Negociação de BDRs aumenta mais de 460% com entrada de pessoa física

Recibos de ações americanas negociados no Brasil tiveram expressiva rentabilidade em 2020

São Paulo

Os BDRs (recibos depositários de ações, na sigla em inglês) entraram com força na carteira dos brasileiros. Em 2020, eles ficaram disponíveis a pessoas física, e sua negociação subiu 462,8% em relação a 2019, chegando a R$ 28,59 bilhões em dezembro, com pouco mais de dois meses da mudança na regra.

Por meio deste recibo, é possível investir em ações listadas em outros países, como Tesla, Mercado Livre e Apple, as favoritas do investidor brasileiro.

Antes era necessário abrir uma conta em uma corretora estrangeira e mandar dinheiro para fora do país.

Agora, por meio do BDR, o investidor compra um recibo emitido por um banco lastreado em uma ação listada no exterior. Neste caso, a ação não vai para o nome do comprador, mas a variação no preço da BDR acompanha a da ação.

Como BDRs são negociadas em reais, o câmbio é outra variante neste investimento. A alta de 29,27% do dólar em 2020 se somou à recuperação expressiva das ações em Wall Street gerando ganhos expressivos para BDRs, que atraíram ainda mais os brasileiros.

Operadores na Nyse (Bolsa de Valores de Nova York)
Operadores na Nyse (Bolsa de Valores de Nova York); brasileiros têm investido no mercado americano por meio de BDRs - Johannes Eisele/ AFP

“A valorização foi brutal. As Bolsas explodiram e o real se desvalorizou muito. O BDR ganhou as duas valorizações", diz Francisco Levy, planejador financeiro CFP pela Planejar.

Em 2020, o índice americano Dow Jones subiu 6,84%. O S&P 500 teve alta de 15,86% e o Nasdaq, de 43,86%.

“A alta está exagerada. Eu olho os preços e não vale a pena”, afirma Levy.

Alguns investidores acreditam que a valorização em meio a uma alta nos novos casos de Covid-19, enquanto a economia não se recuperou, é exagerada, especialmente nas ações de Tesla, que subiu 737,69%, e Mercado Livre, com alta 193,39%.

“A relação preço-lucro das americanas está em patamares elevadíssimos, semelhante apenas a épocas pré-crise”, diz o planejador.

Além da rentabilidade nos últimos meses, a reputação de empresas como Microsoft e Amazon também atrai o brasileiro.

O número de investidores na modalidade cresceu 162,64% de outubro a dezembro, chegando a 128,8 mil. Destes, 127,8 mil são pessoas físicas.

“As pessoas conhecem essas empresas. São as maiores empresas do mundo, nomes conhecidos", diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos e professor da FIA (Fundação Instituto de Administração).

Mesmo conhecidas, suas ações têm risco. A variação está sujeita aos movimentos do mercado, que podem não estar relacionados ao papel e ao setor.

“Ação pode chacoalhar bastante, mas BDR é reserva em dólar também”, diz Milane.

"O risco deste papel é absurdamente maior do que de uma ação brasileira. Se ações lá [nos EUA] caírem e o real ficar mais forte, o sujeito perde duas vezes", afirma Levy, da Planejar.

A expectativa do mercado é que o dólar caia em relação ao real ao longo de 2021, com alta na Selic. Segundo o boletim Focus, a taxa básica de juros, hoje em 2%, deve terminar o ano a 3,5%.

Com a alta nos juros, dólares poderiam entrar no país por meio do carry trade, prática de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior.

Com juro a 3,5% no Brasil e próximo de zero nos Estados Unidos e na Europa, o mercado brasileiro fica mais atrativo para estrangeiros.

A expectativa de valorização do real em relação ao dólar, porém, não é alta. O Itaú projeta o dólar a R$ 4,75 ao fim de 2021 e de 2022.

"Precisaria acontecer um milagre com o contexto que temos hoje para o dólar ir para R$ 4", afirma Milane, em referência ao risco fiscal brasileiro.

Com a dívida pública em torno de 90% do PIB (Produto Interno Bruto), o Brasil se torna mais arriscado para investimentos. A perspectiva é que os gastos aumentem, conforme a pandemia se prolonga, aumentando o endividamento brasileiro.

Pelo contexto desfavorável ao real no momento, o economista vê BDR como um bom investimento.
“Vale o risco retorno.”

O indicado por especialistas, para qualquer investimento, é diversificar, de modo a reduzir os riscos, e, antes de tudo, estudar tanto a natureza do ativo como o ativo em questão.

No caso das BDRs, é preciso estar atento às empresas estrangeiras e seus setores.

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