Descrição de chapéu Vida Pós-Vírus

Lives, streaming e drive-in vieram para ficar mesmo com reaberturas

Indústria do entretenimento penou para sobreviver ao isolamento e emerge da crise reinventada

Sem poder fazer show, MC Jottapê começou um programa na Twitch, plataforma de streaming, no canal da KondZilla Danilo Verpa/Folhapress

São Paulo

Não tem empurra-empurra, não tem fila para o banheiro e nem aglomeração. A garrafa d’água não custa R$ 6, nem a cerveja, R$ 10. Também não tem banda sobre o palco, nem DJ na cabine. Diante do tablado, não há plateia, e cinema, até outro dia, era somente ao ar livre —e só para quem tem carro.

Como tudo nos últimos oito meses, o consumo de produtos culturais e de entretenimento também mudou com a pandemia. Baladas, festas de rua, bares, cinemas, museus e teatros fecharam as portas, suspenderam datas. E tudo se transferiu para o conforto —ou a solidão— da sala de casa, por meio da tela do celular, do computador ou da smart TV.

Com a reabertura avançando, empresários e agentes culturais voltaram a fazer planos de olho naquilo que deve permanecer do período de recolhimento: a presença virtual ficou indispensável.

Entre as sessões dos cinemas reabertos, as salas precisam ser higienizadas - Ricardo Borges/Folhapress

No início de outubro, o governo de São Paulo anunciou que a capital entrou na fase verde, a última na distensão do distanciamento social dentro do plano definido pela gestão estadual. Com isso, museus, teatros e cinemas reabriram as portas.

Festas e shows ainda não podem voltar no modelo tradicional —terão controle de acesso e público sentado.

A reabertura deve começar a mudar a régua entre o presencial e o virtual, diz Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. “A intensidade talvez não seja a mesma de produção virtual e a gente se estabilize em outro patamar.”

Para André Sturm, curador do Petra Belas Artes, os primeiros dias e semanas de atividades liberadas ainda serão fracos em movimento, mas aposta em uma certa “ansiedade coletiva” pelo encontro e pela convivência.

“Você toma por base como estão os restaurantes e as praias. Talvez há quem fique temeroso no começo, mas é inevitável voltar”, diz.

Com as salas de cinemas reabertas, os drive-ins criados na pandemia já tiveram as últimas exibições em vários locais. A experiência de ver um filme a partir do carro estacionado, porém, não deve desaparecer.

O Petra Belas Artes, que fez exibições no Memorial da América Latina, prevê incluir o modelo em sua programação do ano que vem.

“O drive-in exige a mobilização de um espaço livre muito grande. A gente conseguiu fazer porque o Memorial estava sem uma programação”, diz André Sturm, curador do Belas Artes.

“Queremos manter como evento. Tem um público novo que gostou do formato, e outros, que já conheciam, puderam mataram as saudades.”

A ocupação das vagas do drive-in do Petra ficou acima de 80% desde o lançamento.

As regras para reabertura em São Paulo são similares às de outras cidades. Nos cinemas, há higienização das salas entre as sessões e bloqueio de assentos para manter o distanciamento.

Outro formato usado intensamente na pandemia foram as lives. Segundo o YouTube, as transmissões sertanejas quebraram todos os recordes de audiência. Marília Mendonça teve, em abril, um público de 3,31 milhões de pessoas enquanto o show era exibido —e ele já foi visualizado 54 milhões de vezes.

Artistas consagrados da MPB como Gilberto Gil, Milton Nascimento e Gal Costa também aderiram às lives enquanto não voltam aos palcos.

Até Caetano Veloso, que resistiu nos primeiro meses, se rendeu a um show, transmitido ao vivo pela Globoplay.

Sem poder fazer show, MC Jottapê começou um programa na Twitch, plataforma de streaming, no canal da KondZilla - Danilo Verpa/Folhapress

A Twitch, plataforma muito popular para transmissão de jogos eletrônicos, lançou no Brasil, durante a pandemia, sua programação musical e escalou 11 artistas para o time inicial de programas na rede.

“Rapidamente entendemos que os artistas precisavam de ajuda durante a pandemia para alcançar os fãs, e a Twitch foi o serviço perfeito para isso”, diz o diretor de parcerias e conteúdo da plataforma, Wladimir Winter.

MC Jottapê e outros artistas da Kondzilla estão lá, fazendo entrevistas, jogando, produzindo música ao vivo. O momento, diz André Izidro, diretor de marketing da produtora, é propício para testar os formatos.

Na avaliação dele, os shows são insubstituíveis, mas a linguagem das lives se consolidou com a quarentena.

“Não substitui, mas reforça o marketing. Na hora de montar uma programação anual, semestral, vamos ter que encaixar lives”, afirma.

Para Eduardo Saron, do Itaú Cultural, o período sob a pandemia também deixou uma série de aprendizados, devido à urgência em digitalizar conteúdos. O site do Itaú Cultural hospedou, desde março, 13 mostras de cinema.

“Pudemos vencer barreiras de tempo e espaço. Vamos ter agora de pensar a partir das plataformas, usar todos os meios tecnológicos disponíveis. Em um espetáculo, pode ter uma câmera a partir do palco. Ou, em show, você não assiste da plateia, mas do cenário. São dezenas de possibilidades”, diz.

E, se régua do presencial ante o virtual começa a mudar para as artes de palcos, museus e cinemas, festas e shows ainda seguirão diferentes por mais um tempo.

Em março, Adipe Neto, da Brain Solutions, estava com um calendário cheio de festas até o fim do ano. A produtora tinha 20 feiras e eventos corporativos marcados, além das festas Lunática, Santo Forte, Talco Bells e Massa Real.

Algumas festas ainda foram para o ambiente virtual, como a Lunática, convidada pela Twitch para uma transmissão, e a Santo Forte, que foi transmitida até setembro por meio do Zoom, com ingressos a R$ 20.

De 100 a 150 pessoas topavam pagar para assistir ao DJ escolhendo música a partir de sua casa.
O faturamento com esse tipo de evento virtual, diz Adipe, equivale a 1% do que a produtora recebia. Ou seja, não bota comida na mesa de ninguém. No início, conta, mais gente participava, mas veio a exaustão.

“As pessoas cansaram desse formato”, avalia o produtor.

Desde a reabertura, a Lunática voltou a ser produzida, mas em formato mais comedido, batizado de Lulu: das 16h às 22h, com mesas vendidas para grupos antecipadamente, bar e pizza. Sem pista de dança por enquanto.​


Cinema 

Foram liberados no dia 9/10 em São Paulo
Em outros locais, como Rio de Janeiro e Salvador, eles já estavam reabertos

Como foi

Onde reabriu

  • Há distanciamento entre as poltronas
  • Somente casais ou pessoas que forem junta poderão sentar lado a lado
  • A ocupação máxima é de 40% do assentos
  • As salas são higienizadas entre as sessões

Onde está fechado

  • Para quem está em cidades com cinemas ainda fechados, restam as plataformas de streaming
  • O Petra Belas Artes lançou a sua neste ano
  • As mostras É Tudo Verdade e Varilux de cinema francês foram exibidos pelo Looke

Drive-in
As programações foram encerradas
O cinema ao ar livre, porém, não será esquecido e deve virar evento

Teatro

Segue o mesmo protocolo dos cinemas
A reabertura foi liberada em outubro

Como foi

  • Atores, diretores e produtores montaram peças pensadas para a transmissão online
  • Há os dois formatos: os atores no palco, com a peça transmitida para quem está em casa, e todos em suas casa, atores e público

Após a reabertura

  • Parte da programação virtual deve ser mantida
  • Além da expectativa de retorno gradual do público, ainda faltará patrocínio para grandes espetáculos

Baladas e shows

  • As aglomerações não entram nem no plano SP, nem nos demais planos
  • Festinha por vídeo
  • DJs, casas noturnas e festas carregaram suas programações para o streaming e para plataformas de vídeo

Como está

  • Casas noturnas estão reabrindo como bares e restaurantes
  • Alguns começam a incluir shows na programação, mas somente com público sentado

Como deve ficar

  • Shows pensados para a transmissão online devem continuar
  • O uso de outras plataformas de streaming também não será interrompida
  • Uma vez que o corpo a corpo esteja liberado, elas perderão espaço, mas não vão desaparecer​

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.