Descrição de chapéu Venezuela

Venezuela escolhe ONU como palco de batalha contra 'neocolonialismo'

Para embaixador de Maduro, país luta uma segunda guerra de independência contra os EUA

Danielle Brant
Nova York

Para o regime venezuelano, a ONU será o palco de batalha da segunda guerra pela independência da república bolivariana. Em vez de Espanha, o inimigo agora são os Estados Unidos e Juan Guaidó, a “marionete” escolhida pelo governo americano para se apropriar do petróleo venezuelano, afirma Samuel Moncada, embaixador do país nas Nações Unidas.

Mas, mesmo no organismo multilateral, é difícil atestar a quantas anda a popularidade do regime de Nicolás Maduro. A Venezuela exerce a Presidência rotativa do chamado Movimento dos Países Não Alinhados, que reúne 120 países em desenvolvimento —quase dois em três membros da ONU.

O embaixador venezuelano junto à ONU, Samuel Moncada
O embaixador venezuelano junto à ONU, Samuel Moncada - Divulgação/Ministério das Relações Exteriores da Venezuela

O grupo foi formado em 1961, auge da Guerra Fria, com o objetivo de reunir países que não se posicionavam a favor ou contra nenhuma das principais potências da época –Estados Unidos e União Soviética. 57 anos depois e uma potência a menos, os 120 países buscam outras batalhas para travar.

Nesta quinta (31), o grupo realizou mais uma reunião mensal, sob a presidência de Moncada, que usou o encontro para colocar os membros a par dos últimos acontecimentos envolvendo a situação venezuelana.

E são muitos. Só para citar alguns: há um segundo mandato de Maduro não reconhecido por atores-chave da comunidade internacional, entre eles EUA e Brasil; um presidente da Assembleia Nacional que se declara líder encarregado (Guaidó); sanções americanas contra a petrolífera PDVSA para pressionar o ditador, e a sempre permanente ameaça de intervenção militar combinada entre EUA e Colômbia.

Em entrevista à Folha, Moncada diz que a maior parte dos não alinhados respalda o regime de Maduro. Mas não todos. “Vou ser sincero. O movimento é variado, não são os 120. Há a Colômbia, por exemplo. Mas a grande maioria, sim. O Grupo de Lima não apoia. Mas fora o Grupo de Lima, não há mais ninguém.”

O Grupo de Lima é formado por 14 países que em sua maioria se opõem a Maduro, entre eles Brasil, Peru e Colômbia. O Brasil tem status de observador no movimento de não alinhados.

Maduro com o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, durante exercício militar em Macarao
Maduro com o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, durante exercício militar em Macarao - Presidência da Venezuela/Divulgação/AFP

O embaixador venezuelano afirma que, na ONU, o apoio maior vem de México (também do Grupo de Lima), Nicarágua, Uruguai, Bolívia e dos caribenhos do Caricom. “São países pequenos, mas sua defesa é a lei internacional.”

Ele nega que o país esteja isolado nas Nações Unidas e diz, ao contrário, que se sente acompanhado no órgão. “A comunidade internacional, segundo o The New York Times, Washington Post, são os EUA. Segundo a BBC, é a Inglaterra e os EUA. Segundo o El País, é a Espanha e os EUA. Mentira. O mundo são 193 países”, diz.

“E, aqui, temos África, Ásia, o resto do mundo. E nós não estamos defendendo a Venezuela, e sim a regra para manter a paz no mundo que a ONU representa. Nós sabemos que não estamos sozinhos. Nem no Brasil estamos sozinhos, apesar do senhor Jair Bolsonaro.”

Para Moncada, as Nações Unidas são o palco apropriado para a resposta da Venezuela ao “neocolonialismo” americano. “A ONU tem um papel. O secretário-geral [António Guterres] faz sua mediação. A Assembleia Geral deve rechaçar o plano e a guerra colonial de [Donald] Trump.”

O embaixador afirmou que a Secretaria-Geral das Nações Unidas deve adotar todos os mecanismos para abastecer o país e se opor ao bloqueio que os EUA estão fazendo.

Moncada acusa os EUA de tentarem recolonizar a Venezuela. “Por isso que eu digo que estamos no segundo processo de libertação da Venezuela. Como tivemos uma guerra pela independência, vamos ter uma segunda guerra pela independência. E isso pelo nosso petróleo, pelo nosso povo, pelo território.”

O representante venezuelano critica a decisão de alguns países de reconhecer Guaidó como presidente encarregado do país. “Por exemplo, a Austrália se meteu nisso. A Austrália está do outro lado do planeta, não temos contato com esses senhores. E eles reconhecem uma marionete americana”, ironiza.

Outro exemplo citado é o Haiti, que, segundo Moncada, foi bastante ajudado pelo ex-presidente Hugo Chávez, morto em 2013.

“Tudo o que pediam a gente dava, nunca pedimos nada em troca. O Haiti reconheceu a marionete. Você acha que ele fez isso pela Venezuela ou pela pressão dos EUA? A pressão dos EUA é tão atroz que faz com que a relação histórica entre países amigos, sem problemas, se intoxique, se converta quase em países hostis.”

Ainda que se diga avesso à opção militar, Moncada não descarta a alternativa. Segundo o venezuelano, o país vai se preparar para se defender de uma eventual intervenção conjunta de EUA e Colômbia. “Espero que não cheguemos a isso. Mas, se chegarmos, temos que nos defender. Qual o papel da ONU? Frear o abuso de Trump, porque está violando o direito internacional.”

Ele também não rejeita recorrer à Corte Internacional de Justiça, mas ressalta que é uma via que está sendo analisada. “Há muitos caminhos, e temos que analisar cada uma. Não queremos chegar à agressão militar sofrida pelos EUA, mas eles estão acelerando o passo. Porque sabem que a marionete não será levada a sério em seis meses, e eles precisam que isso se resolva rápido.”

 
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