Descrição de chapéu Venezuela

Chavista moderado, jovem governador vira opção para substituir Nicolás Maduro

Héctor Rodríguez é visto como o potencial candidato governista em caso de novas eleições na Venezuela

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Oficialmente, o chavismo diz não ter um plano B para substituir o ditador Nicolás Maduro, apesar da pressão interna e externa por uma mudança no comando do país. Mas a Folha apurou que o regime se prepara indicar um eventual sucessor caso seja necessário convocar novas eleições. 

O escolhido para ser o candidato governista em um eventual pleito é o jovem político Héctor Rodríguez, 37. Sorridente, carismático e simpático, é uma das poucas lideranças do chavismo que ainda goza de alta popularidade.

Durante as negociações mediadas pela Noruega que tentavam por fim ao impasse no país, a oposição exigiu a convocação de eleições livres e com a presença de observadores internacionais independentes. 

Héctor Rodríguez acena para apoiadores durante evento de campanha eleitoral em Caracas 
Héctor Rodríguez acena para apoiadores durante evento de campanha eleitoral em Caracas  - Federico Parra - 10.out.17/AFP

O chavismo não quer ceder neste ponto. Porém, nas filas internas do movimento se discute o que fazer caso a eleição se mostre inevitável diante da deterioração ainda maior da crise humanitária e da divisão interna da cúpula do regime, tanto da ala civil quanto da militar. 

É por isso que a discussão sobre um eventual sucessor ganhou corpo, e o nome de Rodríguez se fortaleceu para ocupar essa posição. 

Sites jornalísticos venezuelanos, também afirmam que ele é o nome escolhido por Maduro caso o ditador tenha de deixar o poder.  

Rodríguez leva vantagem sobre dirigentes históricos da ditadura, como Diosdado Cabello ou o atual ministro da Indústria, Tareck El Aissami. 

Apesar de ambos não esconderem suas pretensões presidenciais, eles são acusados de uma série de delitos internacionais —de narcotráfico a lavagem de dinheiro. 

Os dois são ainda alvos de buscas da Justiça americana, o que significa que Washington dificilmente aceitaria uma eleição em que um deles saísse como vencedor. 

Já Rodríguez, um dos nomes de destaque da cúpula chavista desde a gestão Hugo Chávez (1954-2013), não enfrente esse tipo de impedimento. 

Nos últimos tempos, ele já tem sido colocado na linha de frente das fotos oficiais e nas mesas das conferências para a imprensa, que o regime usa para explicar suas posições. Esteve, inclusive, nas delegações enviadas para Oslo e Barbados para as negociações com a oposição. 

No retorno da capital norueguesa, Maduro apareceu em cadeia nacional para elogiar o sucesso da delegação do governo, e o único que aparecia na tela ao lado dele era o próprio Rodríguez.

Nascido numa pequena cidade da costa venezuelana, Río Chico, o advogado Rodríguez despontou na política local em 2007, mesmo ano em que surgiram os principais nomes da atual oposição, entre eles Leopoldo López, Juan Guaidó, Miguel Pizarro e Stálin González. 

Ele inclusive mantém uma relação cordial com estes opositores, o que também é considerado um ponto positivo. 

Durante os anos em que estudou na Universidade Central da Venezuela, Rodríguez era amigo de González, hoje vice-presidente da Assembleia Nacional (de maioria opositora) e braço direito de Guaidó.

A trajetória de Rodríguez dentro do chavismo começou quando tinha apenas 26 anos, ao se tornar chefe de gabinete de Chávez. 

O então presidente dizia a seu entorno que via no jovem o vigor de retórica e o perfil para ser um de seus herdeiros políticos no futuro. 

De fato, em 2007, quando a oposição começou a sair às ruas contra o governo, Rodríguez se destacou como uma das vozes mais contundentes em sua defesa.

A partir de então, ocupou vários ministérios estratégicos para o chavismo, incluindo as pastas de Esporte, Juventude e Educação, todas ligadas ao projeto de doutrinação e de recrutamento de novas fileiras de apoiadores. Em 2014 foi eleito deputado. 

Em 2017, quando era necessário um candidato forte para tirar do opositor Henrique Capriles o posto de governador de Miranda, o segundo estado mais populoso do país, Maduro escolheu o jovem político para a tarefa. 

Ele acabou vencendo a eleição, que foi marcada por denúncias da oposição de fraudes e outras irregularidades.

Mesmo com essas dúvidas pairando sobre sua legitimidade, Rodríguez vem fazendo um governo considerado bom pelos habitantes do estado, que é o segundo mais violento da Venezuela.

Sua estratégia foi centrar suas atenções na gestão e não no jogo político. Em Miranda, é possível encontrar mesmo entre moradores anti-Maduro quem elogie o governador. 

Rodríguez construiu escolas, equipou a polícia estadual para combater o crime e implementou um sistema de distribuição de comida a crianças em idade escolar que melhoraram sua aprovação.

Em seus discursos, reforça o tom conciliador. “Tenho a percepção de que os venezuelanos e seus partidos podem chegar a um acordo de convivência pacífica, no qual nos reconheçamos mutuamente. Sei que na oposição há vontade de trabalhar pelo povo”, disse, ao voltar de Oslo. 

A declaração destoa completamente do tom adotado pelo resto do regime, que na maioria das vezes insulta os opositores e simplesmente não acena com a possibilidade de um diálogo.

O jovem político estaria também mantendo diálogo constante com o empresariado, que prefere um nome novo a antigos líderes da cúpula da ditadura —os  empresários o consideram um chavista moderado.

O desenlace da crise venezuelano, porém, ainda é incerto. As negociações até agora não chegaram a um acordo, e o governador ainda teria que convencer Cabello, considerado o número dois do chavismo, de que é o melhor candidato.

Apesar disso, o nome de Rodríguez segue ganhando cada vez mais força dentro da cúpula do regime, incluindo entre militares ligados a Maduro. 

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