Incerteza política afasta investidor, diz presidente do Banrisul

'Não dá para uma hora ter uma política liberal em relação aos combustíveis e depois não ter mais', diz Claudio Coutinho

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São Paulo

As incertezas no cenário político e econômico brasileiro podem diminuir a confiança do investidor e afastar o capital estrangeiro do país, afirmou o presidente do Banrisul, Claudio Coutinho.

O movimento, segundo ele, passa pelo questionamento da política liberal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e pela anulação, cinco anos depois, das condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Claudio Coutinho, presidente do Banrisul
Claudio Coutinho, presidente do Banrisul - Patricia Monteiro - 29.jun.2017/Folhapress

“Não dá para uma hora ter uma política liberal em relação aos preços de combustíveis e depois não ter mais, por exemplo. Mudanças bruscas não favorecem a confiança do investidor, e essa é a base do funcionamento da economia. Uma coisa é risco, outra coisa é incerteza”, afirmou à Folha, dizendo que o lento ritmo dos programas de vacinação também tem impacto na recuperação do país.

Para o executivo, apesar de as discussões sobre a privatização do Banrisul já terem sido abafadas pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), o tema ainda deveria ser ponderado, considerando as dificuldades que o banco enfrenta na gestão por ser público.

“O Banrisul tem se saído muito bem em termos de retorno, mas a competição a longo prazo é muito grande e bancos estatais, que têm diversas amarras legais, terão cada vez mais dificuldade”, afirmou.

Como foi o ano de 2020 para o Banrisul? Logo no início da pandemia, entre março e abril, tomamos diversas medidas para prevenir grandes impactos da crise, reforçando os canais digitais e migrando algumas operações para o teleatendimento.

Por outro lado, também nos preocupamos com a saúde financeira do banco. Repactuamos R$ 744 milhões em dívidas, no total, com prazos de três ou seis esses. Até agora, as operações repactuadas já estão há algum tempo em fase de pagamento e a inadimplência da carteira está muito baixa. Em dezembro a inadimplência estava em 2,59% e nós já tínhamos recebido R$ 273 milhões.

Já do ponto de vista econômico, o primeiro, o segundo e o terceiro trimestres bem contaminados pela pandemia e foi só no segundo semestre que começamos a reativar nossos planos e a retomar níveis maiores. O crédito cresceu 3,9% no ano, sendo um avanço de 7% só no último trimestre, por exemplo.

Qual é a expectativa para 2021? Estávamos muito otimistas na entrada deste ano, mas infelizmente estamos nos frustrando e ficando cada vez mais preocupados.

Em setembro e outubro de 2020, nós olhávamos para frente e achávamos que em janeiro ou fevereiro já estaríamos em uma fase acelerada de vacinação. Agora, estamos em março e muito longe desse ritmo estar acelerado.

É inacreditável o quão lento está sendo o ritmo que estamos vivendo e isso está contaminando seriamente a economia. Sem falar no drama humano que está por trás dessa doença.

Como isso impacta na confiança dos investidores? Os investidores querem o cenário mais calmo e confortável possível, no qual você consiga enxergar e ouvir o que está acontecendo sem nebulosidade.

Ninguém gosta de ambientes agitados ou barulhentos demais e a surpresa, para o investidor, é algo desfavorável porque gera incerteza.

Não dá para uma hora ter uma política liberal em relação aos preços de combustíveis e depois não ter mais, por exemplo. Mudanças bruscas não favorecem a confiança do investidor e essa é a base do funcionamento da economia.

Uma coisa é risco, outra coisa é incerteza.

A anulação das condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua possível disputa à presidência em 2022 também são incertezas para o investidor? O que mais afetou a economia nos últimos tempos não foi a questão se o ex-presidente Lula é candidato [à presidência em 2022] ou não. O Lula foi presidente duas vezes e a economia andou bem, não há recall negativo dos investidores. A questão é voltada para a incerteza.

Causou muito mais espanto o mesmo juiz ter outra decisão em cima do mesmo projeto judicial depois de cinco anos. Foram vários eventos, diversas apelações em cima do mesmo tema.

Essa incerteza sobre como a justiça vai reagir em determinadas questões é preocupante. Não me preocupa quem será o presidente do Brasil ou do clube do futebol que eu gosto. O que me preocupa é se há estabilidade institucional no Brasil para quem investe no país.

É a imprevisibilidade que é o problema, não o Lula.

Como você enxerga a atual situação financeira do Rio Grande do Sul? O governo estadual tem uma fragilidade financeira, mas desde o início desse ano colocou a folha [de pagamentos] em dia. Foi um trabalho importante da equipe do Eduardo Leite [governador gaúcho], mediante diversas reformas que foram feitas e possibilitaram uma gestão mais eficiente do fluxo de caixa do Estado.

Dito isso, também é importante ressaltar que o governo do Rio Grande do Sul tem 40% da economia calcada no agronegócio, e quem está no agronegócio está no paraíso na terra. O Brasil, como é um país exportador muito forte de commodities, principalmente as agrícolas, acaba se beneficiando. Esse setor é ultracompetente em termos de tecnologia, infraestrutura e armazenagem.

Então temos um olhar bastante positivo para o Rio Grande do Sul. Alguns segmentos, pela força da pandemia, não estão funcionando bem, como o turismo e os setores de serviços, como bares, restaurantes e cultura. Mas o Estado tem a economia privada pujante, assim como a indústria mecânica na serra Gaúcha.

No geral, estamos animados para a economia gaúcha e preparados para financiar tanto a indústria quanto o agronegócio.

Recentemente o governador Eduardo Leite (PSDB) afirmou que manterá o Banrisul como banco público. Qual a sua opinião sobre a privatização da instituição? A privatização do Banrisul depende da decisão do governo, que é acionista majoritário do banco. E não só dele, mas da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul também, porque a constituição do estado manda que é preciso fazer um plebiscito para o povo gaúcho decidir se pode ou não privatizar.

O Banrisul tem se saído muito bem em termos de retorno, mas a competição a longo prazo é muito grande e bancos estatais, que têm diversas amarras legais, terão cada vez mais dificuldade nisso e acho que a assembleia deveria meditar sobre o tema.

Os analistas já dizem que os grandes bancos privados não conseguem competir com fintechs em diversos aspectos e isso é agravado quando colocado em relação a um banco público. São diversas limitações e salvaguardas que o banco público tem que ter mas que, de certa forma, dificultam a gestão, tornando-a mais lenta.

O banco deve retomar o IPO (abertura de capital) do Banrisul Cartões? A então administração do banco desistiu do IPO da área de cartões em novembro de 2018 e não fizeram a transação. Agora, o que fizemos recentemente foi contratar o JPMorgan no início de 2020 para dar assessoria sobre o tema.

O mercado de maquininhas e adquirência está muito quente e disputado, com diversos entrantes e uma grande guerra de preços e share [participação].

Assim, nos preocupamos de não estar olhando quais os nossos riscos e qual rumo deveríamos tomar em relação às nossas opções estratégicas. A assessoria do JP continua em vigor até agora, mas ainda não tomamos nenhuma decisão em relação a abrir capital ou não. Além disso, de certa forma, a pandemia também diminuiu o nosso tempo disponível para o tema, que ficou meio renegado.

Vamos voltar a acompanhar mais de perto, mas ainda não tem nada definido.

Quais as apostas do banco para 2021? Temos um grande foco no agronegócio, além de uma meta de crescimento de crescer entre 10% e 15% no crédito para pessoas físicas, especialmente em consignado.

Continuamos com uma grande aposta na digitalização dos nossos processos e ampliar o leque do que é possível fazer pelo aplicativo.

Também dedicamos bastante foco para a linha de sustentabilidade da nossa carteira, na qual financiamos placas solares para a geração de energia. O tema é de tamanha importância que, além disso, decidimos criar uma gerência de sustentabilidade no ano passado, com o objetivo de zerar a nossa pegada de carbono e eliminar qualquer energia que não fosse limpa.

Não temos um prazo para concluir essa meta ainda, mas é algo que trabalharemos muito forte ao longo deste ano.

Há alguma previsão de aumento das reservas contra calotes ou da inadimplência? No ano passado já fizemos uma provisão importante para fazer frente a uma inadimplência que, aliás, não veio. Estamos bem tranquilos, inclusive porque o estado também, aos poucos, tem melhorado sua situação financeira.

Podemos voltar a medida de renegociação de dívidas, mas tudo depende da situação econômica. Estamos atentos e monitorando a inadimplência mas, até agora, não houve nenhuma mudança. Se percebermos que essa medida será necessária, realmente retomaremos esse plano.

Até o momento, nós não esperamos que haja um repique de inadimplência mas, até aí, também não esperávamos uma segunda onda [do coronavírus] tão grande e negativa.

Uma coisa é absorver a primeira grande onda e seguir em frente; outra é encarar uma segunda onda ainda maior. Caso sigamos por esse caminho, acho que realmente algum tipo de medida deverá ser tomada pelo governo, talvez uma segunda versão do Pronampe [Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte].

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