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'Brexit' tropeça em quatro impossibilidades

Insistência de Theresa May em ignorá-las e buscar conciliar o impossível consomem seu mandato

Alfredo Saad Filho
Londres

O alucinante teatro político que está levando à destruição da primeira-ministra britânica, Theresa May, aponta para quatro impossibilidades que rodeiam o “brexit”, a saída do Reino Unido da União Europeia. 

A determinação de May em ignorar essas impossibilidades —e sua propensão a evitar escolhas e buscar a compatibilizar o que é incompatível— levou aos impasses que consumiram o mandato da líder conservadora.

Close de boneco de Theresa May de expressão irritada e com o nariz alongado, como um Pinóquio, diante de uma placa na qual se lê, em inglês, "pare o brexit"
Boneco que retrata a primeira-ministra britânica, Theresa May, como um Pinóquio foi colocada diante do Parlamento britânico, em Londres, em protesto contra o "brexit" - Frank Augstein/Associated Press

A primeira impossibilidade do “brexit” é a obsessão de impor controles migratórios a cidadãos europeus, ao mesmo tempo em que se promete aos eleitores britânicos a prosperidade econômica baseada em um acordo de livre-comércio com a UE.

Essa impossibilidade se deve aos tratados de fundação da UE, que se baseiam em quatro liberdades fundamentais: fluxos de bens, serviços, capital e pessoas. A tentativa britânica de manter as três primeiras e descartar a última responde a pressões racistas que levaram à vitória do “brexit” no referendo de junho de 2016. 

Entretanto, a posição se revelou insustentável ao ser impossível convencer os demais países-membros da UE a abandonar seus princípios para apaziguar a direita radical britânica, ao passo que a economia da ilha tem o bloco como parceiro de metade de suas transações externas

Qualquer barreira comercial seria catastrófica; mas o fluxo desregulado de migrantes é politicamente inaceitável. 

A segunda impossibilidade se refere à fronteira irlandesa. 

O acordo da Sexta-Feira Santa de 1997 encerrou décadas de conflito militar na Irlanda, que acarretou 3.600 mortes no Norte, em uma população inferior a 2 milhões de pessoas. 

Entre suas cláusulas, o acordo inclui a abertura da fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. Desde então, a única fronteira terrestre do Reino Unido é completamente aberta e, frequentemente, não sinalizada, exceto pela mudança nos limites de velocidade, que passam de quilômetros por hora (no Sul) a milhas por hora (no Norte).

A demolição dos postos fronteiriços e das torres de guarda, que buscavam controlar o fluxo de pessoas e armas que alimentavam a guerra civil, tem amplo apoio naquela ilha, mas ela é obviamente incompatível com a imposição de regimes comerciais e migratórios distintos entre o Reino Unido e a República da Irlanda, que pertence à UE.

Fechar a fronteira e erguer postos de inspeção alfandegária e migração como os que existem entre França e Suíça ou Croácia e Bósnia, por exemplo, provavelmente levaria ao colapso do acordo de paz e à retomada da guerra civil na Irlanda do Norte.

A terceira impossibilidade é financeira. Apesar de o Reino Unido nunca ter adotado a moeda única europeia, a City (polo financeiro de Londres) tem um “passaporte” permitindo que instituições baseadas no Reino Unido transacionem livremente em euros. 

Hoje, a City é o maior centro financeiro da UE, mas o “brexit” necessariamente coloca em questão esse status. Qualquer divergência regulatória entre os dois lados —a razão de ser do “brexit”— poderia impedir os fluxos financeiros entre a City e a UE, ameaçando a maior fonte de lucro de um setor que emprega 1 milhão de pessoas no Reino Unido. 

Não é à toa que a maior parte dos financistas se declarou contra o “brexit” mas, por via das dúvidas, centenas de escritórios e dezenas de milhares de empregos já saíram de Londres rumo a Paris e Frankfurt.

A quarta impossibilidade é política. O voto pelo “brexit” abriu uma caixa de Pandora que se sabia existir há duas décadas, mas cuja complexidade escapava ao entendimento dos eleitores britânicos e à capacidade de adaptação de seu sistema político. 

Nos últimos dois anos, o governo de um dos países mais ricos do mundo, e que se apresenta como um exemplo de democracia parlamentar, se encontra paralisado.

Sua população, por sua vez, se mostra irremediavelmente dividida entre, por um lado, a aceitação do fim do Império Britânico e o reconhecimento do declínio relativo da sua economia, e, por outro, a negação ardorosa da realidade em nome da busca de opostos incompatíveis, movida apenas pela força do desejo. 

Paradoxalmente, a tentativa de impor um “brexit” autodestrutivo pode levar o país a continuar na UE em posição muito diminuída, ou até ao colapso do Estado, com a saída da Escócia e a reunificação da Irlanda. 

Trata-se da maior catástrofe política da história britânica desde 1807, quando o país estava em guerra contra Napoleão —com a diferença que, dessa vez, a vitória é impossível. 

Essa história não vai terminar bem para Theresa May, como não terminou bem para os dois primeiros-ministros conservadores anteriores a ela, John Major (1990-97) e David Cameron (2010-16). Em seus estertores políticos, May deve refletir sobre a diferença entre querer e poder.

Alfredo Saad Filho é professor titular de economia política da Soas, na Universidade de Londres

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