Com eleição de Trump, Califórnia aprofunda guinada à esquerda

Candidatos do Estado ao Congresso deverão ser mais radicais que líderes atuais

Contramanifestantes protestam em parque de San Diego contra direitistas que fazia um ato pró-Donald Trump e contra entrada de imigrantes
Contramanifestantes protestam em parque de San Diego contra direitistas que fazia um ato pró-Donald Trump e contra entrada de imigrantes - Sandy Huffaker - 3.fev.2018/AFP
Scott Wilson
Sacramento (Califórnia)

Quem pensa que a política na Califórnia fica na margem de extrema esquerda do espectro nacional dos EUA que se prepare. A próxima temporada eleitoral, que já está a pleno vapor no Estado, vai destacar uma geração de democratas mais jovens que, mais que os políticos democratas que vão deixar seus cargos, são liberais e estão pessoalmente decididos a enfrentar a Washington do presidente Donald  Trump.

Aqui, no Estado que se descreve como o Estado da resistência, a discussão política está sendo empurrada mais para a esquerda, sem sinal de qualquer renascimento republicano para servir de freio às ambições para os gastos públicos e as políticas sociais.

Mesmo alguns republicanos estão preocupados com a saída do governador democrata Jerry Brown, que, depois de herdar sete anos atrás um Estado em recessão profunda, governa com cautela fiscal.

É provável que a disputa pela sua sucessão e as corridas por vagas no Senado federal e estadual envolvam exclusivamente democratas. Os dois primeiros colocados nas primárias competem na eleição geral do Estado independentemente de partido político, de modo que deve haver várias disputas entre as alas de esquerda e ainda mais de esquerda do Partido Democrata no Estado mais populoso do país. São corridas que podem apontar para o futuro do partido.

Num ano de eleições não presidenciais, a Califórnia servirá de laboratório de campanha em relação a muitas questões de interesse nacional, incluindo impostos, imigração, saúde, mudança climática, assédio sexual e disparidades de renda entre população rural e urbana.

Para os democratas nacionais, as campanhas na Califórnia servirão de testes das posições mais úteis a assumir em questões importantes para a base do partido. Para os republicanos nacionais, elas vão funcionar como prévia da popularidade dessas posições.

"Vamos falar na maior parte do tempo de criminalidade de democratas contra democratas", comentou Bill  Whalen, pesquisador do Instituto Hoover, da Universidade  Stanford. "Outra coisa certa é que o próximo governo será mais progressista que Jerry Brown."

Em um Estado onde poucos políticos, ou mesmo nenhum, terão que moderar suas posições para a eleição geral, a receita é simples. "É seguir mais para a esquerda", disse Karen Skelton, consultora democrata na Califórnia.

À ESQUERDA

Isso significa assumir a postura mais liberal em questões como a saúde paga exclusivamente por impostos na Califórnia, uma iniciativa cara que não chegou a ser aprovada pela legislatura no ano passado. A campanha nesse sentido é uma reação à incerteza sobre as revisões da saúde feitas em Washington, mas estima-se que seu custo seria o dobro do orçamento anual do Estado.

Os candidatos serão obrigados a defender o status de "Estado-santuário" da Califórnia na questão da imigração e terão que impulsionar os investimentos nos setores de energia solar e automóveis elétricos, para alcançar metas ambientais estritas. Também terão que lidar com um escândalo de assédio sexual que, na descrição feita pelo consultor democrata Bill  Carrick, "cobre como uma nuvem negra" o Capitólio estadual, onde dois parlamentares democratas renunciaram e outro foi suspenso.

E há Trump, que perdeu no Estado por uma margem de dois a um e ainda não o visitou desde que chegou à Presidência. Através de grupos de discussão com cidadãos, consultores democratas descobriram que as políticas de Trump ocupam a atenção dos eleitores em um nível que está tirando a atenção deles das corridas eleitorais estaduais.

"Trump está realmente puxando forte no nosso rabo de cavalo", disse Skelton, citando as decisões recentes da administração de abrir a costa do Pacífico para a perfuração petrolífera marítima, de ameaçar reprimir a maconha legalizada justamente quando as vendas do produto começaram na Califórnia e de condenar a política estadual de imigração.

É ali que está a energia, a atenção das pessoas, disse o vice-governador Gavin Newsom, ex-prefeito de San Francisco que, segundo as pesquisas, lidera as intenções de voto para governador, com muitos eleitores ainda indecisos. Elas não estão com a atenção voltada para as eleições estaduais, compreensivelmente.

Newsom é candidato com uma plataforma à esquerda do popular Jerry Brown, quase 30 anos mais velho que ele, em relação a questões que dividem os democratas, como a saúde para os moradores do Estado paga exclusivamente por impostos.

Ele também quer prestar atenção à ideia crescente entre os eleitores rurais e mais conservadores do Estado de que eles estariam pagando demais por serviços que beneficiam principalmente os moradores da região costeira.

LESTE-OESTE

A divisão entre Leste e Oeste no Estado praticamente tomou o lugar da rivalidade Norte-Sul que moldou a política no Estado no passado.

Em seu discurso final do Estado do Estado, em 25 de janeiro, Jerry Brown disse que a Califórnia está prosperando. Trata-se de uma economia crescente que é a sexta maior do mundo.

Mas, em entrevista dada após o discurso, o governador disse que "isso não significa que todos os californianos estejam prosperando", traçando uma distinção entre a classe consultora costeira e os trabalhadores rurais "cuja cultura de trabalho com as mãos" está desaparecendo.

As cifras de desemprego em dezembro no Estado contam a história: o índice de desemprego no condado de San Francisco foi de 2,2%, mas no condado Imperial, que faz divisa com o México e o Arizona, chegou a quase 18%.

Brown disse que ainda não decidiu quem vai endossar para sua sucessão, apesar de Newsom ser um democrata da área da baía de San Francisco que apoia as políticas do governador, especialmente em relação à mudança climática.

Algumas das iniciativas de Brown sobre transportes, especialmente um projeto de trem de alta velocidade de Los Angeles a San Francisco que já estourou seu orçamento, continuam em dúvida.

"Acho que os moradores dos condados de Tulare ou Modoc não querem ouvir Jerry Brown dizer em que devem votar. Talvez os habitantes de Oakland queiram, não sei", disse o governador. "Vou decidir o que fazer com base nos meus 45 anos de experiência fazendo campanha neste Estado."

Lançar uma ponte entre os eleitorais rurais e da região costeira será difícil para Newsom, que cresceu no distrito de Marina, em San Francisco, criado por sua mãe divorciada.

Ele passava tempo com seu pai no condado rural de Placer, que se estende pelas terras do ouro da Califórnia, de Sacramento ao lago Tahoe. Mas sua política e sua aparência elegante são nitidamente urbanas.

"Muitas vezes dois mundos distintos convivem nas mesmas cidades, não apenas no mesmo Estado", disse Newsom. "Há uma divisão cultural. E não conseguimos nos comunicar de uma maneira que não seja vista como arrogante. Precisamos de um novo vernáculo."

LATINO

Seu principal rival é Anthony  Villaraigosa, ex-prefeito de Los Angeles e presidente da Câmara estadual. Com muitos candidatos latinos na disputa, a previsão é que a participação de eleitores latinos será alta, se bem que ela geralmente fique abaixo das expectativas.

"Estou chamando os ativistas latinos e a população como um todo a sair para votar", disse o presidente da Assembleia, Anthony Rendon, democrata da região de Los Angeles.

Rendon se situa na linha divisória entre o espírito de resistência e a política pragmática, que divide o Partido Democrata estadual. Ele descreve a resistência como "uma maneira interessante de divulgar coisas e vender camisetas".

No ano passado Rendon provocou a ira do poderoso sindicato estadual de enfermeiros quando se negou a submeter a voto um projeto de lei de sistema de saúde pago exclusivamente com impostos, mas para o qual não havia verba prevista. O projeto já havia sido aprovado no Senado.

Recordando o esforço do ano passado como "mais simbólico do que substantivo", ele disse que só tentará repetir a dose se o projeto de lei "virar uma legislação mais séria, coisa que ainda não é".

Falando da energia por trás da ideia de resistência a Trump, Rendon disse que não a ignora. "Mas as eleições aqui no Estado vão girar em torno de realidades econômicas fundamentais, e acho que é a isso que devemos voltar nossa atenção, não a rotular coisas."

REPUBLICANOS

É em cima dessas realidades econômicas —custos habitacionais, regulamentação governamental e o imposto sobre a gasolina— que os republicanos esperam aumentar sua presença em um Estado onde o custo de vida levou o índice de pobreza a ser o mais alto do país.

Brian Dahle, produtor de sementes e líder republicano na Assembleia, representando o canto nordeste da Califórnia, diz que a regulamentação de empresas é restritiva demais, os preços dos combustíveis são altos demais, por conta de um aumento estadual recente do imposto sobre a gasolina, e a habitação é insuficiente.

Falando da economia estadual crescente, Dahle comentou: "As pessoas não prestam atenção quando tudo está funcionando, apenas quando as coisas se quebram. Neste momento estamos chegando perto de tombar."

A última vez em que um republicano venceu em toda a Califórnia foi em 2006, quando Arnold Schwarzenegger foi reeleito governador e o empreendedor de tecnologia Steve Poizner foi eleito comissário de seguros.

Mas o sucesso de Schwarzenegger foi visto como estando mais relacionado à sua fama de astro do cinema que devido à força do Partido Republicano no Estado, que, desde que abraçou uma medida anti-imigração rígida na década de 1990, não recebeu a adesão dos eleitores jovens e latinos, hoje a maior etnia no Estado e fonte de resistência vigorosa.

A administração Trump criticou a lei do santuário estadual, aprovada no ano passado, descrevendo-a como meio de proteger criminosos. Autoridades federais indicaram que operações de apreensão de imigrantes podem começar na Califórnia dentro em breve.

Em resposta, o procurador-geral do Estado, Xavier Becerra —cuja mãe nasceu no México e cujo pai foi criado nesse país—, avisou as empresas da Califórnia que elas podem ser processadas se cooperarem com autoridades federais.

"Donald  Trump quer que voltemos a fazer a América ser grande outra vez, e para mim essa era a época em que meu pai não podia entrar num restaurante porque havia placas dizendo proibida a entrada de cães e mexicanos", disse Becerra, que depois de ser nomeado para seu cargo no ano passado vai procurar se eleger pela primeira vez. "Vejo a questão nesses termos."

O senador estatual Kevin de Léon, democrata da área de Los Angeles que preside o Senado, redigiu a lei de santuário estadual. Ele espera interessar os latinos por sua candidatura à vaga no Senado americano hoje ocupada por Dianne Feinstein, que cumpre seu quinto mandato e é quase três décadas mais velha que ele.

Durante a paralisação recente do governo federal, Feinstein votou contra o fim do apagão porque o acordo proposto para isso não previa a proteção dos imigrantes sem documentos levados aos EUA na infância. Cerca de 220 mil deles vivem na Califórnia. Consultores democratas na Califórnia dizem que o giro à esquerda de Feinstein é inevitável, dada a candidatura de De Léon, inspirada na resistência.

Para os republicanos, a questão é como voltarem a participar da disputa em todo o Estado, algo que nem mesmo os mais otimistas pensam ser possível este ano.

O deputado Chad Mayes, deposto como líder republicano na Assembleia no ano passado depois de ter apoiado uma iniciativa ambiental democrata, lançou um movimento republicano moderado chamado "Califórnia da Nova Via". O grupo está postando anúncios na internet festejando a imigração e a diversidade. Com isso, deixou perplexo um caucus republicano que ainda não decidiu até que ponto vai se associar a Trump.

"Estamos numa espiral mortal", disse Mayes, cristão evangélico que representa um distrito urbano-rural misto ao leste de Los Angeles. "Se você olhar para como estão indo as tendências em termos de registro de eleitores, estamos morrendo nas bilheterias, como disse Arnold Schwarzenegger em um discurso dez anos atrás. E essa ainda é a verdade. A pergunta é: o que faremos?"

Washington Post

Tradução de CLARA ALLAIN

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