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Repórter conta como é pagar com bitcoin em El Salvador, onde uso é oficial

Odisseia para se informar mostra decadência de país centro-americano que cede ao autoritarismo

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San Salvador

Um país em que tudo, de bugiganga em camelô a imposto de renda, pode ser pago em bitcoin. Esse não é El Salvador.

No dia 7 de setembro de 2021, o país entrou na vanguarda do delírio ao transformar o bitcoin em moeda de curso legal, ao lado do dólar. Precisei de apenas um dia na capital, San Salvador, para encontrar comerciantes que recusam o criptoativo.

"Todo agente econômico deverá aceitar bitcoin como forma de pagamento", diz a lei, que passou no Congresso governista a toque de caixa. A proposta foi anunciada pelo presidente, Nayib Bukele, em uma conferência sobre a moeda, na Flórida, no dia 5 de junho do ano passado. Quatro dias depois, estava aprovada. Três meses depois, em vigor.

Na feira de artesanatos da cidade, os mais de 80% de aprovação do presidente, segundo pesquisa do jornal local La Prensa, aparecem em chaveiros, canecas e cadernos estampados com o rosto de Bukele. Ali, durante minha visita à América Central, em julho, recebi algumas explicações para a adoção capenga da criptomoeda.

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Chaveiros em centro de artesanato do país estampam Jesus, Monsenhor Romero e Nayib Bukele - Daniela Arcanjo/Folhapress

Baixa procura, me disse uma vendedora. Dificuldade em usar a carteira eletrônica do país, apontou uma comerciante idosa.

Dados da União Internacional de Telecomunicações mostram que a cobertura 4G no território atinge 68% da população, 17 pontos menos que a média global. Esse empecilho foi repetidamente alardeado por especialistas na época da aprovação do projeto.

Um componente-chave para o baixo entusiasmo com o bitcoin, porém, me foi soprado por um taxista. Investidores estão com a carteira parada desde que os ativos digitais entraram em colapso, no final do ano passado. Não há por que gastar a moeda e concretizar o prejuízo.

Em novembro, quando criptomoedas estavam no seu auge por causa das políticas monetárias expansionistas dos bancos centrais, um bitcoin bateu os US$ 64,4 mil (R$ 349 mil, em cotação da época). Em junho deste ano, caiu 70%, para US$ 19 mil (R$ 109,5 mil).

Independentemente do empenho dos entusiastas, o bitcoin é tratado como ativo, não como moeda. E um dos mais arriscados —destinado, portanto, a quem tem gordura para queimar. Esse não é o caso de quase 1,7 milhão de salvadorenhos (mais de um quarto da população) que vivia abaixo da linha da pobreza em 2020, segundo dados do Banco Mundial.

Já o governo, que decidiu adotar o bitcoin como moeda oficial, deveria contar com quedas bruscas e volatilidade.

Desde que iniciou a sua aventura, Bukele anuncia no Twitter —onde já demitiu ministros— a compra de bitcoins pelo Estado. Não há transparência. Segundo o La Prensa, foram 2.381 bitcoins até agora, um investimento de US$ 104,5 milhões (R$ 527,6 milhões). Perguntei à Presidência quantos bitcoins El Salvador tem, mas não houve resposta.

A moeda digital é mais um elemento do teatro que Bukele arma para ser o autoritário mais cool do mundo. O político entrou na onda populista, aproveitando-se do desgaste acumulado pelos dois principais partidos do país desde o acordo de paz de 1992, que encerrou uma guerra civil de 13 anos.​

Bitcoin à parte, enfrentei uma odisseia para comprar livros sobre um dos temas fundamentais do país: as pandilhas, grupos criminosos que dominam parte do território salvadorenho.

Na livraria da Universidade Centroamericana —uma das melhores do país, dizem—, perguntei por títulos de Óscar Martínez, chefe de redação do jornal El Faro e autor da reportagem que revelou um acordo entre o governo Bukele e uma pandilha. Não tinha.

O governo instituiu pena de até 15 anos de prisão para quem divulgar mensagens do crime organizado, o que impede o exercício do jornalismo. Precisei recorrer a um colega, que me informou onde achar a publicação.

No caminho para a livraria, outdoors pediam "ajuda para seguir capturando terroristas". É só ligar 123. Desde uma onda de violência que matou 87 pessoas em 72 horas, em março, o país está em estado de exceção.

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Outdoor em San Salvador pede ajuda para "seguir capturando terroristas" - Daniela Arcanjo/Folhapress

Não há dados oficiais sobre o número de encarcerados no período. No fim de maio, o La Prensa estimou 74.547 presos ao todo, 1,7% da população adulta. Até o final de junho, a organização de direitos humanos Cristosal contabilizou 54 pessoas mortas sob custódia do Estado em centros penais ou hospitais.

Nem mesmo o bitcoin, com suas fantasias de liberdade e progresso, pode competir com uma realidade dessas.

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