Controle de dados: o ouro dos negócios financeiros

Abertura de cadastros bancários leva compartilhamento de informações no Brasil a um novo patamar

São Paulo

Você comenta com um amigo que precisa comprar uma cadeira de praia e, minutos depois, quando vai dar uma olhada na sua rede social, aparece uma sequência de anúncios de cadeiras de praia, casas na praia, pacotes para praia.

Você faz uma busca por lojas virtuais para comprar uma camiseta. Minutos depois, aparecem anúncios de camisetes não apenas na sua rede social, mas em outras consultas aleatórias que faz na internet.

A coleta dos seus movimentos virtuais é uma constante, mas não há no mundo nenhum estudo técnico capaz de comprovar que o seu celular capte as suas conversas.

Apesar de, ao serem instalados, alguns dos seus aplicativos tenham pedido permissão para acessar seu microfone, os usos comprovados são os básicos para o uso .

Entenda a relevância dos dados pessoais para empresas e sua importância ao sistema financeiro
Entenda a relevância dos dados pessoais para empresas e sua importância ao sistema financeiro - Unsplash

Dados estão em todos os lugares, nas mais diferentes formas –e as empresas estão cada vez mais ávidas para coletar essas informações e aplicá-las na criação de produtos, serviços e novos modelos de negócio.

A história dos dados é recente. Os primeiros registros que marcam a introdução da coleta de informações no mundo virtual são da década de 1990, com o advento da internet.

Com navegadores capacitados e buscas cada vez mais ágeis na web, o mundo dos dados ingressou em um novo momento quando o mundo se viu diante dos riscos de um “bug do milênio” (falha do milênio, na tradução literal).

O bug do milênio foi um medo coletivo no final do século 20 que, na virada de 1999 para 2000, os computadores não entendessem a mudança e zerassem o sistema, causando uma pane geral.

Os computadores viraram o ano tranquilamente, mas empresas começaram a implementar redes integradas e a acumular dados de clientes.

Com o advento das mídias sociais, novos tipos de informações passaram a ser coletadas —com uma possibilidade inimaginável de correlações.

Segundo o sócio de data e analytics da KPMG, Ricardo Santana, cerca de 90% dos dados existentes hoje foram gerados apenas nos dois últimos anos. “É um crescimento exponencial que veio com a mudança de comportamento dos consumidores e até mesmo com a maior acessibilidade aos dispositivos”, afirma.

Existem várias formas para coletar dados além dos fornecidos pelo usuário. Essas tecnologias conseguem usar a análise de fotos, mapas de calor, reações faciais ou da pupila, entre outras ferramentas, para medir o quanto alguém está propenso a consumir um serviço ou produto.

É por meio dessas informações que uma empresa consegue direcionar a publicidade aos públicos com maior intenção de compra, por exemplo.

Agora transfira essa nova realidade para o cruzamento de dados financeiros de um cliente de banco: quanto ele tem? De onde vem o que ele ganha? Como, quanto, onde, quando gasta? Consome com o dinheiro que tem ou até com o dinheiro que não tem? Paga em dia, atrasa, não paga? A lista de perguntas poderia preencher toda esta página, e o open banking vai compartilhar as respostas.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou, ao falar de open banking, que o grande ativo do mundo financeiro atualmente é o controle de dados. Segundo o executivo, há uma corrida do ouro na indústria de informações do setor.

Daniel Arraes, especialista em open banking da FICO, concorda. “Já vimos algumas iniciativas no mundo financeiro que têm a coleta e o compartilhamento de dados como pano de fundo, é o caso do cadastro positivo. O open banking é mais uma mudança que expande o uso de históricos de informações para facilitar e melhorar o acesso ao mercado”, afirma o executivo.

O open banking –ou Sistema Financeiro Aberto, como também é chamado– é o processo de compartilhamento de dados financeiros com outras instituições em busca de serviços e produtos em condições melhores ou mais variados. Esse compartilhamento, no só se dará com expressa autorização do consumidor.

O avanço dessa modalidade pelo mundo abriu espaço para um conceito ainda maior: o open finance.

Na prática, enquanto o open banking diz respeito apenas ao compartilhamento de informações entre instituições financeiras, o open finance expande o acesso aos dados para outros segmentos. A expectativa do mercado é de que esse sistema seja o próximo passo natural no Brasil.

“O movimento reduz a assimetria de informações existentes no mercado e facilita a contratação de produtos. Isso pode até mudar a estrutura dos bancos, que já começam a deixar de vender apenas os seus produtos para vender aquilo que o cliente quer”, diz Ricardo Taveira, fundador e presidente da Quanto, plataforma de open banking.

A expectativa do mercado é que o open banking traga novos participantes ao sistema financeiro e que, com o maior acesso às informações, haja uma transformação do setor para trazer produtos e serviços cada vez melhores e preços mais competitivos para tentar manter o cliente.

Apesar da evolução excepcional na coleta e no uso de dados nos mais diversos setores da economia, foi só recentemente que o Brasil implementou sua versão da LGPD (lei geral de proteção de dados), cujo texto entrou em vigor em setemb ro deste ano. As multas, no entanto, só valem a partir de agosto de 2021.

A LGPD altera alguns artigos do Marco Civil da Internet e estabelece novas regras para empresas e órgãos públicos no que diz respeito ao tratamento da privacidade e segurança das informações de usuários e clientes, buscando promover uma maior proteção desses dados pessoais. Outros países já haviam implementado suas próprias versões, como é o caso da França, Alemanha e Reino Unido.

Segundo o sócio-líder da Deloitte para a indústria de serviços financeiros, Sérgio Biagini, o incentivo à economia aberta trazida pelo open banking necessariamente precisa reconhecer a propriedade do dado ao indivíduo, dando a ele total direito e liberdade.

“Além disso, ele também precisa ter a garantia que esse dado será protegido. Tudo isso é muito importante, uma vez que o dado se torna cada vez mais um fator estratégico e competitivo. O open banking, junto à LGPD, direcionam todo esse movimento, que deve ganhar uma tração ainda maior nos próximos anos”, afirmou.

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