Descrição de chapéu mercado de trabalho racismo

'Nós fomos sabotados por muito tempo', diz Rachel Maia

Executiva que presidiu no Brasil empresas como Tiffany e Lacoste diz que ação afirmativa não é favor, é compensação

São Paulo

As ações afirmativas que têm sido desenvolvidas por algumas empresas brasileiras nos últimos meses são benéficas para a sociedade e as oportunidades surgidas devem ser aproveitadas pelos profissionais negros que estão ou desejam entrar no mercado de trabalho.

A avaliação é de Rachel Maia, fundadora da RM Consulting, voltada ao desenvolvimento de altos executivos.

Ao mesmo tempo, Rachel faz parte de grupos que costumam ser minoria no topo da pirâmide empresarial no Brasil, mulheres e negros. Mas se impôs. Em uma carreira ascendente na área financeira de multinacionais, chegou ao comando. Foi presidente no Brasil das joalherias Pandora e Tiffany, e da marca de luxo Lacoste. Em 2018, abriu a consultoria que apoia outros a crescerem.

"Aproveite a oportunidade. É justo realizarem ações afirmativas. Existiu um prejuízo para nossa etnia. Não é favor. É simplesmente uma compensação, pelo que foi mal feito no passado", afirma.

Entretanto, ela destaca que para aproveitar bem a oportunidade é preciso também se aprimorar e buscar desenvolver as habilidades necessárias para realizar um bom trabalho.

"Se ainda não tem todas as skills [habilidades] para a oportunidade, corre atrás. Eu estou fazendo um MBA agora. Eu tenho três MBAs. Agora minha consultoria precisa, porque vai me dar uma chancela diferente, e eu quero ser diferenciada. Para isso eu preciso me aperfeiçoar", diz.

Segundo a executiva, atualmente o mercado de trabalho "está mais aberto a aceitar a cor da sua pele, a celebrar a diferença, e isso é maravilhoso. E esse profissional esta sendo empoderado, por ele mesmo, porque o negro é o protagonista [dessa transformação]".

Ela também avalia como positivas as iniciativas que buscam desenvolver programas de trainee focados em universitários negros.

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Recentemente observamos os movimentos de empresas em busca de aumentar a diversidade dentro dos seus quadros. Como você analisa este reposicionamento?
Existiu esse movimento –há um tempo atrás, não é de agora– entre empresas multinacionais. Elas estavam na dianteira. Muitas têm sede aqui no Brasil. Elas têm uma preocupação ampla nesse aspecto, não só de inclusão e diversidade. Uma entra, puxa a outra, e essa outra tem que fazer por conta do movimento, que é genuíno. Isso tudo começou no ambiente externo, refletiu no interno e, agora, outras empresas estão falando deste mesmo assunto.

Mas essa não é uma questão apenas para o mês da Consciência Negra, o mês para falar dos pretos. É a questão da identidade demográfica do país. Uma etnia que representa um país não está nos quadros das empresas, essa diversidade não é representada nas lideranças. As empresas precisam ficar preocupadas, porque esse processo precisa ser internalizado. E não é só uma questão de realizar uma palestra, por exemplo. Precisa ser feito de forma genuína. Vejo muitas oportunidades, mas estamos em um processo evolutivo.

Rachel Maia no jantar de abertura da temporada 2019 do campeonato Roland-Garros - 08.05.19 - Marcus Leoni / Folhapress

É um processo irreversível?
Se você é ou quer ser uma multinacional, é irreversível. Precisa ter estes parâmetros, que já estão definidos. E mesmo se você é uma empresa nacional, tem uma responsabilidade social. O mercado inteiro está se movimentando.

E olhando pela visão do profissional que busca entrar no mercado ou se transformar em uma liderança ...
Nós fomos sabotados por muito tempo. Existiu aquela coisa 'não é para você'. Hoje temos este empoderamento. Vejo um empoderamento crescente há três anos. O profissional está com a autoestima revisada, para o lado positivo –e isso é bom demais.

Por muito tempo o negro foi desmotivado, minado. Hoje o mercado está mais aberto a aceitar a cor da sua pele, a celebrar a diferença, e isso é maravilhoso. E esse profissional esta sendo empoderado por ele mesmo, porque o negro é o protagonista [dessa transformação]. E tem os brancos que também trabalham para este papel [de protagonismo] acontecer.

Em muitos lugares pessoas negras ainda são chamadas para falar somente quando o tema é racismo ou diversidade, isso te incomoda?
Eu sou convidada para falar de liderança, por exemplo. É a minha experiência. Eu montei no varejo coisas que poucos fizeram. Óbvio que eu tinha o peso e a responsabilidade de ser duas vezes melhor, mas isso não me inibiu. Fui mais cobrada? Fui. Mas isso não mudou o meu objetivo. Eu queria ser melhor naquilo em que eu me propunha na minha vida e naquele momento. Porque é muito difícil você se tornar um bom profissional tendo o pico como target [alvo]. Primeiro você tem que ser bom naquilo que você está fazendo.

Sou convidada para falar sobre diversidade e inclusão? Sim. Mas eu falo o ano inteiro sobre temas diferentes, falando ou não falando [de diversidade]. A Embaixatriz Beatriz do México falou uma vez 'a Rachel pode entrar muda e sair calada, mas ela já falou de diversidade, a presença dela fala por si'. Mas nunca me incomodou falar de diversidade. Eu não tenho vergonha da minha negritude, pelo contrário, tenho orgulho.

Muito tem se falado, nos últimos meses, sobre desenvolver lideranças negras. Existe uma especificidade para desenvolver lideranças negras?
A empresa precisa se preocupar em desenvolver uma liderança inclusiva. Para fazer isso é necessário preparar os líderes para eles incluírem de forma genuína. Não basta estar por estar, não basta figurar no quadro. Você tem que tratar aquele profissional negro de uma forma respeitosa e isso demanda preparação. E é isso que eu estou fazendo no mercado, preparando líderes para incluir.

Os programas de trainees focados em pessoas negras apresentados nos últimos meses por algumas empresas são um bom passo na busca pelo desenvolvimento de lideranças negras nas empresas?
Existem várias ações afirmativas possíveis de se realizar com o olhar de equidade. Existe um crescimento recente de pessoas negras se formando nas faculdades e você precisa treinar estas pessoas. E partir dos trainees há uma das vertentes para se formar líderes negros. Porque, se não, você vai só esperar a sorte ou só esperar encontrar um líder X . Não, nós temos que ter líderes talentosos, trainees, potenciais líderes do futuro. Então, apoio 100% essa iniciativa.

E o profissional, como ele pode se preparar para se desenvolver e buscar espaço?
Aproveite a oportunidade. É justo realizarem ações afirmativas . Existiu um prejuízo para nossa etnia. Não é favor. É simplesmente uma compensação pelo que foi mal feito no passado. Se ainda não tem todas as skills para a oportunidade, corre atrás. Eu estou fazendo um MBA agora. Eu tenho três MBAs. Agora minha consultoria precisa, porque vai me dar uma chancela diferente e eu quero ser diferenciada. Para isso eu preciso me aperfeiçoar.

Nos últimos meses você tem atuado na sua consultoria, quais são os novos projetos que irá desenvolver?
Eu tenho agora um modelo híbrido. Eu sou executiva, sou consultora e sou conselheira. Estou em vias finais de contrato para assumir o latin american de uma empresa de beleza focada 80% para pessoas negras. Eu já dividi o meu tempo para que eu possa continuar nesse universo executivo, fomentando o crescimento da empresa. Na minha consultoria, eu já tenho grandes empresas [como clientes]. Tem bastante coisa para fazer.

Como você avalia o atual momento do mercado de trabalho, de uma forma geral, não apenas sobre o aspecto da diversidade?
O mercado fomentou novos empreendedores, isso é indiscutível. O mercado ainda está desafiador, mas fomentou formas diferentes de atuação. A desempregabilidade continua alta, o que leva [as pessoas] a procurar formas de gerar recursos. Mas se preparem. Não basta simplesmente abrir uma portinha, abrir uma startup. Você tem que se preparar para ser o melhor naquilo que você está se propondo. E para isso, é importante um movimento de livros e mentoria, para entender como você pode ser o melhor no seu mercado.

Você prevê melhora no mercado de trabalho nos próximos meses?
Eu sou otimista por natureza. Não acho que vai ser fácil. Alguns [negócios] vão deixar de existir. Tem o advento de novas profissões. Digitalização. Mas eu vejo possibilidades boas para o Brasil. Lógico, nós temos um desafio político monstro. Enquanto houver corrupção, teremos um desafio no crescimento. Mas o setor privado é muito forte no Brasil, então tem muita coisa por aí acontecendo.

Nos últimos anos, o mercado de trabalho tem debatido muito sobre as soft skills ou habilidades comportamentais. Vocês acredita que já existe um predomínio deste tipo de qualificação na hora das contratações ou a questão técnica ainda é relevante?
Eu acho que é um blend [mistura]. Os profissionais que estão na vanguarda entenderam isso. Eu exploro muito minhas soft skills na parte de comunicação, na parte de trato com as pessoas, na parte de ser eclética. Isso tudo não é opcional, se faz necessário. Hoje um chefe que grita, bate na mesa e xinga está com o tempo dele contado. Não cabe mais este tipo de liderança.

Raio-X

Rachel Maia, 49 anos, é formada em Ciências Contábeis, pós-graduada em Finanças pela USP (Universidade de São Paulo) e tem especializações pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pela Harvard Business School. Ela foi CEO & CFO da multinacional Cia’s Seven Eleven, Farmácia Novartis, Tiffany & Co Joalheria, Pandora e Lacoste Brasil. Fundou a RM Consulting em 2018.

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