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Brasileira projeta casa para ser construída por e para mulheres de zona rural em Uganda

Para viabilizar obra, financiamento coletivo busca captar R$ 60 mil

Francesca Angiolillo
São Paulo

Ser mulher na zona rural em Uganda significa trabalhar e cuidar da casa e da família, muitas vezes sem um homem. Não raro essa mulher é uma avó, que se ocupa dos netos, enquanto os mais jovens saem para buscar o sustento, às vezes longe dali.

Uma casa para uma “jajja” —se pronuncia “djadja” e significa avó, no idioma luganda, um dos falados no país africano—, projetada por uma arquiteta brasileira, para ser erguida por mulheres, pensando nas necessidades e possibilidades delas, acaba de ser premiada na Alemanha.

A arquiteta Mariana Montag segura um retrato de Jajja, uma mulher de Uganda que receberá a primeira casa do projeto.
A arquiteta Mariana Montag segura um retrato de Jajja, uma mulher de Uganda que receberá a primeira casa do projeto - Bruno Santos/Folhapress

O projeto de Mariana Montag, 24, foi um dos 20 reconhecidos pela premiação Beyond Bauhaus, comemorativa do centenário da escola alemã e voltada para inclusão social por meio de design e inovação.

A Casa de Jajja, como o projeto foi batizado, prevê o uso de materiais obtidos a no máximo um quilômetro do local de construção, Kikajjo (pronuncia-se “chikadjo”), vilarejo rural a 16 quilômetros de Kampala, capital do país. 

Nela viverão Jajja Nonnono Imaculate, 75, e suas duas netas, Rose, 14, e Gift, 6.

Para obter R$ 60 mil para a compra do terreno e a construção da Casa de Jajja, Montag abriu uma campanha de arrecadação online, que vai até 18 de julho. Ela espera que a obra possa ser concluída até fevereiro.

O projeto foi pensado de forma modular, permitindo ampliações e sua replicação. A construção servirá como oficina de capacitação para que as mulheres aprendam a construir e reproduzir o modelo.

Montag diz que, enquanto estudava arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, sentia que sempre “faltava alguma coisa; tinha um processo anterior ao terreno, que a arquitetura não podia ter a pretensão de tentar entender”.

Na faculdade, procurou esse algo em experiências de trabalho em lugares como a Guatemala e a Amazônia. Sua busca a levou a trabalhar no projeto Escola em Uganda, tocado por uma brasileira em Kikajjo. 

O trabalho era baseado na psicologia social comunitária, processo que escuta a comunidade para conhecer suas necessidades e saberes, levando-os em conta nas soluções.

Montag passou dois meses no lugar, participando desse levantamento junto à comunidade, em grande parte mães criando sozinhas os filhos. “Voltei absolutamente obcecada por Uganda.”

Nessa primeira ida ao país, conheceu Nonnono Imaculate, que trabalha na casa de um dos fundadores da ONG Toruwu (Training of Rural Women in Uganda, treinamento das mulheres rurais de Uganda), ligada ao projeto da escola.

De início, sua ideia era estudar, em seu trabalho de conclusão de curso, em 2018, o processo para reconstruir a escola St. Mary. Dois fatores, porém, a levaram a Jajja. 

O primeiro veio de outra viagem, desta vez um estágio de seis meses com o coletivo equatoriano Al Borde, em Quito, que tem um trabalho mais vinculado à prática e à compreensão da função social do arquiteto, com os usuários como protagonistas. “Tudo aquilo que a faculdade dizia que era romantização.” 

Lá, também, pôde refletir sobre como também na arquitetura chegava sempre o momento em que se impunha a questão de gênero, que a tomada de decisão passava pelo mundo dos homens.

O outro clique foi uma fala de Jajja para o documentário produzido sobre o Escola em Uganda. “Ela só falava que queria uma casa para descansar” e não mais pagar o aluguel do cômodo de 9 m² onde vive com as netas.

Foi quando percebeu que fazer uma casa para Jajja aglutinava tudo o que lhe interessava. Juntavam-se ali a atenção a uma demanda local, trabalho de campo e o desejo de desenvolver algo com mulheres.

Voltou a Kikajjo e passou três meses ouvindo mulheres sobre como se sentiam em suas casas e o que mudariam nelas, pesquisando a arquitetura vernacular e, sobretudo, observando a rotina de Jajja. 

Depois de traduzir suas convicções em desenhos, em São Paulo, voltou para Kikajjo e passou um mês conversando com Jajja. Em vez de desenhos, “ferramentas de poder, com os quais posso convencer do que for”, levou uma maquete da casa para que ela opinasse.

Em paralelo, pôs mãos à obra. Testou a estrutura que havia projetado na escola infantil que uma professora local estava construindo. 

Em março passado, a partir da experiência do protótipo, começou a pensar sobre como tornar a etapa da construção, agora já experimentada, mais viável para mulheres. “O espaço todo é baseado no corpo do homem”, diz, e também os utensílios para erguê-lo.

Juntou-se a oito colegas —sete mulheres— do primeiro semestre do Mackenzie, “com a física fresquinha na cabeça”, que, com ela, conceberam um método para levantar a estrutura com mais leveza. 

No livro que constitui a parte teórica de seu trabalho de graduação, a arquiteta observa como os moradores de Kikajjo vão construindo as casas aos poucos, como dá, a fim de garantir que o terreno não vá ser ocupado por outra pessoa. 

Não é o que ela quer para Jajja. A arquiteta optou pela modalidade “tudo ou nada” para o crowdfunding. Isto é, se não levantar 100% da meta, não recebe recurso algum. 

Após ter ouvido promessas de apoio por parte de professores, “como pessoas físicas”, diz esperar que a Universidade Mackenzie se mobilize como instituição para ajudar. 

Não se trata, diz ela, de lhe dar bolsas para seguir a pesquisa, ou de registrar a patente de sua estrutura, mas de construir a Casa de Jajja e, assim, agir na realidade. 

Exposição: A Casa de Jajja. Casa Plana. R. Fradique Coutinho, 1139, tel. (11) 3032-2057. De seg. a sáb., das 10h às 20h. Até 31/7. Grátis. 

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