Descrição de chapéu Análise

Crise na Venezuela opõe ala militar aos bolsonaristas radicais no governo

Por ora, Forças Armadas dão as cartas na condução do assunto, mas apoio dos EUA pode pesar

Igor Gielow
São Paulo

Após quase dois meses de estranhamentos, os militares e a área mais radical do bolsonarismo no governo têm na crise da Venezuela seu principal enfrentamento. Até aqui, os sinais dão vantagem aos fardados na disputa.

O vice Hamilton Mourão fala com Jair Bolsonaro durante evento em Brasília
O vice Hamilton Mourão fala com Jair Bolsonaro durante evento em Brasília - Ueslei Marceino - 19.fev.2019/Reuters

Recapitulando. Desde a formação do governo, a ala ideológica do bolsonarismo se aglutinou em torno de três ministérios: Relações Exteriores, Educação e Direitos Humanos.

Nos dois últimos, a agenda conservadora defendida por Jair Bolsonaro na campanha eleitoral ganha contorno de polêmicas frequentes, mas que acabam submetidas ao sistema de freios e contrapesos: discussões no Congresso, reações da sociedade civil ao que parecer abusivo.

Mas o Itamaraty é outra história, e lá a ascensão do desconhecido Ernesto Araújo da condição de diplomata blogueiro e fiel seguidor de Olavo de Carvalho a chanceler pegou muita gente de surpresa.

Na corporação, qualquer um que assumisse atrairia críticas e ciúmes na mesma proporção que novos aliados, isso é do jogo, ainda que o discurso inaugural no qual falou de sua cruzada contra o globalismo marxista seja algo inaudito no país.

A turma "olavista" do setor, formada por Araújo e seu fiador político, o filho de Bolsonaro e deputado federal Eduardo (PSL-SP), além do assessor internacional do presidente, Filipe Martins, assumiu bandeiras complexas na área internacional.

Cumprir a promessa do então candidato ao seu público evangélico e mudar a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém tem implicações políticas e práticas, como danos ao comércio de proteína "halal" com países muçulmanos. Críticas diretas à ida da China à "xepa" da infraestrutura brasileira, idem. O resultado: ambas as coisas estão cada vez mais relegadas à retórica.

Mas foi no declarado alinhamento às políticas do presidente americano Donald Trump, expresso por Bolsonaro e Araújo, que a coisa desandou. Isso porque confrontou o grupo diretamente com o núcleo mais poderoso nessa largada de governo, os militares —sejam eles o vice Hamilton Mourão, os influentes generais da reserva no ministério ou os comandantes da ativa.

Primeiro, Bolsonaro e Araújo falaram em uma base militar americana no Brasil, só para terem a ideia jogada no lixo pelo ministro Fernando Azevedo (Defesa). Depois, mais grave, a questão da Venezuela que ora cresce para uma crise imprevisível.

Como a Folha relatou desde o começo deste mês, Araújo teve suas iniciativas relativas à Venezuela tosadas pela área militar, que o submeteu a uma espécie de tutela antecipada. Nada de cortar cooperação militar com Caracas, fonte de informações de inteligência, muito menos abraçar a pressão americana por uso de tropas brasileiras ou, pecado dos pecados, americanas num envio forçado de ajuda humanitária aos opositores liderados por Juan Guaidó.

De quebra, a crise ocorre no momento em que os militares no governo buscam colocar freios à influência dos três filhos políticos de Bolsonaro no governo, explicitada na turbulenta demissão do então ministro Gustavo Bebianno na segunda (18).

Mas a situação está longe de resolvida. A pressão americana segue, e há o temor que uma ação direta de agentes americanos como o assessor de Segurança de Trump, John Bolton, sobre o presidente. Um recrudescimento da crise nas fronteiras, que agora chegou às vias de fato em Roraima com o fechamento determinado pela ditadura de Nicolás Maduro, pode levar a desenvolvimentos insondáveis.

Se a situação evoluir para algum tipo de escaramuça ou confronto, é provável que ocorra do lado colombiano, ainda que tudo indique que o que está em campo é tão somente um jogo de pressão sobre o ditador. Mas erros acontecem, tiros são dados, e se EUA e Colômbia avançarem o sinal, a pressão para que o Brasil faça o mesmo será enorme dentro da corte bolsonarista.

Por ora, a ida do general Mourão para a reunião do Grupo de Lima no dia 25 sugere que os militares seguem dando as cartas. A área de Defesa não quer ver a repetição de termos que considera inadequados em resoluções às quais não teve acesso, e a situação está mais grave do que em janeiro.

Assim, Araújo terá de suportar as ordens do vice, que já o desautorizou no caso da embaixada em Israel e disse que ninguém deve se importar com o que diz Olavo de Carvalho, padrinho ideológico do chanceler. Essa é uma batalha que corre paralelamente àquela que se insinua nas fronteiras ao norte do Brasil, e nunca é demais lembrar que não é só a Colômbia que tem os EUA como principal aliado.​

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.