Famílias com fome no RN ganham doações e comemoram mesa farta para o Natal

Moradores chegaram a comer lagartos; alimentos foram enviados após reportagem da Folha

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Renata Moura
Natal

"Em nome de Jesus! A gente vai passar o Natal e o Ano Novo mais feliz do mundo. O nosso prato cheio, o armário cheinho e a geladeira também. A gente não tinha nada disso e agora tem."

Empunhando o celular em Senador Elói de Souza, município do Rio Grande do Norte em estado de calamidade pública pela seca, a agricultora Sebastiana Nunes descreve, por mensagem de áudio, como viu a escassez se transformar em dezenas de quilos de alimentos na cozinha da própria casa e nas vizinhas.

Reportagem da Folha mostrou que moradores da região, que sofre com o avanço da seca e da crise provocada pela pandemia, estavam famintos. Muitos chegaram a caçar teiú –uma espécie de lagarto– e camaleões, além de pebas (um tatu) e pássaros para enganar a fome.

Em algumas áreas, os répteis ainda são opção em refeições como o almoço.

Após a publicação da reportagem, moradores de diversas partes do Brasil —e até do Reino Unido— procuraram os moradores da região para doações.

Sebastiana conta que os pacotes com comida começaram a chegar há duas semanas e, pelas contas dela, deverão durar até janeiro.

"Tem arroz, feijão, macarrão, açúcar, café, farinha e bolacha no armário. Na geladeira, ovos, mortadela, salsicha e frango".

O marido e também agricultor, Adailton Oliveira, repete "amém" junto a ela para confirmar a fartura.

Dias antes, ele havia ajudado a tirar o couro de uma vaca faminta que acabou sacrificada pelo dono e repartida como opção de alimento às famílias.

A Adailton e Sebastiana couberam uma pata dianteira, única carne em casa durante 20 dias. "Mas agora a gente não precisa mais disso. A cesta básica é suficiente e quando os animais estão morrendo de fraqueza, a gente pode deixar eles irem", diz o agricultor.

A presidente da associação dos moradores do assentamento onde vivem, Áurea Silva, conta que há doações chegando em alimentos e dinheiro, "transformado em mistura para as famílias ou em comida para os animais".

A rede de apoio recebe fotos, vídeos e outros comprovantes das entregas. Doações também contribuem para a instalação de um poço que fornecerá água para os animais.

Adailton aparece em vídeos comemorando a obra, durante teste com uma mangueira. "Ó o cidadão da reportagem tomando banho". Ele sorri.

Em outra gravação, molha as mãos e diz: "Com uma água dessa aí, mandada por Jesus Cristo, não tem gado nenhum que morra de sede".

É justamente na água que o agricultor vê solução para tocar a vida. "O nosso objetivo é chuva, para a gente plantar e colher, ou, numa seca dessas, poço furado para dar água aos animais. Porque água é sangue e sangue é vida. Se não tiver água, nós não somos nada".

Áurea, da associação dos moradores, reforça que "a esperança é o inverno". "Porque chovendo o povo tem como trabalhar, tem como plantar e se sustentar".

Metade do Rio Grande do Norte enfrenta seca grave. O número de pessoas em extrema pobreza alcançou, em 2021, o maior patamar em uma década.

Com aumento do desemprego, alta de preços e fim do auxílio emergencial do governo federal somados, mais gente, como em vários estados do Brasil, acabou empurrada para "comer o que tem, quando tem".

Em um cenário marcado por geladeiras e armários vazios, cestas básicas ou alternativas impensáveis para muitos entraram nas panelas de parte das famílias no estado nordestino mais afetado pela seca.

Dados e declarações sobre o extremo a que chegaram os moradores de Senador Elói de Souza repecutiram em programas de rádio e TV, artigos de opinião, tuítes e comentários de Instagram. Nem todos gostaram, e chegaram a acusar o casal de difamar o município.

"Uma pessoa falou: ‘Pelo amor de Deus, não saiam nem de casa porque a cidade está contra vocês, pelo que vocês falaram. Estão dizendo que vocês acabaram com Elói de Souza'", relembra Adailton. "Fiquei assustado."

"Porque não falei nada de errado. Não citei o nome de ninguém. Só falei a situação que a gente vive e se eu pudesse faria isso pelo mundo inteiro, porque o agricultor tem que ser visto, porque não tem condição de se manter, principalmente nesse período de inverno fraco, de tantas perdas", conta.

Visitas e ligações para saber a situação do assentamento viraram rotina. Chegavam com perguntas sobre o que estão comendo. "Um negócio impactante", diz Sebastiana. "Um momento difícil porque alguns não entenderam e fizeram críticas. Mas graças a Deus através dessa situação o assentamento e outras áreas receberam muitas cestas básicas."

Áurea, da associação dos moradores, conta que adversários políticos e outros "se aproveitaram da situação" gerando críticas aos assentados. "Saíram dizendo que as famílias tinham envergonhado o município. Mas outras pessoas aplaudiram eles terem mostrado a verdade nua e crua."

Enquanto isso, Sebastiana se prepara para fazer o primeiro fogo a lenha do dia –rotina para cozinhar, na falta de recursos para um botijão de gás.

Ela planeja a ceia que fará no Natal. "Vai ser feijão, frango, arroz e suco. Muito especial, para a gente que não ia ter tudo isso".

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