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Venezuela

Opinião: Venezuela precisa de governo de transição no exílio

Faltam uma real oposição e partidos sem vínculos com o regime de Nicolás Maduro

Roderick Navarro
Brasília

“Liberdade ainda que tardia”, em espanhol, minha língua pátria, seria “Libertad aunque tardía”. Meu país, a Venezuela, como tem sido amplamente divulgado, vive um grande caos. Meus irmãos de pátria agonizam nas mãos do ditador Nicolás Maduro.

Na Venezuela, a maioria da população não quer Maduro no poder, nem os militares. Mas, infelizmente, os representantes de todos os partidos políticos possuem algum vínculo com o regime. Hoje não existe ninguém que seja da verdadeira oposição dentro do país, pois, se houvesse, certamente já estaria nas garras da ditadura.

Por essa razão, o movimento Rumbo Libertad propõe uma transição de governo em exílio que tome as decisões necessárias para a reconstrução da República em uma transição para a democracia.

Entregamos ao legítimo Tribunal Supremo de Justiça, que está em exílio, uma solicitação composta por uma proposta de transição de governo, com a nomeação de um grupo transitório que trabalhará em um país amigo, abrindo as portas para negociações e recebimento de ajudas humanitárias.

O Rumbo Libertad nasceu em 2016, de um anseio patriota em querer ajudar nosso país. Nossa principal visão é a liberdade como valor supremo do homem. Assumimos a responsabilidade de representar as aspirações da maioria dos venezuelanos que não se identificam com os partidos políticos do nosso tempo.

Queremos que, desde o primeiro momento da queda da narcoditadura, trabalhemos pela construção de um novo sistema político que garanta a liberdade dos cidadãos.

O papel de cada cidadão consiste em usar a educação e o trabalho como ferramentas para superar a pobreza, enquanto o do governo deve ser o de reconstruir o sistema político e econômico, bem como as instituições de estado, diferente do que faz o governo Maduro.

O narcoditador anulou a realização do referendo que revogaria seu mandato, mesmo com a comunidade internacional reconhecendo as assinaturas dos cidadãos, coletadas pela Assembleia Nacional.

Em outro ato, determinou a criação de uma Assembleia Constituinte que não teve a participação da oposição, por não contar com as garantias mínimas.

Roderick Navarro participa de manifestação contra regime de Maduro, em junho, em Caracas; ele teve de deixar o país
Roderick Navarro participa de manifestação contra regime de Nicolás Maduro, em junho de 2017, em Caracas; ele teve de deixar o país - Instagram/Reprodução

Maduro então tirou poderes do parlamento eleito democraticamente, perseguiu juízes e, no final, modificou a composição do Tribunal de Justiça, fazendo com que os membros legítimos fugissem do país.

Juan Guaidó, novo presidente do Parlamento, se diz oposição, mas faz parte do Voluntad Popular: um partido ligado à Internacional Socialista. Guaidó finge ser opositor de Maduro, mas tudo não passa de uma estratégia para enganar o povo que se vê sem uma real opção.

É importante destacar que esse grupo não possui respaldo de grande parte dos venezuelanos. A coalizão “opositora” Mesa da Unidade Democrática (MUD), que se recusou a participar das eleições por considerar o processo uma “fraude”, também faz parte desta falsa oposição formada por uma base esquerdista que pede diálogos com quem não tem o que dialogar.

O Rumbo Libertad pensa diferente e quer devolver a Venezuela para o povo; por isso, iniciamos e lideramos a Campanha Rumo ao Boicote, na qual pedimos a população para não participar do processo eleitoral. O resultado foi que a grande maioria dos venezuelanos não foi às urnas, reforçando a insatisfação do povo.

Só desejamos poder viver livremente em nosso país, trabalhando e prosperando, sem a presença da coerção estatal. Porém, hoje quem vive na Venezuela mal tem o que comer, com um salário mínimo com que se compra apenas um pacote de leite em pó.

Nove em cada dez venezuelanos estão abaixo da linha da pobreza e mais da metade já são considerados como na extrema pobreza. O cenário é de caos: não há água, comida, luz, remédios, transporte, e ainda há a hiperinflação. Tudo isso provocou uma emigração em massa: hoje somos aproximadamente 4 milhões de refugiados.

A Venezuela pode ser um país muito próspero, o que só será alcançado com a liberdade. Para nós, é fundamental deslocar a lógica político-partidária que monopoliza a direção institucional das cúpulas que controlam o poder. Queremos que a parte mais nobre e trabalhadora da nossa sociedade refaça a Venezuela.

Foi triste ter de deixar meu país para enfrentar todo tipo de desafio no exílio, mas foi a única forma que encontrei de ajudá-lo.

Neste momento, temos ainda mais esperança com o apoio de diversos países, especialmente do Brasil.

Assim como diversos povos ao redor do mundo conseguiram, nós venezuelanos sonhamos em conquistar nossa liberdade, ainda que tardia, e vemos como nossa única saída a ajuda internacional, pois nosso povo já não tem condições de se libertar sozinho.

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