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Partidos nacionalistas dominam debate online antes de eleição europeia

Cenário se repete em Espanha, Itália, Alemanha e Polônia

Paulo Pena
Lisboa | Diário de Notícias

Os partidos eurocéticos, anti-imigração e de extrema direita são os mais mencionados no debate público online na Europa.

Este é o resultado de um estudo que analisou quase 48 milhões de mensagens entre 15 de dezembro e 20 de janeiro, realizado pela espanhola Alto Analytics.

A pesquisa, feita em parceria com o consórcio de jornalismo Investigate Europe, abrangeu Espanha, Itália, Alemanha, Polônia e França, cinco países que terão peso decisivo nas eleições para o Parlamento Europeu de 26 de maio.

Depois de ter estudado as publicações de 3,6 milhões de usuários, a Alto Analytics recolheu dados que mostram que, em quatro desses países, os partidos nacionalistas radicais lideram as referências.

Na Alemanha, a AfD está muito à frente da CDU de Angela Merkel.

Desde a crise dos refugiados de 2015, essa sigla de extrema direita fez da luta contra a imigração seu principal argumento de campanha.

O mesmo se observa na Espanha: o recém-criado partido ultranacionalista Vox —que defende a construção de muros em Ceuta e em Melilha— é, de longe, o mais mencionado online (42,2%).

 

Essas duas organizações são minoritárias em seus países, assim como a italiana Liga do Norte —que teve 17,6% dos votos nas últimas eleições e é, no entanto, citado online em 45% das mensagens.

Já na Polônia, o Lei e Justiça é o mais mencionado, com 63,1% das mensagens. Essa organização ultraconservadora também tem forte discurso anti-imigrantes.

A exceção no estudo é a França, onde o República em Marcha, do presidente Emmanuel Macron, aparece mencionado em quase metade das mensagens (46%).

Mas é preciso ponderar que o estudo foi realizado no auge do movimento de coletes amarelos, também um dos assuntos mais discutidos na internet no período.

“Se os grupos nacionalistas dominam o debate online, é em parte porque as redes sociais são programadas dessa maneira: mensagens extremas recebem mais atenção dos usuários e os algoritmos recomendam o que é mais popular, sem filtros éticos”, diz Thomas Boestchoten, fundador da Utrecht Data School, que estuda o comportamento da extrema direita online.

É importante sublinhar que “menções” a um partido não significam necessariamente apoio.

Os partidos mais mencionados são, também, os mais criticados —e a análise não diferencia as menções.

Mas, para um pequeno partido, a liderança online tem um significado e muita utilidade.

Ela os ajuda a conseguir a notoriedade que dificilmente conseguiriam na campanha de rua. E, nas redes sociais, começa a ser visível uma extrema polarização, que propaga sua mensagem.

A pesquisa identificou mais de 1.500 perfis de Twitter que escrevem sobre política a um ritmo considerado “anormal” —mais de 100 tuítes por dia.

Segundo o algoritmo da Alto Analytics, entre 40% e 70% desses usuários têm afinidades com partidos nacionalistas e um discurso comum: postam contra a entrada de imigrantes, acusam partidos de esquerda de serem corruptos, partilham “notícias” de sites desconhecidos com informação falsa sobre imigrantes, mulheres, políticos e religião, e acusam a mídia de censurar suas opiniões.

Redes sociais têm influência política clara em eleições —como mostra a experiência dos últimos debates políticos no mundo, da eleição americana, em 2016, ao brexit e ao Brasil. 

O que o estudo da Alto Analytics mostra, claramente, é a dimensão global do problema.

Se um Estado europeu, sozinho, tenta conter o uso da desinformação, isso pode ser ineficaz: notícias falsas sobre Macron não se resumem às contas de seus opositores na França; a desinformação pode ser publicada também na Espanha. 

Até agora, na União Europeia, ninguém assume ter indícios de que exista uma campanha coordenada de desinformação na região. 

Bruxelas criou nas últimas semanas uma entidade de cooperação, com um representante em cada país, para partilhar informações sobre campanhas de desinformação durante as eleições. Mas responsáveis pelo órgão defendem que a melhor forma de combater o problema é a autorregulação das plataformas.

Este artigo foi publicado no Diário de Notícias num projeto do Investigate Europe —consórcio que junta nove jornalistas de oito países europeus

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