Open banking vai gerar produtos e serviços mais personalizados

Controle das informações que serão compartilhadas aumenta o poder de barganha dos clientes

São Paulo

Para quem acompanha a implementação do open banking, a percepção é generalizada: a abertura do mercado, por assim dizer, vai abrir espaço no sistema financeiro para novos participantes e levar à criação e personalização de produtos, com queda nos custos finais.

“A troca de informações, com o conhecimento igual para todo mundo, faz com que todos precisemos encontrar novas formas de entregar valor para o cliente. Para que se mantenham competitivos no mercado, todos precisarão se atualizar, é uma reinvenção”, diz a gerente executiva de negócios digitais do Banco do Brasil, Carla Sarkis Teixeira.

Os especialistas afirmam, no entanto, que a redução dos preços com o open banking tem um limite. Isso significa que, apesar de uma certa expectativa de diminuição dos juros e taxas cobradas devido ao menor risco da operação, a tendência é que parte dessa queda seja compensada pela adição de benefícios, no que as instituições financeiras chamam de agregar valor.

Isso pode resultar em preços semelhantes aos pagos agora, mas com mais serviços ou produtos agregados.

Open banking deve ampliar acesso a produtos e serviços financeiros
Open banking deve ampliar acesso a produtos e serviços financeiros - Pixabay

“Se ficarmos todos na guerra de preço, chega uma hora que ninguém consegue baixar mais para não inviabilizar a operação”, diz Carla.

Segundo Leandro Vilain, diretor de inovação, produtos e serviços bancários da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), novos participantes e serviços são esperados a partir da implementação do sistema financeiro aberto.

“Vejo quatro grandes frentes ganhando espaço com a implementação total do open banking: o agregador financeiro, os participantes que tragam uma facilidade maior na comparação dos produtos, os pagamentos e movimentações financeiras e a solução de problemas mais cotidianos”, afirma Vilain.

O que o executivo da Febraban chama de agregador financeiro tende a chegar como um novo participante do sistema bancário —uma startup ou fintech, por exemplo.

A partir da permissão do cliente, essa companhia agregaria, em um só lugar, todas as suas informações e seria capaz de fazer a gestão financeira desse consumidor.

Os pagamentos e movimentações financeiras, também mencionados pelo executivo da Febraban, tendem a ser um braço dos agregadores financeiros. Esse processo seria parte de uma modalidade regulamentada pelo BC em outubro, de iniciadores de transação de pagamento.

Essa nova instituição de pagamento, segundo a autoridade monetária, faria a iniciação de uma transação por conta própria —desde que aprovada ou comandada pelo cliente.

Na prática, isso significaria que o agregador financeiro conseguiria enxergar, por exemplo, se o cliente está com dinheiro sobrando em uma instituição e com a conta no vermelho em outro banco.

Ao identificar essa situação, a companhia ou o prestador desse serviço pode pedir autorização do cliente para transferir valores de uma conta a outra para quitar a dívida.

Outras empresas que podem ganhar um espaço maior são aquelas que facilitem a comparação dos produtos e serviços existentes. Nesse caso — e a partir do consentimento do cliente—, a companhia seria responsável por coletar as informações e buscar a melhor opção disponível.

Segundo o fundador do GuiaBolso, Thiago Alvarez, a expectativa é que produtos e serviços personalizados surjam gradativamente. Ele afirma ainda que, apesar de as discussões já estarem avançadas em relação à implementação do open banking, há alguns passos a serem dados.

“As regras do jogo já estão regulamentadas pelo Banco Central, agora estamos definindo o que falta e como tudo deve acontecer. A tendência é muito positiva e o open banking vai mudar para sempre a cara do sistema financeiro”, diz Alvarez, que também faz parte do conselho deliberativo do open banking, do BC.

Do lado das instituições financeiras, a redução de juros e as condições melhores para clientes não necessariamente implica em menos receitas.

“Conforme o acesso às informações aumenta, também é natural que o acesso dos brasileiros ao sistema financeiro aumente. Quanto menos burocrático e mais acessível for um processo, mais as pessoas serão atraídas e melhor será o uso da ferramenta”, diz Ingrid Barth, diretora da ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs).

O movimento implicaria em maior bancarização da população —situação que tem se intensificado desde o começo da pandemia.

Atualmente, 175,4 milhões de pessoas têm relacionamento bancário no país. Desse total, 9,8 milhões iniciaram um relacionamento com alguma instituição financeira só neste ano, entre março e outubro.

Um cruzamento de dados mostrado pela Folha em 18 de outubro, no entanto, aponta que, em relação à população (212 milhões de habitantes), cerca de 36 milhões de brasileiros continuam fora do sistema financeiro.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.