou.

O BC estima ainda que o déficit nas contas externas brasileiras fique em 1% do PIB em 2020, abaixo da previsão do relatório passado, de 2,5%.

Déficit nas transações correntes é quando o volume de recursos que sai do país é superior ao que entra.

A projeção também é de queda drástica no fluxo de comércio exterior em 2020. O relatório traz estimativa de reduções de 17,0% nas exportações e de 19,7% nas importações em relação a 2019, resultando em saldo da balança comercial de US$39,0 bilhões.

Para Kanczuk, a redução de lucros e dividendos enviados ao exterior por empresas com sede no Brasil é um “estabilizador automático” das contas externas. “A redução de viagens internacionais, que é contabilizada em serviços, também contribui para a queda do déficit em transações correntes”, pontuou.

Ele ponderou que o nível de investimentos diretos no país, no entanto, compensa o déficit.

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