Descrição de chapéu The Washington Post Venezuela

Falta de água potável aumenta casos de febre tifoide e hepatite na Venezuela

Quedas constantes de energia comprometem abastecimento de água no país

Água é retirada de poço por moradores de Petare, em Caracas - Federico Parra - 1º.abr.2019/AFP
Arelis Hernández Mariana Zuñiga
Caracas | The Washington Post

Jakeline Moncada tinha fé que as reservas de sua casa aguentariam até que o serviço de água na Venezuela fosse restabelecido. Mas dois blecautes nacionais e agora o racionamento de eletricidade impediram que a água fluísse para uma grande parte desse país sul-americano.

Depois de 15 dias sem uma gota de água na torneira, a mãe de três filhos, de 43 anos, estava ao lado de um córrego no leste de Caracas nesta semana, vendo seu filho adolescente descer desajeitadamente um barranco enlameado, de jeans e tênis, para conseguir água que sua família pudesse usar para beber, cozinhar e tomar banho.

"É tão injusto", disse Moncada. "Somos um país muito rico, não é justo que isso esteja acontecendo."

"Minha filha me perguntou recentemente: 'Por que você está chorando, mami?'" 

Primeiro era dinheiro. Depois comida. Depois eletricidade. E agora água. Para milhões de pessoas neste país rico em petróleo, a interrupção dos serviços básicos reduziu a vida a uma luta cotidiana para suprir as necessidades fundamentais —e segundo muitos, conforme a escassez se alastra, está cada dia mais difícil. As crianças estão subnutridas, os médicos veem o aumento das doenças infecciosas, milhões de pessoas fugiram do país

O ditador Nicolás Maduro atribui os inúmeros problemas da Venezuela à sabotagem da oposição e seus apoiadores dos Estados Unidos, destinada a desestabilizar seu governo. A oposição e autoridades americanas culpam anos de má administração e corrupção sob Maduro e seu antecessor, Hugo Chávez.

Os lados estão travados em um impasse político desde janeiro, quando Maduro reivindicou um segundo mandato como presidente depois de eleições amplamente consideradas fraudulentas e o líder de oposição, Juan Guaidó, reagiu declarando-se presidente interino. Guaidó, reconhecido pelos Estados Unidos e por mais de 50 países como o líder de direito da Venezuela, vem comandando manifestações de massa em todo o país, pedindo a renúncia de Maduro. 

Apanhados no meio estão os venezuelanos comuns, de todas as classes sociais. Analistas dizem que 20 milhões de pessoas --dois terços da população-- sofreram escassez ou ficaram totalmente sem água nas últimas duas semanas. 

A falta de água tirou as pessoas de suas casas para as ruas, em busca de qualquer fonte, potável ou não.

Adultos e crianças carregam garrafas vazias e baldes por ruas íngremes nas favelas e atravessam rodovias perigosas para chegar a fontes públicas, riachos lamacentos e poços urbanos que cheiram a esgoto. 

A doutora Maria Eugenia Landaeta, chefe do departamento de doenças infecciosas do Hospital Universitário de Caracas, disse que os médicos estão vendo aumentos nos casos de diarreia, febre tifoide e hepatite A.

O país já enfrenta a fome, desnutrição e falta de remédios e suprimentos médicos. Quanto mais tempo os venezuelanos ficarem sem acesso à água limpa, disse Landaeta, maior a probabilidade de infecção gastrointestinal e bacteriana. 

O hospital de Landaeta passou meses sem água ou energia regulares. Ele contou com cisternas e geradores.

"Tivemos muitos casos de infecção pós-parto em mulheres por causa da péssima higiene e uso de água não esterilizada", disse Landaeta.

Caracas, cidade de 2 milhões de habitantes, fica em um vale a cerca de 900 metros acima do nível do mar.

O sistema público de água conta com uma série de bombas que exigem quantidades enormes de energia. Sem eletricidade, a água não corre.

Protestos contra a falta de água em Caracas e no campo no último fim de semana atraíram reações armadas da polícia e de grupos paramilitares pró-governo. Duas pessoas foram atingidas por tiros no domingo (31) no centro de Caracas, segundo a mídia local. Repórteres e organizações não governamentais disseram que a temida Força de Ações Especiais do governo abriu fogo contra manifestantes no oeste de Caracas e dispararam contra apartamentos em bairros que protestaram.

Maduro condenou a violência e disse aos venezuelanos para se endurecerem enquanto o governo trabalha para restaurar o sistema. A administradora da água Evelyn Vasquez disse a repórteres que uma "explosão" de um cano tinha prejudicado os esforços, mas não deu detalhes.

Maduro tuitou na quinta-feira (4) que os "fantoches diabólicos" do "império norte-americano... revelam suas intenções obscuras atacando viciosamente os serviços básicos do povo venezuelano".

O assessor de segurança nacional dos Estados Unidos, John Bolton, disse que foi Maduro quem criou os problemas. "A única coisa que impede a Venezuela de tomar a estrada da reconstrução econômica e da prosperidade é a corrupção de Maduro, sua incompetência e usurpação", tuitou ele. "Os Estados Unidos apoiam [Guaidó] e o povo venezuelano em sua jornada para a democracia." 

Líderes de oposição previam problemas nos serviços públicos há anos. O deputado Gregorio Graterol, chefe da comissão de meio ambiente da Assembleia Nacional, liderada pela oposição, disse que os políticos avisaram já em 2013 que um colapso do sistema hidrelétrico deteriorado era iminente, se não recebesse manutenção séria. Isso não aconteceu, disse ele. 

"Esta crise não é circunstancial, é estrutural", disse Graterol. "As causas estão aí há muito tempo: corrupção, incompetência... e a politização das companhias públicas encarregadas."

José de Viana é ex-presidente da Hidrocapital, a autoridade estatal que controla a água. Sob circunstâncias normais, disse ele, se a energia da rede nacional falhasse, usinas termelétricas situadas fora das cidades venezuelanas seriam acionadas como sistema de reserva e manteriam a água correndo.

"O problema é que 90% das termelétricas estão fora de serviço porque não foram reparadas, mantidas ou estão desligadas do sistema elétrico", disse Viana. "Não quero imaginar a possibilidade de outro blecaute... se isso acontecer, o problema poderá assumir graves dimensões."

Multidões faziam fila em Petare, a maior favela de Caracas, carregando uma profusão de baldes e bacias, algumas presas a carrinhos e bicicletas, sob o sol tropical fervente, para esperar num caos semiorganizado por sua vez de recolher água de um bueiro na rua.

Inés Blanco, 58, desceu de seu bloco de tijolos de concreto às 7h para guardar lugar na fila entre dezenas de vizinhos. Durante cinco horas, líderes comunitários baixaram baldes ao bueiro para recuperar água fétida. A multidão não parecia notar o cheiro. 

Ao meio-dia, o poço tinha secado e Blanco recuou para a sombra.

Neste bairro numa encosta de morro, onde vivem trabalhadores venezuelanos tradicionalmente leais ao governo socialista de Maduro, Blanco se acostumou à constante falta de água. Ela reutiliza a água do banho e a recicla no toalete. Mas diz que não usa essa água para cozinhar. 

Blanco não culpa a oposição pelo colapso da infraestrutura da Venezuela. Mas também não culpa o governo. 

"Não culpamos ninguém", disse ela. "Não adianta nada se desesperar." 

Os vizinhos chamam o buraco de "poço". Viana, o ex-chefe da empresa de água, disse que essas operações podem ser muito mais perigosas.

"Eles acabam chamando isso de 'fonte' ou 'poço'", disse ele. "Mas é principalmente água de esgoto que não é potável e vem dos banheiros de outras pessoas."

Além das favelas, os venezuelanos de classe média com tempo e transporte para viajar rumam para as fontes, rios e lagos. 

No riacho Sabas Nieves, no leste de Caracas, Giomar Salazar estava dentro de um carro compacto esperando que seu filho enchesse recipientes de água. 

A dona de casa de 62 anos estava irritada. O chihuahua preto em seu colo tremia enquanto ela lamentava que o carregamento de água não duraria nada em sua casa: dois dias.

"Não há dinheiro. Não há energia. Não há água. Sinto-me impotente", disse Salazar.

"Todo mundo é culpado. A oposição e o governo. É tudo a mesma coisa. Todo mundo quer poder, e a situação da população só piora." 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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