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PT discute quem seria Posto Ipiranga de Lula para 2022

Partido avalia nomes de referência na economia para reatar com o empresariado

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São Paulo

Em julho de 2018, quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) resolveu definir qual papel seu guru econômico e atual ministro da Economia, Paulo Guedes, teria na campanha, ele usou o termo “Posto Ipiranga”. Guedes assumiu ali a posição de interlocutor com o setor empresarial e financeiro.

O grupo no entorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que voltou ao páreo eleitoral depois de recuperar seus direitos políticos, tem uma preocupação semelhante agora —encontrar um porta-voz que possa ajudar o partido a se reaproximar da classe empresarial e, eventualmente, montar um plano econômico.

Quem fez esse papel na primeira eleição vencida por Lula, em 2002, foi o ex-ministro Antonio Palocci, que comandou a Fazenda entre 2003 e 2006, durante o primeiro mandato do petista. Palocci tinha livre acesso aos principais empresários do país e fazia a ponte do partido com a Faria Lima.

A gestão da economia no período é bem avaliada, inclusive por lideranças do setor privado que hoje se posicionam no campo oposto ao PT.

Esse elo, no entanto, foi rompido após o ex-ministro ter assinado um acordo de delação premiada com a Polícia Federal no âmbito da Operação Lava Jato.

Membros da cúpula do PT —que falaram com a reportagem com a condição de que seus nomes fossem preservados— contam que não é mais necessário apresentar Lula aos empresários, mas vislumbram que vão encontrar resistências para recuperar o diálogo em vários setores.

O desafio agora é fazer a reaproximação, já que tanto o ex-presidente quanto seu partido se afastaram da classe empresarial após as primeiras denúncias de corrupção contra Lula e, principalmente, após a prisão do petista em abril de 2018.

Alguns dos nomes que vêm sendo debatidos pelo partido para essa nova missão são antigos integrantes da equipe econômica nos anos em que o governo foi bem avaliado. Nessa lista de bem cotados estão Bernard Appy, Marcos Lisboa, Murilo Portugal e Henrique Meirelles, por exemplo.

Appy é diretor do Centro de Cidadania Fiscal, que discute a simplificação do sistema tributário brasileiro e o aprimoramento do modelo de gestão fiscal do país. Ele, que de 2003 a 2009 foi secretário-executivo, de Política Econômica e Extraordinário de Reformas Econômico-Fiscais da Fazenda, afirma que não foi procurado por ninguém do PT.

“Não recebi nenhum convite nem nenhuma sondagem a esse respeito. Meu trabalho atual é de ajuda na construção de políticas públicas e não tem vinculação partidária. Nosso objetivo é apoiar a construção de boas práticas, qualquer que seja o governo, e certamente estaremos à disposição para falar com qualquer candidato que tenha interesse em nosso trabalho”, disse ele.

Marcos Lisboa atual presidente do Insper, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda de 2003 a 2005. O nome de Lisboa foi ventilado como uma opção do PT no final do mês passado, mas ele negou que tenha sido procurado pelo partido em sua coluna na Folha.

“Não estou nas redes sociais, mas amigos me relatam a repercussão da nota falsa. À esquerda, afirmam que sou ultraliberal. À direita, que sou comunista”, escreveu ele.

Não é a primeira vez que o nome de Lisboa é lembrado para voltar ao governo. Em 2018, ele foi cotado como escolha de Fernando Haddad para o Ministério da Fazenda caso o petista saísse vitorioso. Lisboa também foi listado por Guedes entre os economistas liberais que convidaria para discutir propostas.

Murilo Portugal, por sua vez, esteve na Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda de 2005 a 2006 e foi presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) por nove anos. Portugal também afirmou à reportagem que não foi procurado por ninguém para tratar sobre o assunto.

O atual secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles, também está no radar petista. Meirelles foi presidente do Banco Central durante todo o governo Lula, de 2003 até 2010, e ministro da Fazenda do governo Michel Temer —vice de Dilma Rousseff, que a substituiu após o impeachment, em 2016.

Os petistas que conversaram com a reportagem afirmam que Lula gosta muito de Meirelles, embora o fato de ser o que chamam de “liberal demais” faça com que o seu nome seja mais cotado para assumir o Banco Central do que a Fazenda em um eventual governo petista.

Lula também mantém conversas frequentes com o empresário Walfrido Mares Guia, que foi ministro do Turismo e das Relações Institucionais durante o governo do ex-presidente. Seu nome, no entanto, é menos citado para a área econômica entre o restante da cúpula petistas. Um cacique do partido afirmou que ele poderia assumir uma pasta voltada para Indústria e Comércio, por exemplo, mas não a Fazenda.

É a mesma situação de Nelson Barbosa, colunista da Folha, que foi secretário de Política Econômica e de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda no governo Lula, entre 2007 e 2010, e ministro do Planejamento e da Fazenda nos governos Dilma.

Segundo petistas, Lula também mantém diálogos frequentes com Barbosa, mas pesa contra ele o fato de ter participado do governo Dilma, muito rejeitado por empresários. Por isso, ele seria mais cotado para assumir a pasta de Infraestrutura.

Um dos favoritos entre a cúpula do PT para assumir um futuro ministério da Fazenda é Luiz Carlos Trabuco, ex-presidente do Bradesco e atualmente presidente do conselho de administração do banco.

Lula chegou a sugerir o nome de Trabuco para compor o ministério de Dilma, no final do primeiro mandato da ex-presidente. Na época, Trabuco afirmou se sentir “honrado” com a oferta, mas alegou compromissos à frente do banco para não aceitar o convite.

Agora, avaliam os petistas, o cenário mudou. Como presidente do conselho de administração e em um governo Lula, Trabuco poderia estar mais propenso a aceitar. De qualquer forma, é consenso entre todos que o nome dele só seria sondado em caso de uma vitória do petista.

Quem também é visto como um possível construtor de novas pontes com os empresários é Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas e filho de José Alencar (1931-2011), vice-presidente de Lula durante os dois mandatos do petista. Ele é considerado o “vice dos sonhos” pela cúpula petista.

Gomes da Silva, porém, descarta a possibilidade. “Até entendo a lembrança do meu nome por conta do meu pai. Mas sou candidato a presidente da chapa única para as eleições da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo]”, disse.

Cúpula petista debate nomes; veja quais

Henrique Meirelles
Secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo; foi ministro da Fazenda de Michel Temer e presidente do BC de Lula

Marcos Lisboa
Presidente do insper; foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005)

Murilo Portugal
Presidente da Febraban por nove anos; ocupou a secretaria executiva do ministério da Fazenda entre 2005 e 2006

Nelson Barbosa
Professor da FGV e da UnB; participou da equipe econômica dos governos Lula e Dilma, quando foi ministro da Fazenda

Walfrido Mares Guia
Empresário fundador do grupo Pitagóras; foi ministro do Turismo e das Relações Institucionais no governo Lula

Bernard Appy
Diretor do centro de cidadania fiscal; foi filiado ao PT e participou dos governos Lula (2003-2009)

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