Descrição de chapéu The New York Times

Conheça o assassinato que deu início aos protestos em Hong Kong

Governo local usou caso para defender aprovação de projeto de lei de extradição

Daniel Victor Tiffany May
Hong Kong | The New York Times

​Antes dos protestos em massa, do gás lacrimogêneo e dos confrontos com a polícia, antes que o governo procurasse aprovar uma lei capaz de ameaçar a situação especial de Hong Kong na China, e depois abruptamente recuar, uma jovem grávida partiu para uma aventura romântica em Taiwan.

Manifestantes pedem a saída da líder de Hong Kong em protesto
Manifestantes pedem a saída da líder de Hong Kong em protesto - Tyrone Siu/Reuters

Poon Hiu-wing, 20, não voltou a Hong Kong daquela viagem no Dia dos Namorados do ano passado (14 de fevereiro no hemisfério norte), mas o namorado dela, Chan Tong-kai, 19, sim. 

Mais tarde, ele contou à polícia de Hong Kong que a havia estrangulado, colocado o corpo numa mala e jogado numa moita de arbustos perto de uma estação de metrô em Taipé.

Era apenas uma história de crime local em princípio, cujos detalhes foram espalhados pela imprensa sensacionalista: uma selfie do casal no Facebook, imagens granuladas de câmeras de segurança, as circunstâncias de sua última discussão.

Então, em fevereiro passado, quase um ano após a prisão de Chan, o governo de Hong Kong citou o caso para propor uma legislação que permitiria à cidade transferir suspeitos de crimes para Taiwan e outros locais com os quais não tem tratado de extradição —incluindo a China continental.

Aproveitando o crime polêmico em uma campanha apressada para aprovar a medida, a chefe executiva de Hong Kong, Carrie Lam, e seus superiores na liderança chinesa pareciam confiantes de que tinham uma estratégia vitoriosa.

Como se viu, eles subestimaram o medo e a suspeita pública do domínio de Pequim nessa ex-colônia britânica semiautônoma. 

A jogada provocou um dos maiores protestos em Hong Kong em décadas, ao mesmo tempo que revitalizou a reprimida oposição pró-democracia no território.

Em um raro recuo para o governo linha-dura do dirigente chinês, Xi Jinping, Lam finalmente cedeu à pressão neste sábado (15) e suspendeu sua pressão pela legislação, enquanto resistia às exigências de retirá-la completamente e renunciar.

Desde o início, os críticos rotularam o plano de extradição de “cavalo de Troia”, algo que permitiria a Pequim atacar dissidentes políticos e outros em Hong Kong que entrassem em conflito com autoridades do Partido Comunista.

À medida que a revolta popular se espalhou, Lam e seus aliados seguiram o roteiro, afirmando que Hong Kong precisava da lei para levar Chan à Justiça —mesmo depois que as autoridades de Taiwan deixaram claro que isso não era verdade. 

Autoridades taiwanesas disseram em maio que não buscariam a extradição de Chan sob a legislação proposta.

Sua objeção ecoou a da população de Hong Kong: os tribunais e as forças de segurança da China continental, todos controlados pelo Partido Comunista, não eram confiáveis.

A repetida menção de Lam ao luto da família Poon era vista apenas como “oportunismo político do pior nível”, disse Dennis Kwok, parlamentar da oposição.

Poon fizera cursos de culinária e esteticista. Chan estudava administração de empresas. Eles se conheceram em julho de 2017 enquanto trabalhavam meio período em uma loja.

Antes de o casal partir para Taiwan no ano passado, ela postou no Facebook: “Ele disse que sou sua primeira e última namorada."

Passaram o Dia dos Namorados juntos em Taipé, capital de Taiwan, mas dois dias depois tiveram uma briga que se estendeu pela noite até a madrugada.

Poon tinha comprado uma mala cor-de-rosa num dos famosos mercados noturnos de Taipé, e eles discutiram sobre como seus pertences deveriam ser guardados, disse Chan mais tarde aos investigadores, segundo o jornal The South China Morning Post.

Então, de acordo com o relato que ele fez à polícia, Poon revelou que um ex-namorado era o pai da criança que ela gestava, e mostrou a Chan um vídeo dela fazendo sexo com outro homem.

Enfurecido, Chan bateu a cabeça dela na parede, lutou com a jovem no chão do quarto do hotel por cerca de dez minutos e a estrangulou, segundo confessou. Ele enfiou o corpo numa mala e foi dormir.

Quando Poon não voltou para casa, seu pai começou uma busca frenética. Chan disse a ele que o casal teve uma discussão e “seguiram caminhos separados”, de acordo com a agência Taiwan News. A polícia de Hong Kong questionou Chan e ele disse o mesmo.

Mas então as autoridades de Taiwan apresentaram imagens de vigilância que mostravam Chan saindo do hotel, esforçando-se para arrastar uma mala rosa.

Detetives da polícia de Hong Kong o interrogaram novamente. Dessa vez ele confessou e revelou a localização do corpo, em um campo próximo da estação de trem de Zhuwei, na periferia norte de Taipé. A polícia o encontrou naquela noite.

Mas a polícia de Hong Kong não pode acusar Chan de homicídio por um crime cometido em Taiwan. Em vez disso, ele foi preso e acabou sendo condenado por acusações de lavagem de dinheiro por usar os cartões de crédito de Poon após sua morte.

Em abril, um tribunal de Hong Kong o condenou a 29 meses de prisão. Com o tempo servido enquanto aguarda julgamento e por bom comportamento, ele poderia ser libertado em outubro.

Uma autópsia indicou que Poon estava grávida de quatro a cinco meses.

O crime violento é relativamente raro em Hong Kong e Taiwan, e o caso recebeu ampla cobertura das agências de notícias locais quando Chan foi preso pela primeira vez.

Algumas reportagens comentaram que pode ser difícil processá-lo por acusações de assassinato por causa da burocracia internacional, mas durante meses não houve sinal de que o caso estaria no centro de uma disputa internacional.

Então, em dezembro, promotores de Taiwan obtiveram um mandado de prisão para Chan.

O governo disse que havia procurado por três vezes as autoridades de Hong Kong para discutir como ele poderia ser extraditado. 

As três solicitações ficaram sem resposta, de acordo com Chiu Chui-cheng, vice-ministro do Conselho de Assuntos do Continente de Taiwan, órgão responsável pela política em relação à China.

Havia dois problemas inter-relacionados: a China, que considera Taiwan parte de seu território, não reconhece o governo local; e Hong Kong, que retornou ao domínio chinês em 1997, não tem acordo de extradição com Taiwan.

Dois meses depois, pouco antes do aniversário do assassinato de Poon, Lam fez sua jogada.

Seu governo apresentou documentos ao Conselho Legislativo de Hong Kong que citou o assassinato ao propor uma legislação que permitiria extradições na base “caso a caso” para jurisdições com as quais Hong Kong não possui acordo formal de extradição.

O plano cobria Taiwan —mas também a China continental. E isso era muito sério.

Hong Kong nunca permitiu extradições para a China continental —uma salvaguarda acordada quando o Reino Unido devolveu o território, e Pequim prometeu um alto grau de autonomia. 

A medida proíbe a extradição para qualquer parte da China, o que complica qualquer acordo com Taiwan devido à reivindicação de soberania de Pequim sobre a ilha democrática e autônoma.

No entanto, Lam tentou evitar o processo regular da legislatura e colocou a proposta em votação rápida, com uma revisão pública incomumente curta, de 20 dias.

“Os pais da vítima não pararam de escrever cartas ao governo”, disse Lam a repórteres, segundo a Hong Kong Free Press. “Havia cinco endereçadas a mim. Eles ainda estavam escrevendo em janeiro deste ano. Se você lesse as cartas do casal Poon, você também acharia que devemos tentar ajudá-los.”

Ela acrescentou: “Se agirmos com muito cuidado e lentamente consultarmos a sociedade ou emitirmos documentos de consulta, receio que não possamos ajudar nesse caso em especial”.

Comparecendo a uma entrevista coletiva em fevereiro de óculos escuros, máscara e boné de beisebol, a mãe de Poon também pediu ação urgente.

“Não consigo dormir à noite”, disse. “A única maneira de ajudar minha filha é ajudá-la a obter justiça.”

Mas o esforço para enfocar a discussão sobre a morte de Poon logo se desfez, enquanto os críticos alertavam sobre a introdução de extradições para a China continental —e perguntaram por que um acordo mais limitado não poderia ser elaborado só para Taiwan, ou só para o caso de Chan.

A oposição se reforçou de forma constante. Milhares de pessoas participaram de um protesto contra a medida em março, e em abril dezenas de milhares se manifestaram contra ela diante do Conselho Legislativo. 

Legisladores que discutiam o projeto de lei brigaram, e um deles foi retirado de maca do conselho.

Lam, funcionária pública de carreira que foi escolhida por Pequim em 2017, assegurou ao público que a legislação não seria aplicada a crimes políticos. 

Mas mesmo dentro de seu conselho insular de assessores —não eleitos, como ela mesma— havia desconforto.

As principais autoridades financeiras do território, por exemplo, ficaram desanimadas quando souberam que o projeto também permitiria que Pequim começasse a solicitar o congelamento de ativos em Hong Kong.

Então, em maio, Taiwan boicotou drasticamente os argumentos de Lam, declarando que não buscaria a extradição de Chan, mesmo que o projeto fosse aprovado.

“Sem a remoção de ameaças à segurança pessoal de cidadãos que vão para ou vivem em Hong Kong causadas pela extradição à China continental”, disse Chiu, o vice-ministro, “não concordaremos com a transferência caso a caso proposta pelas autoridades de Hong Kong.”

Lam disse que decidiu defender a lei de extradição por si mesma, sem incitação de Xi ou de outros líderes chineses. 

Mas os veículos de propaganda da China adotaram uma linha dura contra os manifestantes, acusando-os de conspirar com os inimigos da China no exterior, e vários altos funcionários do Partido Comunista em Pequim endossaram a legislação.

Isso ajudou a transformar o debate em uma luta mais ampla sobre a erosão das liberdades civis sob o domínio chinês —e o futuro de Hong Kong como centro financeiro global.

Havia cinco anos, desde o fracasso do Movimento Guarda-Chuva que exigia eleições livres, a oposição pró-democracia de Hong Kong estava na defensiva. 

Mas o projeto de extradição lhe deu a oportunidade de mobilizar o público contra algo fácil de entender: a possibilidade de ser preso e enviado para a China continental.

Na sexta-feira (14), Lam cruzou discretamente a fronteira até a cidade de Shenzhen, no continente, onde consultou autoridades graduadas chinesas. 

Algumas tinham vindo de Pequim, e alguns dos principais especialistas do partido em Hong Kong também estavam lá. 

Xi estava fora do país, comemorando seu aniversário com o presidente Vladimir Putin, da Rússia, em uma cúpula regional no Tajiquistão.

Houve um consenso: dada a reação do público, Lam devia adiar a legislação indefinidamente.

Ao anunciar a decisão no sábado (15), ela citou novamente o caso de Chan em defesa da medida, mas finalmente reconheceu que a posição de Taiwan significava que não havia pressa em aprová-la. 

“Adotaremos a atitude mais sincera e humilde para aceitar críticas e fazer aperfeiçoamentos”, afirmou.

O argumento de Lam não repercutiu, em parte porque muitos acreditam que Hong Kong pode encontrar uma maneira de garantir que Chan seja julgado sem abrir as portas para extradições para o continente.

China e Taiwan há anos trocam suspeitos criminosos entre si, por exemplo, embora não se reconheçam formalmente, e alguns legisladores acreditam que Hong Kong deveria estabelecer um acordo semelhante com Taiwan.

Fazer isso com Taiwan e não com a China continental, no entanto, seria politicamente desafiador.

Julian Ku, professor de direito na Universidade Hofstra, disse que isso significaria reconhecer que os tribunais de Taiwan são mais confiáveis e justos com réus criminais que os da China.

“Embora isso seja indubitavelmente verdade por quase todas as avaliações, seria realmente embaraçoso que o governo de Hong Kong admitisse essa verdade”, disse.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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