Rússia convida Turquia, membro da Otan, para seu mega exercício militar

Em meio a crise na Síria, Moscou faz sugestão buscando afastar Ancara ainda mais do Ocidente

Igor Gielow
São Paulo

O governo russo convidou a Turquia, um país-membro da Otan (aliança militar do Ocidente), para participar dos maiores jogos de guerra promovidos por Moscou desde 1981. Os exercícios, chamados Vostok-2018, começam nesta terça (11) e vão até o sábado (15).

Caças russos disparam "flares", iscas para afastar mísseis guiados por calor, em exercício em 2017
Caças russos disparam "flares", iscas para afastar mísseis guiados por calor, em exercício em 2017 - Serguei Gapon - 20.set.2017/AFP

Segundo o ministro da Defesa turco, Hulusi Akar, disse ao jornal Yeni Safak, seu país está estudando a proposta. Ele não esclarece em que termos o convite ocorreu, e para que tipo de participação de tropas turcas.

Isso é quase irrelevante perto da mensagem política embutida na oferta. Ela ocorre no momento em que a Turquia do crescentemente autocrático Recep Tayyip Erdogan se afasta dos Estados Unidos, país que lidera a Otan.

Sanções econômicas aplicadas pelo governo de Donald Trump contra os turcos, sob a justificativa de que o país detém ilegalmente um ativista religioso americano, ajudaram a empurrar a Turquia para uma crise cambial e fiscal aguda. A lira turca esfarelou, gerando temor de contágio em todo o mundo emergente.

Erdogan já costurava há tempos uma aliança de ocasião com seu par russo, Vladimir Putin, devido à necessidade de coordenação para tentar resolver o impasse da guerra civil síria. Os russos salvaram a ditadura aliada de Bashar al-Assad da derrocada em 2015, mas os turcos consideram imperativo controlar os movimentos curdos ao sul de sua fronteira. A grande minoria tem forte ímpeto separatista na Turquia.

Na sexta (9), russos, turcos e iranianos fracassaram em acertar um cessar-fogo na região rebelde síria de Idlib, que está sob forte bombardeio por aviões do Kremlin. As operações são vistas como um prelúdio para um ataque do governo Assad, e a Turquia ameaça enviar reforços seus para a área.

O ambiente carregado não impediu a nova etapa do namoro Moscou-Ancara. Os turcos já haviam irritado a Otan ao anunciar a compra de sistemas de defesa aérea S-400 russos, e estão sob ameaça de não ter seus caças de quinta geração F-35 entregues pelos EUA devido ao negócio.

No ano passado, russos e turcos fizeram um exercício naval conjunto no mar Negro, área de interesse estratégico de ambos os países. O contato entre as Forças Armadas dos dois países tem aumentado, isso apenas três anos depois de um caça turco ter derrubado um russo que entrou inadvertidamente em seu espaço aéreo.

Para Moscou, o grande exercício que começa hoje é uma demonstração de força militar e política. No campo estritamente bélico, irá mobilizar nada menos que um terço de suas forças disponíveis, 300 mil homens. Serão apoiados por mil aviões e helicópteros, 36 mil blindados diversos e pelo menos duas fragatas lançadoras de mísseis de cruzeiro de última geração.

Será o maior exercício desde o Zapad-81 (Oeste-81), executado 37 anos atrás. Mais importante, os exercícios Vostok (Leste, em russo) ocorriam desde os tempos soviéticos para treinar para uma guerra contra a China, que apesar de também ser uma ditadura comunista, era rival estratégica do Kremlin.

Agora, 3.200 soldados e 900 peças de artilharia e blindados chineses participarão dos exercícios, na tríplice fronteira entre Rússia, China e Mongólia —país que também terá participação, selando uma pacificação ainda instável na sua relação com Pequim.

Mesmo que os turcos não participem, e seria complicada a logística de um envio desses, a sinalização ao Ocidente está feita. No geral, a escala brutal da manobra fala por si só. Um exercício que apavorou os europeus do leste no ano passado, o Zapad-2017, mobilizou apenas 13 mil homens.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.