Descrição de chapéu BBC News Brasil

Governo cubano estuda criar avestruzes e crocodilos para suprir falta de carne e causa enxurrada de memes

Segundo relatos de cubanos, refrigeradores e prateleiras de muitas lojas estão vazios, e a compra de um frango pode terminar em briga

Pascal Fletcher - BBC Monitoring
BBC News Brasil

Um exótico animal africano está promovendo uma verdadeira revolução em Cuba – nas redes sociais.

Há duas semanas, imagens de avestruzes de diferentes tamanhos, cores, formas passaram a aparecer em memes, posts e comentários nas cada vez mais usadas contas no Facebook, Twitter e Instagram da ilha.

A palavra avestruz já é uma das mais buscadas pelos cubanos no Google. Supera as buscas pelo nome do atual presidente Miguel Díaz-Canel ou por Fidel Castro, que comandou o país por mais de quatro décadas.

Avestruz no zoológico de Havana, em Cuba - Fernando Medina - 11.abr.19/Reuters


Tudo começou no início deste mês, quando um dos líderes históricos da Revolução Cubana, comandante Guillermo García Frías, 91, participou de um programa da televisão estatal cubana, o Mesa Redonda.

García Frías, considerado um dos "heróis da república" cubana, disse, olhando para as câmeras, que Cuba podia produzir "mais que carne bovina".

Ele contou que o governo estuda várias alternativas para lidar com a escassez de alimentos básicos, como carne, ovo e leite. Uma delas, segundo García Frías, seria introduzir na dieta dos cubanos, a carne de avestruz, crocodilo e jutía (um roedor endêmico na ilha).


Segundo García Frías, a carne de jutía e de crocodilo tem níveis de proteína "superior a todas as carnes, inclusive a de vaca".

O comandante, que também dirige a Empresa Nacional de Flora e Fauna, disse que a ilha está "desenvolvendo" sete fazendas de avestruz, principalmente no leste do país, e que prevê abrir outra na Ilha da Juventude.

"O avestruz produz mais do que uma vaca. Parece uma mentira, mas uma avestruz bota 60 ovos. Dos 60 ovos que estamos testando, nasceram 40 filhotes. Esses 40 filhotes têm quatro toneladas de carne, 100 quilos cada, enquanto a vaca cria um bezerro que, em um ano, é um novilho e não tem esse peso, essa quantidade de carne", acrescentou.

A reação foi imediata. As redes de mídia social – cada vez mais acessíveis em Cuba - "explodiram" com memes fazendo brincadeiras e ironias com as sugestões de García Frías.

Canções, melodias e até mesmo poemas parodiando as recomendações para a dieta proposta pelo oficial de 91 anos se espalharam como fogo e estão sendo trocadas, com saudações familiares, entre Miami e Havana.

Memes substituindo o rosto de García Frías pelo de um avestruz, ou juntando os três animais citados pelo veterano militar a alguns dos mais conhecidos slogans e imagens de propaganda revolucionária de Cuba, floresceram nas redes sociais.

Por exemplo, o conhecido slogan do governo "Em todos os bairros, a revolução" – tirado de uma canção popular pró-governo - foi convertido em "Em todos os bairros, um avestruz".

Símbolos, personagens e fotos históricas estão sendo manipulados para incluir a ave. É possível ver Fidel Castro pulando de um avestruz, uma analogia à clássica foto dele saindo de um tanque de guerra, ou mesmo o presidente Díaz-Canel cavalgando na indomável ave.


A reação dos cubanos reflete a grande insatisfação com os governantes da ilha, que não têm conseguido criar condições para resolver a falta de comida em um país com solo fértil, bom clima e que já foi o maior produtor mundial de açúcar.

As declarações de García Frías chegaram num momento em que Cuba passa por uma grave falta de suprimentos e de alimentos – reflexo da crise que abala a Venezuela, que ajudava a ilha desde os anos 2000 com a aliança política entre Fidel Castro e Hugo Chávez.

Segundo relatos de cubanos à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC News, há meses, refrigeradores e prateleiras de muitas lojas estão vazios e a compra de um frango pode terminar em briga de rua.

Mas o governo cubano, que já pediu para a população se preparar para o pior, culpa os Estados Unidos, cujo presidente, Donald Trump, anunciou na semana passada novas sanções contra a ilha, pela situação.

Enquanto os veículos oficiais falam das novas medidas de Trump, são os novos pratos exóticos que podem chegar às mesas dos cubanos que dominam as discussões nas redes sociais e nos sites de dissidentes.


O 14yMedio, site dissidente dirigido pela blogueira antigoverno Yoani Sánchez, descreveu o estouro de memes e paródias do avestruz como uma "arma política contra o poder [do governo] em Cuba".

Sánchez escreveu que o aumento do uso da internet em Cuba, recentemente estendido aos telefones celulares, expôs a vulnerabilidade política de um governo de partido único que, no passado, manteve o monopólio da informação.

Ela terminou seu artigo dizendo: "Zombar do poder é começar a demoli-lo".

Outro site cubano dissidente, CiberCuba, relatou que "o avestruz se tornou o animal mais popular" no zoológico de Havana. Segundo a correspondente do site em Havana, Iliana Hernandez, crianças e adultos "não estão perdendo a oportunidade de tirar fotos com a ave".

Mas nem todo mundo parece estar se divertindo com o tema.

Desde a aparição de García Frías no horário nobre da televisão estatal cubana, no início deste mês, integrantes do governo têm mantido um silêncio pétreo sobre as declarações do comandante.

Mas, à medida que aumentam os temores de outro "período especial" – a grave crise econômica dos anos 90 em Cuba, que se seguiu ao colapso do bloco soviético -, líderes cubanos começam a discutir os principais problemas da produção de alimentos.

O site governamental Cubadebate referiu-se à atual "instabilidade no mercado de produtos de alta demanda, como frango, farinha, óleo de cozinha, ovos e carne de porco" numa reportagem com o presidente cubano Miguel Díaz-Canel, que disse ao site que as causas dessa situação "complexa" incluem "o aperto do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos".

Isso desencadeou uma enxurrada de comentários online, dos quais mais de 200 foram publicados pela Cubadebate.

"Pelo amor de Deus, quanto tempo vamos continuar com essa desculpa do bloqueio?" escreveu o leitor Fito.

Outro leitor, identificado como Olegario, disse: "em que parte do mundo com necessidades alimentares perenes o Estado permite que os produtos [alimentícios] apodreçam no campo sem vendê-los: EM CUBA".

Os leitores sugeriram que pagassem melhores salários e incentivos aos agricultores cubanos, e pediram ao Estado que permitisse mais empresas privadas e investimentos por parte dos cubanos comuns.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.