Descrição de chapéu Coronavírus

Leite 'descobre' radicalismo de Bolsonaro após ser lançado ao Planalto e agora vira alvo de empresários

Governador gaúcho do PSDB já elogiou presidente na pandemia, mas agora tenta descolar imagem em meio a protestos contra medidas restritivas

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Porto Alegre

No último dia 14, um domingo, enquanto uma ruidosa carreata passava em frente ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, com faixas de “Fora Leite” e “Lockdown não”, o governador Eduardo Leite (PSDB) despachava na ala residencial do prédio em Porto Alegre e nem ouviu o buzinaço do final da manhã.

Desde que foi informalmente lançado pré-candidato do PSDB à Presidência da República, em fevereiro deste ano, Leite, 35, enfrenta uma campanha de pressão de entidades empresariais pela retomada da economia.

O governo do estado impôs restrições sanitárias em 8 de março para tentar frear a disseminação do coronavírus, que já matou mais de 15.800 pessoas no Rio Grande do Sul.

Ao mesmo tempo, Leite passou a se deslocar gradativamente do espectro político do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em 2018, o tucano apoiou Bolsonaro explicitamente no segundo turno da eleição presidencial, mas agora critica a condução do presidente no enfrentamento à Covid-19.

No Rio Grande do Sul, o ex-prefeito de Pelotas faz um governo até agora discreto. Colocou os salários do funcionalismo em dia, depois de cinco anos de parcelamentos, comprou briga com sindicatos, levou privatizações adiante e, na pandemia, adotou medidas duras apenas quando os índices de contaminação e mortes começaram a estourar, em novembro do ano passado.

Há três semanas, o governador apertou o cerco ao vírus ao estender o protocolo de bandeira preta —com classificação de risco altíssimo para contaminação— a todos os 497 municípios gaúchos.

Também cortou a possibilidade de os prefeitos terem autonomia sobre o comércio ao barrar o sistema de cogestão, que permite aos gestores adotar medidas restritivas de um nível inferior ao decretado para a sua região.

Leite também insistiu que as escolas de educação infantil e os dois primeiros anos do ensino fundamental tivessem aulas presenciais, mas acabou derrotado na Justiça.

O recurso que enviou ao STF (Supremo Tribunal Federal) para liberar os colégios, medida considerada essencial para manter alguma normalidade econômica, foi derrubado.

A carreata do domingo passado, assim como manifestações anteriores, foi uma reação à mudança de discurso do governador.

Bolsonaristas em sua maioria, os organizadores das manifestações rotulam Leite de “ditador” e de “comunista” ao contrariar a orientação do presidente, de apostar em tratamento precoce e rejeitar o fechamento das atividades econômicas.

Não foi sempre assim, porém. Eleito contra o então governador José Ivo Sartori (MDB) na onda do bolsonarismo, Leite chegou a flertar com o presidente e a exaltar sua liderança no processo de condução da pandemia.

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em julho do ano passado, o gaúcho elogiou a conduta de Bolsonaro e disse que não se arrependia de ter votado nele.

Alguns meses mais tarde, quando ambos se encontraram em Porto Alegre, houve mais elogios.

"A partir da conversa que tivemos [ele e Bolsonaro], renovo a minha confiança na liderança do governo federal, através do Ministério da Saúde, para coordenar a vacinação de todos os brasileiros, o que será fundamental para que retomemos a nossa economia”, disse Leite na cerimônia de inauguração da nova ponte do Guaíba, em dezembro.

Mas uma guinada ocorreu no início do mês passado, com a simples menção a seu nome pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) como presidenciável do partido, ao lado do governador de São Paulo, João Doria.

Poucos dias depois, em entrevista à Folha, já adotou discurso crítico. “A postura do presidente da República é muito clara, sempre foi de ataques, de agressões, de radicalismo, que fazem se desperdiçar uma energia que deveria estar aplicada em fazer prosperar agendas que poderiam transformar o país.”

No ato de apoio de deputados federais tucanos em Porto Alegre, em 11 de fevereiro, disparou nova sinalização de independência ao aceitar a missão de viajar pelo país em nome do PSDB.

"Diferentemente do governador Doria, eu não fiz campanha casada com Bolsonaro, não manifestei apoio ao candidato. Em nenhum momento misturei o meu sobrenome ao dele”, afirmou Leite, referindo-se ao voto "BolsoDoria" estimulado pelo paulista em 2018.

Na última segunda-feira (15), Leite subiu o tom. Durante uma sessão da comissão temporária do Senado que discute medidas de enfrentamento à Covid-19, acusou Bolsonaro de sabotagem.

“O que eu vi depois de três trocas de ministros é que o problema está nas orientações que ele [Bolsonaro] dá. Não há ministro que consiga trabalhar com a sabotagem feita pelo próprio presidente da República às medidas necessárias para o combate ao coronavírus."

Leite voltou à carga dois dias depois, em entrevista a uma emissora de TV gaúcha, ao afirmar que "a mentalidade do presidente da República infelizmente é doentia”. “Lockdown, restrições são [para Bolsonaro] conspiração de governadores por conta das eleições de 2022”, acrescentou o tucano.

A assessoria de Leite afirma que ele está 100% focado no combate à pandemia de Covid-19 no Rio Grande do Sul e que o debate sobre a sucessão presidencial é precipitado. “Não tem nenhuma viagem prevista e o governador tem passado os finais de semana trabalhando”, afirma.

A estratégia do governador, entretanto, inclui vender uma imagem de moderado, perfil que poderá estar em alta em 2022 em contraponto às possíveis candidaturas de Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Vou continuar insistindo na ponderação e na moderação, esse é o meu jeito”, disse Leite na mesma entrevista à Folha, em fevereiro.

Mas a pressão econômica derivada das restrições impostas pela pandemia é um desafio inesperado. O governador gaúcho gostaria de estender as medidas de contenção no estado pelo menos até a primeira semana de abril, mas teve de retomar o modelo de cogestão com os prefeitos que, na prática, pode abrandar as regras de isolamento.

“As medidas restritivas são muito severas e autoritárias. A gente sabe que a Covid existe, mas queremos trabalhar seguindo os protocolos de segurança. Não concordamos com o fechamento”, disse o comerciante Charles da Luz, um dos organizadores das carreatas contra Leite.

A vereadora de Porto Alegre Fernanda Barth (PRTB), outra organizadora dos protestos e que também se elegeu na onda bolsonarista, classifica como lockdown as medidas de restrição de Leite —mesmo que tecnicamente a definição esteja errada.

"Nossas liberdades não são negociáveis. O governador terá que adotar outro tipo de medida, pois aqui ninguém o aguenta mais."

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