No primeiro dia de exercício militar, Rússia e China enviam sinal aos EUA

Putin e Xi criticaram unilateralismo e protecionismo; maior mobilização desde 81 começou

Igor Gielow
São Paulo

No dia em que a Rússia começou os maiores jogos de guerra desde 1981, com um grau inédito de participação da China, os presidentes dos dois países se reuniram para sinalizar sua oposição a políticas do governo de Donald Trump nos EUA.

Tanques russos em coluna no horizonte de um campo durante o exercício Vostok-2018, que começou nesta terça
Tanques russos durante o exercício Vostok-2018, que começou nesta terça - Ministério da Defesa russo/AP

“Numa situação internacional com instabilidade e imprevisibilidades cada vez maiores, a cooperação entre a Rússia e a China é ainda mais importante”, afirmou o chinês Xi Jinping, que disse que os países “se opõe juntamente ao unilateralismo e ao protecionismo comercial”.

Pequim está nos estágios iniciais de uma guerra comercial contra Washington. Para o presidente Vladimir Putin, anfitrião do encontro entre os dois num fórum econômico em Vladivostok (Extremo Oriente russo), “nós temos uma relação de confiança com a China”.

Moscou também está sob pressão americana. Desde 2014, enfrenta ondas sucessivas de sanções econômicas devido à anexação da Crimeia da Ucrânia. Até aqui, a economia russa sobreviveu a uma recessão e está contando com a alta renovada dos preços do petróleo, mas o crédito ao país está asfixiado no Ocidente.

Este ano, em que Putin foi reeleito de forma consagradora em março, sediou uma Copa e teve queda expressiva de sua popularidade devido a uma proposta de reforma da Previdência nos meses seguintes, também viu a agudização do azedume político com as acusações de que o Kremlin tentou matar um ex-espião russo na Inglaterra.

Enquanto seus líderes esgrimiam argumentos contra Trump, os dois países participavam de uma demonstração de força mais efetiva.

Esta terça (11) foi o primeiro dia do exercício militar Vostok-2018, que ocorre no leste siberiano e conta com a maior mobilização de tropas em tempos de paz desde 1981 —quando a Rússia ainda era o coração da União Soviética e levou entre 100 mil e 200 mil soldados para a Polônia.

Agora, os russos colocaram um terço de todas as suas tropas, 300 mil homens, em dois campos de prova, quatro bases aéreas e em três mares ligados ao Pacífico. Eles serão apoiados por 36 mil blindados e mil aeronaves, entre helicópteros, aviões de transporte, caças e bombardeios avançados como o Sukhoi-34.

Mais importante politicamente, contam com 3.200 chineses amparados por 30 aeronaves, o maior deslocamento de soldados de Pequim para o exterior desde 1979.

Naquele ano, a ditadura lutou contra o governo comunista vietnamita, que havia invadido o vizinho Camboja. Agora, oficiais chineses querem aprender técnicas de combate que os russos utilizam em suas operações na Síria, onde o Kremlin apoia o ditador Bashar al-Assad em sua guerra civil desde 2015.

No caso, o “fechamento” de espaço aéreo com baterias de mísseis avançadas e emprego coordenado de aviação de ataque. Além disso, haverá manobras navais conjuntas com novas fragatas russas, que irão operar no Ártico, região cujo gás vem sendo explorado conjuntamente por Moscou e Pequim em projetos bilionários como o de Iamal.

“Naturalmente, é mais barulho político. Mas há grande importância militar, em especial no treinamento de transporte de tropas por grandes distâncias, a fase que antecede os cenários ofensivos e defensivos”, afirmou por e-mail o analista Ivan Barabanov, de Moscou.

Rússia e China não estão sozinhas em sua flexão de músculos. Entre outubro e novembro, a Otan (aliança militar ocidental) fará um exercício multinacional com 40 mil homens no norte europeu. “As mensagens trocadas são cristalinas: estamos preparados para a guerra”, resumiu em artigo publicado pela Bloomberg o almirante americano James Stavridis, que foi comandante da Otan.

O secretário da Defesa dos EUA, James Mattis, disse nesta terça em Washington que não vê Pequim e Moscou alinhadas por muito tempo.

Ele se ampara na história: os países já foram duros rivais, e hoje a Rússia teme que seu desabitado leste sucumba a pretensões chinesas no futuro.

Os diversos acordos energéticos e militares entre os países são vistos com reservas por alguns analistas, que temem apenas a canibalização de recursos russos. Mas, assim como ocorre com Irã e Turquia na Síria, a aliança pontual serve pragmaticamente a Putin.

Para Xi, pressionado também pelos EUA, é a chance de alimentar um cenário de pesadelo usual de analistas americanos: uma guerra no Pacífico contra interesses de Washington com a China aliada à Rússia. Um bônus é a presença de oficiais da Mongólia, país periférico de longa rivalidade com os chineses, no exercício.

A respeito dos turcos, até aqui não houve resposta de Ancara ao convite de Moscou para participar do Vostok (leste, em russo).

Os jogos acabam sábado (15), o que sugere que a divulgação da oferta teve mais a ver com uma sinalização a Trump, cujas sanções contra os turcos está agravando a devastação da economia do país.

Com as bandeiras dos países atrás, Xi Jinping cumprimenta Vladimir Putin após encontro em Vladivostok, na Rússia
Xi Jinping cumprimenta Vladimir Putin após encontro em Vladivostok, na Rússia - Xie Huanchi/Xinhua

 

Exercício militar russo

O Vostok-2018 é o maior exercício desde 1981, com talvez o maior número de tropas em tempo de paz da história russa

O que é treinado

Transporte de tropas e equipamento a longa distância

Manobras navais

Cenários ofensivos e defensivos com tropas, forças aéreas e antiaéreas

Quando ocorre

11 a 15 de setembro

Quem participa

300 mil soldados russos, 3.200 chineses e oficiais mongóis

36 mil blindados russos

1.000 aeronaves russas, 30 chinesas

Sistemas antiaéreos S-300, S-400 e Pantsir

80 navios russos e chineses

900 peças de artilharia chinesas

Estrelas

Fragata Almirante Gorshkov

Caças-bombardeiros Sukhoi-34

Sistema S-400

Fonte: Ministério da Defesa da Rússia

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